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A comunidade cristã primitiva de Jerusalém

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06072010

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A comunidade cristã primitiva de Jerusalém






A Orientação Teológica da comunidade cristã primitva de Jerusalém

A igreja originou-se na cidade ao redor do núcleo dos doze apóstolos. Uma vez que estes, bem como seus primeiros conversos eram, como bem declarou T. W. Manson, “judeus por nascimento e crescimento . . . é provável, a priori, que trouxessem à nova comunidade pelo menos algumas das práticas religiosas às quais há muito estavam acostumados”.

Lucas relata que entre os muitos conversos judeus, havia um grande número de sacerdotes que “eram obedientes à fé” (Atos 6:7). F. A. Regan bem observa que “Lucas não dá indicação alguma de que sua conversão conflitasse, em qualquer sentido, com seu apego à velha Lei”. De fato, possivelmente, como sugere B. Bagatti, “eles naturalmente continuaram exercendo seu ministério”. Isto bem pode ter sido necessário, em vista de que, como relata Lucas, havia “muitos milhares . . . entre os judeus que creram” (Atos 21:20). Parece plausível identificar estes sacerdotes convertidos com os anciãos que assistiam a Tiago e aos apóstolos na administração da Igreja (Atos 15:6, 22, 23; 16:4; 20:17, 18). F. F. Bruce adianta a hipótese de que “pode ter havido setenta deles, constituindo uma espécie de sinédrio nazareno, com Tiago sendo seu presidente”. Esta informação dada por Lucas revela que a igreja de Jerusalém não somente era composta principalmente de conversos judeus, mas possivelmente era até administrada por ex-sacerdotes, segundo o familiar modelo judaico do sinédrio. Sua atitude básica em relação às observâncias religiosas judaicas é melhor expressa pela concisa declaração de Lucas de que “eram todos zelosos da lei”. (Atos 21:20).

A escolha e exaltação de Tiago concede confirmação adicional da orientação teológica “judaica” da igreja de Jerusalém. Por que foi Tiago “o irmão do Senhor” (Gal. 1:19) e não outro apóstolo o escolhido para liderar a Igreja? Aparentemente, na escolha de um líder para a Igreja, o fator parentesco foi considerado mais importante que qualquer relacionamento anterior com Cristo. Esta razão, já implícita nas referências de Lucas e Paulo a Tiago, é explicitamente fornecida em várias obras posteriores de origem judaica-cristã.

Hegesippus, um converso judeu do segundo século, nativo da Palestina; e vários autores anônimos que produziram obras tais como: o Proto-Evangelho de Tiago, o Evangelho dos Hebreus, a História de José, o Carpinteiro, o Evangelho de Tomé, os diversos Apocalipses de Tiago, o Reconhecimento Clementino e as Homilias exaltam a figura de Tiago. Nestas obras, Tiago é glorificado como o representante legítimo de Cristo, como o irmão real de Cristo a quem primeiro apareceu, como o cabeça da Igreja, como aquele por cuja causa o céu e a terra vieram à existência, como o sacerdote único “a quem foi permitido entrar no santuário . . . para implorar o perdão divino para o povo”, como o filho de um sacerdote, como “santo desde o ventre da mãe”. Parece, portanto, que aos olhos dos judeus cristãos, como bem resumiu B. Bagatti, “Tiago era superior a Pedro e a Paulo, porque era descendente de Davi, do mesmo sangue de Jesus, e portanto, o legítimo representante da raça sacerdotal; e, finalmente, ele observou a lei ao ponto do heroísmo. Nenhum outro apóstolo poderia reivindicar tais prerrogativas”.

Enquanto esta exaltação de Tiago representa um progresso posterior, motivado aparentemente pela necessidade de realçar a posição da igreja de Jerusalém numa época em que entrava na obscuridade, permanece o fato de que Tiago foi aparentemente escolhido porque podia reivindicar parentesco sanguíneo com Cristo e assim cumprir o papel de um legítimo “sumo sacerdote” cristão. Isto revela o quanto o novo “sacerdócio” cristão e a liderança na cidade eram de orientação judia. Ainda mais esclarecedora para nossa investigação da possível origem da observância do domingo em Jerusalém, é a atitude básica de Tiago e seu grupo em relação às obrigações legais judaicas.

