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O Existencialismo - Quando a liberdade é uma dádiva cruel

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05062010

Mensagem 

O Existencialismo - Quando a liberdade é uma dádiva cruel






O Existencialismo

A
proposta é a de entender o Existencialismo como especulação filosófica que visa a análise minuciosa da experiência humana em todos os seus aspectos teóricos e práticos, individuais e sociais, instintivos e intencionais, mas acima de tudo dos aspectos irracionais da vida humana.


Encontramos as origens do Existencialismo em Sören Aabye Kierkegaard (1813 -1855). Embora suas idéias filosóficas só tenham sido reconhecidas após a tradução de suas obras nos anos de 1909/1922 por Christoph Schrempf, o sucesso de suas idéias após a chamada "Renascença Kierkegaardiana" foi tanto que quase todos os autores da época a ele fizeram referência.


Sören Kierkegaard (1813-1855)

Apesar do precursor do existencialismo, Soren Kierkegaard, ser profundamente cristão, os principais filósofos que o desenvolveram e divulgaram, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre, eram ateus, com uma filosofia materialista, bastante pessimista e atéia. Surgiu porém uma corrente existencialista cristã, sendo o principal filósofo dessa corrente o filósofo Gabriel Marcel.
A morte é uma tragédia solitária

Para entender Kierkegaard, é interessante reproduzir esse trecho extraído do Livro das reflexões:
Perguntaram a um adolescente como ele gostaria que acontecesse a sua morte: "quero morrer dormindo e quando acordar já estar morto". Essa resposta aparentemente ingênua está ligada a um outro relato da experiência de espanto ocorrida com um atleta que narrou o seguinte: "sonhei que eu estava no estádio, lá embaixo, correndo na área central, mas... quem era o eu que estava na platéia me assistindo?" A resposta do adolescente e o espanto do atleta reforçam na verdade a antiga tese de que o eu é plural, um dos pilares da teoria da imortalidade do eu.


A tese da pluralidade do eu é absolutamente rejeitada por Kierkegaard que, contra ela, levanta a da unicidade do eu (eu-sou-apenas-um). No post mortem, não haverá um outro-eu que tenha consciência da própria morte. Essa solidão kierkegaardiana equivale à liberdade sartriana, à angústia heideggeriana e ao não-anonimato de Jaspers: isola o indivíduo do homem-massa, criando o existenz.

Na tragédia da solidão radical, de uma existência sem certezas, o existenz faz a escolha fundamental: o suicídio ou a fé. Não a fé das certezas, mas a fé paradoxal que, na relação oculta com Deus, se movimenta, ao mesmo tempo, num crer-e-não-crer, afinal Deus é aquele para o qual tudo é possível, até mesmo o negar da dádiva da fé.

No pensamento de Kierkegaard, Abraão é o exemplo vivo do herói absurdo. Sem saber porque, Abraão oferece a Deus o sacrifício de seu filho Isaac. Mas, este absurdo é revelador de Deus. Com efeito, no momento exato em que se daria o sacrifício, um anjo aparece a Isaac sustando a sua ação. Deus reconheceu a fidelidade e o amor de Abraão para com Ele, pois, na sua prova, seria capaz de sacrificar o seu filho bem amado Isaac.

Quando a liberdade é uma dádiva cruel



“Segundo Jean-Paul Sartre, ao homem corresponde uma liberdade absoluta com a qual chega a ser independente de toda ordem, toda lei, e de todo objetivo. É um ser completamente entregue a si mesmo e às suas decisões. O homem deve sair de seu ambiente conformista e exercer sua própria liberdade em decisões responsáveis. Na luta por manter sua liberdade pessoal, o homem enfrenta muitos inimigos: a tecnologia, a organização em qualquer esfera que tenha o propósito de usar as pessoas, a moral utilitária, a autoridade externa, a comunicação em massa e o conceito em si de objetividade. O que é que o homem consegue realmente com essa liberdade? O próprio Sartre reconhece que essa liberdade priva o homem de toda base sobre a qual pretende construir suas ações e, portanto, nenhuma ação pode ser boa, mas apenas uma dádiva cruel que o condena à liberdade como uma maldição. O homem não é uma realidade completa. É somente sua própria possibilidade, é apenas um projeto de si mesmo” (Mario Veloso, O Homem, Uma Pessoa Vivente, p. 15).

O existencialismo cristão

O existencialismo sartriano, ao recusar Deus, nega ao homem a possibilidade da transcendência vertical, isto é, a relação de dependência e de apelo que o homem poderia manter com um ser que encerra-se em si a própria temporalidade humana, pela razão de tê-la criado. Resta a transcendência horizontal, ou a relação intersubjetiva, que Sartre exemplifica com a disputa angustiante do olhar, que objetiva o outro, tornando-o coisa.


O existencialismo cristão procura recuperar a transcendência vertical, na medida em que vê na relação com Deus um dado essencial para a elucidação da situação humana.


Tem como um de seus pressupostos básicos que o homem não pode mais aparecer como evidente para si próprio, como ocorria durante o racionalismo clássico, quando explicava seu destino por via de determinismos de várias espécies, ainda sobreviventes nas categorias de raça ou de classe. O indivíduo não pode se diluir numa determinação abstrata que faz desaparecer sua singularidade. A inquietude é a mediação entre o homem e Deus, e interfere decisivamente na compreensão que o indivíduo alcança acerca de si mesmo. O caráter "problemático" do homem como afirma Gabriel Marcel (filósofo existencialista cristão) o obriga a um questionamento radical de sua existência.