No ano de 49-50 A.D. os líderes da Igreja Cristã se reuniram em Jerusalém para deliberar sobre os requisitos básicos a serem cumpridos pelos gentios que aceitavam a fé cristã. O Concílio foi convocado por causa da dissensão que surgiu em Antioquia quando certos agitadores vieram da Judéia para aquela igreja, ensinando: “Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos”. (Atos 15:1) Esses judaizantes aparentemente alegavam falar em nome de Tiago, embora ele claramente negasse tê-los autorizado a fazer isto (Atos 15:24). Para definir a discussão, achou-se necessário que Paulo e Barnabé fossem a Jerusalém para discutir o problema com os apóstolos e anciãos (Atos 15:3). Houve grande contenda (Atos 15:7) na reunião, e foram feitos discursos por Pedro, Paulo e Barnabé (versos 7 e 12). Ao final, Tiago, que parece ter sido o presidente, propôs que os gentios que se haviam tornado cristãos estavam isentos da circuncisão, sendo porém notificados que deviam se abster “das contaminações dos ídolos, da prostituição, da carne de animais sufocados e do sangue. Porque Moisés tem, em cada cidade desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados” (versos 20 e 21).

A proposta foi aprovada pelos “apóstolos e anciãos” (verso 22) e medidas imediatas para assegurar sua implantação foram tomadas. A decisão do concílio, mencionada três vezes (Atos 15:20, 29; 21:25) com pequenas variantes, lança alguma luz na atitude da igreja de Jerusalém para com a lei judaica. Vários pontos são dignos de nota.

A isenção da circuncisão foi concedida somente “aos irmãos dentre os gentios” (verso 23). Nenhuma inovação houve para os cristãos judeus, que ainda circuncidavam seus filhos. Isto está indicado, não somente pela existência, após o concílio, de um grupo que era a favor da circuncisão, aparentemente apoiado por Tiago (Gál. 2:12), que constantemente embaraçava as comunidades gentias evangelizadas por Paulo (Gál. 3:1; 5:12; 6:12; Fil. 3:2), mas também pela explícita acusação que Tiago e os anciãos” fizeram a Paulo (aproximadamente dez anos mais tarde), a saber: “ensinas todos os judeus que estão entre os gentios a apartarem-se de Moisés, dizendo que não devem circuncidar seus filhos nem andar segundo o costume da lei” (Atos 21:21). A preocupação dos líderes da igreja de Jerusalém por tal boato (mesmo após tanto tempo, cerca de 58 A.D.) e sua proposta a Paulo de que silenciasse a acusação fazendo um voto de purificação no Templo (Atos 21:25), revelam quão profundamente ligados eles ainda estavam às instituições judaicas, como a circuncisão.

Além disso, as mesmas propostas feitas por Tiago e adotadas pelo Concílio, indicam que não se concedia liberdade indiscriminada aos gentios no tocante aos reclamos da lei. Dos quatro preceitos do decreto, de fato, um é moral (abstenção da prostituição) e três são cerimoniais (abstenção da contaminação dos ídolos, do que é sufocado e do sangue) (verso 20). Esta preocupação desnecessária pela contaminação ritual e leis alimentares reflete o grande respeito que ainda prevalecia para com a lei cerimonial. Para evitar ofender os preconceitos dos cristãos judeus, os conversos gentios deviam se abster de comer o que quer que fosse oferecido a ídolos, e até mesmo de aceitar ou participar de uma festa doméstica gentia, onde pudesse ser servido alimento associado a ídolos. Deviam também seguir as leis alimentares judaicas, não comendo da carne de animais mortos por estrangulamento. Esta preocupação excessiva de Tiago e dos apóstolos (Atos 15:22) em respeitar os escrúpulos judaicos quanto ao alimento e a associação com os gentios, dificilmente nos permite imaginar que um assunto de maior importância como a observância do sábado fosse unanimemente ab-rogado.

Mas, como podem alguns interpretar o silêncio do Concílio na questão do sábado como “a mais eloqüente prova de que a observância do domingo havia sido reconhecida por toda a Igreja apostólica e tinha sido adotada pelas igrejas paulinas”? Que tão drástica mudança no dia de adoração houvesse sido unanimemente realizada e aceita, sem provocar dissensão, é difícil de acreditar, em vista de diversos fatores. A atitude prevalecente da igreja de Jerusalém, como já destacamos, era caracterizada por intransigente respeito e observância dos costumes e instituições judaicas. Em tal clima, era praticamente impossível mudar a data de uma instituição milenar como o sábado, ainda altamente respeitada.

A declaração que Tiago fez para apoiar sua proposta é também significativa neste particular: “porque Moisés tem, em cada cidade desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados”. (Atos 15:21) A conexão entre a proposta de Tiago (verso 20) e esta declaração explicativa (verso 21) tem sido diversamente interpretada. Alguns acreditam que significa que os cristãos judeus não precisavam temer que a liberdade gentílica solapasse a observância das leis mosaicas, “ainda lidas, cada sábado, nas sinagogas ou congregações”. Outros entendem que o verso significa que assim como os preceitos da lei de Moisés eram diligentemente ensinados cada sábado, os cristãos gentílicos deviam cuidar para não ofender os preconceitos de seus irmãos judeus. Outros ainda interpretam-na como significando que os gentios certamente não achariam a proibição arbitrária ou dura, pois estavam bem inteirados das regulamentações levíticas em virtude de sua habitual freqüência à sinagoga no sábado. F. F. Bruce acha que as observações de Tiago talvez pretendessem acalmar a apreensão do partido farisaico na igreja de Jerusalém, a cujos olhos era especialmente importante que todo o Torah fosse ensinado entre os gentios.

Embora as interpretações acima apliquem as observações de Tiago a pessoas diferentes (cristãos gentios, cristãos judeus, ambos, e a ala farisaica na igreja de Jerusalém) todos reconhecem que tanto em sua proposta como na justificativa, Tiago reafirma a natureza obrigatória da lei mosaica que era costumeiramente pregada e lida cada sábado nas sinagogas. A manifestação deste excessivo respeito pelo Concílio à lei cerimonial mosaica, a explícita referência de Tiago à sua costumeira leitura e pregação aos sábados nas sinagogas, excluem categoricamente a hipótese de que o sábado já havia sido substituído pelo domingo.

A última visita de Paulo a Jerusalém (58-60 A.D.), à qual já nos referimos anteriormente, dá evidências adicionais da observância da lei pela Igreja de Jerusalém. A menção de Lucas de que Paulo “estava apressando-se para estar em Jerusalém, se possível no dia do Pentecoste” (Atos 20:16) e que eles haviam passado os dias dos “pães asmos” em Filipos (Atos 20:6), indica que os cristãos ainda conduziam suas vidas pelo calendário litúrgico judaico. Mais esclarecedor ainda é o registro do que ocorreu na própria Jerusalém. Tiago e os anciãos, depois que Paulo tinha “contado cada uma das coisas que Deus tinha feito aos gentios por intermédio de seu ministério” (Atos 21:19), disseram a Paulo: “Bem vês, irmão, quantos milhares de judeus há que crêem, e todos são zelosos da lei; e foram informados a teu respeito que ensinas todos os judeus entre os gentios a apostatarem de Moisés, dizendo-lhes que não devem circuncidar os filhos nem andar segundo os costumes da lei” (Atos 21:20, 21).

A profunda lealdade da liderança da igreja de Jerusalém às tradições religiosas judaicas é muito evidente. Não somente Tiago e os anciãos informaram a Paulo que muitos milhares de membros judeus de sua Igreja eram zelosos da lei, mas até mesmo confrontaram o apóstolo com o boato de que ele dissuadia crentes judeus de praticarem os costumes antigos, tais como a circuncisão, legados por Moisés. Procurando crer que seus receios eram infundados (e de fato não há evidência de serem verdadeiros), Tiago e os anciãos propuseram que Paulo dissolvesse a maliciosa acusação e provasse que ele mesmo “vivia observando a lei” (Atos 21:24) ao submeter-se ao rito purificador no Templo, juntamente com quatro membros da Igreja que aparentemente haviam se contaminado cerimonialmente. Com isto, sentia-se que toda a multidão de crentes de Jerusalém, bem como todo o povo na cidade podiam ver por si mesmos que o apóstolo ainda cumpria a lei de Moisés.

Esta preocupação da liderança da Igreja em reassegurar aos crentes judeus na Palestina o respeito de Paulo pelos costumes dos antigos, sugere, como nota R. C. H. Lenski, por um lado, que os membros haviam sofrido possivelmente por causa de falsos rumores sobre Paulo, e, por outro, que “eles ainda mantinham o seu modo judaico de viver, circuncidavam os seus filhos, comiam alimento puro, guardavam o sábado, etc”. Isto indubitavelmente facilitou a conversão de “muitos milhares” (Atos 21:20) de judeus, porquanto a aceitação do evangelho não exigia significativas mudanças em seu estilo de vida.