A autonomia da razão conquistada no século XVII e o desenvolvimento científico e tecnológico que se seguiu levaram o homem a colocar-se na posição de absoluto, o que estaria inscrito no sentido da famosa afirmação nietzschiana da morte de Deus. No entanto, a morte de Deus significa apenas a quebra de um determinado modo de relação com o divino, precisamente aquele calcado nas categorias tradicionais que não respondem á complexidade trágica do fenômeno humano. De muito pouco adianta, para a compreensão de minha situação existencial, considerar Deus como causa do homem, pois a categoria de causalidade é muito mais adequada para a explicação de coisas, não de existências.


O homem está frente à transcendência divina numa relação medida pela inquietude, como bem o viram Santo Agostinho e Pascal. Nesse sentido, a filosofia autêntica só pode ser dramática, porque ela tem muito mais mistérios sobre os quais refletir do que problemas a resolver.


(Fascículos "História do Pensamento", n.º 58. Ed. Nova Cultural, 1987, pág. 689 e 690)

Eduardo

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O Existencialismo - Quando a liberdade é uma dádiva cruel :: Comentários

Mensagem em Sab Jun 05, 2010 10:11 pm por Eduardo


Às vezes, subestimamos o poder das idéias humanas. Tendemos a desprezar os estudiosos isolados do mundo que dão suas vidas para pensar as pesadas questões da filosofia, e dizemos: "o que isso tem a ver com o mundo prático no qual vivemos?" Não conheço outra filosofia na história, com possível exceção do Marxismo, que tenha tido um impacto tão radical, tão abrangente e tão rápido na formação da cultura humana como a filosofia do existencialismo.

O existencialismo contém muitas variações. Seu tema geral focaliza uma preocupação com a existência humana. Essa é a razão porque é chamado existencialismo.

Esta filosofia é construída primariamente sobre a pergunta: O que signi¬fica existir como pessoa nesse mundo? Ao centralizar sua atenção sobre a situação difícil do ser humano, o existencialismo tende a ser pessimista e ateísta, embora haja formas religiosas de existencialismo e formas mais otimistas de existencialismo. Mas no fundo, esta escola filosófica tende a ver o homem num ambiente ou numa atmosfera de desespero.

Dois dos grandes pensadores do existencialismo do século XX foram Albert Camus e Jean-Paul Sartre. Eles escreveram em resposta ao holocausto da Segunda Grande Guerra e suas idéias eram de grande desespero. Por exemplo, chegam à conclusão de que o homem em sua existência é uma paixão inútil e que a vida humana no final é sem sentido e insignificante. Dentro dessa visão, com respeito às coisas de Deus, a idéia é de que no céu não há ninguém em casa.

Alguns anos atrás, o defensor do existencialismo em Greenwich Village (um bairro da cidade de Nova Iorque N.T.) fez o seguinte gracejo com um repórter da revista Time: "Olha, eu procurei Deus nas Páginas Amarelas e ele não está entre os assinantes." A idéia é de que não há ninguém em casa no universo e que somos deixados aqui em nossa existência numa atmosfe¬ra de desespero final.

Como responder ao existencialismo? Uma coisa pela qual sou grato é que o existencialismo produz um solo tremendamente fértil para a prega¬ção do Cristianismo, porque o Cristianismo é muito otimista. Cremos que a existência humana tem sentido, e que é basicamente significativa porque Cristo definiu o significado de nossa existência. Portanto, a resposta de como devemos responder ao existencialismo é: simplesmente contraponha-se a ele com a esperança do evangelho.

CUIDADO COM O EXISTENCIALISMO

O Pai do Existencialismo moderno não foi um ateu francês do século XX, mas um cristão dinamarquês chamado Soren Kierkegaard (1813-1855) que poderia ter assinado uma declaração endossando os fundamentos históricos da Fé. Ele escreveu: “No geral, a doutrina como é ensinada (na igreja) é inteiramente sensatal” [28] .Todavia, poucos teriam feito mais no meio evangélico para minar metodologicamente a ortodoxia histórica que Kierkegaard. Aliás, foi seu filho filosófico, Karl Barth, quem deu o início à Nova Ortodoxia. Kierkegaard concluiu que “mesmo se afirmarmos que os defensores do Cristianismo”…tiveram sucesso ao provar sobre a Bíblia, tudo o que qualquer teólogo, em seu momento mais feliz, jamais desejou para provar sobre a Bíblia”, designadamente, “que esses livros e não outros pertencem ao Cânon; são autênticos; são completos; seus autores são confiáveis—um poderia muito bem dizer, que é como se cada carta fosse inspirada”. Kierkegaard perguntou: “Será que alguém que anteriormente, não teve fé foi trazido a apenas um passo mais próximo à sua aquisição? Não, nenhum passo” [29] .

Então Kierkegaard colocava o oposto, ou seja, “que os oponentes tiveram sucesso em provar o que desejavam acerca das Escrituras, com uma certeza transcendendo o desejo mais ardente da mais entusiasta hostilidade – e depois? Os oponentes aboliram assim o cristianismo? De jeito nenhum. O crente foi prejudicado? De forma alguma, e nem um pouco” [30] .

No mínimo, a bifurcação de Kierkegaard de fato e valor está axiologicamente fora de lugar. Na verdade, tem sido biblicamente desastroso, como Barth, Brunner e Bultmann demonstraram – ou quaisquer outros “Bs” que possam aparecer de repente zanzando em círculos não-ortodoxos. Precisamos somente mencionar as crenças inspiradas de Kierkegaardian: 1) A verdade religiosa é localizada num encontro pessoal (subjetividade); 2) A verdade proposicional não é essencial a fé; 3) A Alta Crítica é inofensiva ao real cristianismo; 4) Deus é “inteiramente outro” e essencialmente não pode ser conhecido, mesmo através da revelação bíblica. Isto dá um significado ainda maior para a advertência Paulina de “tomar cuidado com a filosofia”.

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