Esta excessiva ligação da igreja de Jerusalém aos costumes religiosos judaicos pode, talvez, deixar perplexo o cristão que considera a igreja-mãe da cristandade como o modelo ideal de sua vida religiosa. Não se deve esquecer, todavia, que o cristianismo surgiu das raízes e estrutura do judaísmo. Os primeiros conversos judeus viam a aceitação de Cristo, não como a destruição de sua estrutura religiosa, mas o cumprimento de suas expectativas messiânicas que realçavam sua vida religiosa com nova dimensão. O processo de separar a sombra da realidade, o transitório do permanente, foi gradual e com dificuldades.

A conduta de Paulo também merece considerações. Violou ele suas convicções ao aceitar a proposta de purificar-se no Templo? Assim não parece, uma vez que, por exemplo, ele não se envergonhou de mencionar o incidente quando defendeu-se perante Félix (Atos 24:17, 18). Alguns sugerem que, de fato, como o apóstolo havia anteriormente feito um voto de Nazireu, por sua própria iniciativa em Cencréia (Atos 18:18), ele já estava planejando oferecer sacrifício no Templo para completar o seu voto. Esta hipótese apóia-se no fato de que não há referência de Paulo fazer voto em Jerusalém. E ainda mais, como observa F. J. A. Hort, “o tempo a que se refere parece demasiado curto para que ele fizesse um voto e o cumprisse”. Parece plausível assumir, portanto, que Paulo tivesse propositadamente planejado trazer à sua nação “esmolas e ofertas” (Atos 24:17) para ajuntar mais intimamente as alas judia e gentia da Igreja. Para conseguir esse objetivo, ele evidentemente sentiu que necessitava providenciar também uma demonstração plausível de sua lealdade pessoal à lei e aos costumes. Esta preocupação do apóstolo em confirmar aos crentes judeus o seu respeito pela lei, revela não somente a lealdade destes aos costumes religiosos judaicos, mas também a indisposição de Paulo em ofender seus irmãos judeus em tais questões (se uma questão de princípio não estivesse envolvida). Essa atitude do apóstolo é suficiente para desacreditar quaisquer tentativas de atribuir-lhe a responsabilidade pela ab-rogação do sábado e pela introdução da observância do domingo.

O conselho de Cristo relativo à fuga de Jerusalém também é significativo neste aspecto. Em Mateus, um evangelho endereçado aos cristãos judeus, a admoestação de Cristo é assim registrada: “E orai para que a vossa fuga não aconteça nem no inverno nem no sábado” (24:20). Em nossa análise deste texto concluímos que a passagem, como declara E. Lohse, “oferece um exemplo da guarda do sábado pelos cristãos judeus”. Isto bem pode refletir a preocupação da igreja de Jerusalém com a observância do sábado não simplesmente pelo relato de sua referência à cidade, mas especialmente porque segundo a tradição da Igreja primitiva, o evangelho de Mateus foi escrito em aramaico para os cristãos judeus da Palestina.

A análise precedente das fontes do Novo Testamento sobre a igreja de Jerusalém estabeleceu solidamente que a Igreja primitiva aí era composta primariamente de judeus conversos, sendo administrada por eles, e que mantinham uma profunda ligação aos costumes religiosos judaicos, tais como a guarda do sábado. É impossível portanto, assumir que um novo dia de adoração fosse introduzido pela igreja de Jerusalém antes da destruição da cidade em 70 A.D. Podemos acrescentar que em vista da enorme influência exercida na Igreja em geral pela liderança e membros cristãos, teria sido praticamente impossível para qualquer igreja, onde quer que estivesse, introduzir a observância do domingo antes de 70 A.D. W. D. Davies, um bem reconhecido especialista em Cristianismo Primitivo, concisa e sabiamente resume a situação religiosa da época: “Por toda parte, especialmente a leste do Império Romano, haveria cristãos judeus cujo modo exterior de vida não seria marcadamente diferente daquele dos judeus. Tinham por certo que o cristianismo era uma continuação do judaísmo; para eles, o novo concerto, que Jesus estabeleceu por ocasião da Santa Ceia com os discípulos e selou com sua morte, não significava que o concerto entre Deus e Israel não estava mais em vigor. Ainda observavam as festas da Páscoa, Pentecoste e Tabernáculos. Continuavam sendo circuncidados, guardando o sábado semanal e as regulamentações mosaicas com respeito a alimentos. Segundo alguns eruditos, elas devem ter sido tão rigorosas que até a queda de Jerusalém em 70 A.D. eram o elemento dominante no movimento cristão.

A fuga da comunidade cristã antes da destruição de Jerusalém

Em 70 A.D. ocorreu o êxodo da cidade antes de sua destruição. O significado histórico do abandono cristão judaico e a migração para Pella (uma cidade da Transjordânia na parte norte da região da Peréia) não deve ser subestimada. J. Lebreton adequadamente resume a importância do evento:

“O êxodo teve decisivas conseqüências para a igreja de Jerusalém: foi quebrado o último elo que ligava os fiéis ao judaísmo e ao Templo; até o fim eles amaram sua magnífica construção, suas cerimônias e memórias; agora não restava nele pedra sobre pedra; Deus os havia separado do Templo. E este êxodo finalmente alienou deles a opinião judaica; haviam abandonado Jerusalém na época de sua maior tribulação; sua fé era então, não a de sua nação, e eles buscariam salvação em qualquer outro lugar.

O abandono da cidade pela comunidade cristã-judaica resultou também em sua alienação das instituições judaicas, tais como o sábado? F. A. Regan assume esta mesma posição em sua dissertação e sugere que o ano 70 A.D, marca o rompimento decisivo entre o sábado e o domingo. Ele escreve: “Pode-se apontar algum outro evento em especial, no qual o rompimento decisivo entre o sábado e o dia que chamamos domingo? Uma data muito provável seria o ano 70 A.D., com a destruição do Templo de Jerusalém”.
Indubitavelmente o êxodo e a destruição de Jerusalém tiveram efeitos decisivos no relacionamento entre o cristianismo e o judaísmo. Há contudo, significativas indicações históricas que excluem a possibilidade de que já no ano 70 A.D., ou pouco depois, os cristãos-judeus da Palestina romperam com a guarda do sábado e introduziram a observância do domingo. Consideraremos brevemente alguns dos dados históricos mais pertinentes:

Os historiadores Eusébio (cerca de 260-360 A.D.) e Epifânio (cerca de 315-403), nos informam que a igreja de Jerusalém, até o cerco de Adriano (135 A.D.) consistia de hebreus conversos e era administrada por quinze bispos dos “da circuncisão”, isto é, de descendência judia. Sua atitude básica parece ter sido de uma profunda lealdade aos costumes religiosos judaicos. Eusébio, por exemplo, relata que tanto a ala conservadora quanto a liberal dos ebionitas (um grupo cristão judeu) eram zelosos em insistir na observância literal da lei.

A Maldição dos Cristãos

Outra indicação da sobrevivência da observância do sábado entre os cristãos judeus na Palestina se torna evidente, ainda que indiretamente, pelo teste introduzido pelas autoridades rabínicas para detectar a presença de cristãos na sinagoga. O teste consistia de uma maldição que era incorporada na Oração diária–Shemoneh Esreh–e devia ser pronunciada contra os cristãos por qualquer participante nos serviços da sinagoga. Marcel Simon relata o texto palestino da maldição e também sugere a data de sua introdução, aceita pela maioria dos estudiosos: “É da sugestão de J. Gamaliel II, pouco depois da queda de Jerusalém e, muito provavelmente por volta do ano 80 A.D., que foi introduzido no Shemoneh Esreh, a famosa fórmula contra o Minin: “Que os apóstatas não tenham esperança e que o império do orgulho seja prontamente destruído em nossos dias. Que os nazarenos e os Minin pereçam em um instante; que eles todos sejam apagados do livro da vida, e que não sejam contados entre os justos. Bendito sejas Tu, ó Deus, que abates os soberbos”.

O testemunho de diversos Pais da Igreja confirma que essa maldição era regularmente pronunciada nas sinagogas. Jerônimo, por exemplo, escreve explicitamente: “Três vezes diariamente, em todas as sinagogas, amaldiçoam-se os cristãos, sob o nome de nazarenos”. O propósito da fórmula não era simplesmente amaldiçoar os cristãos como apóstatas, mas, como observa Marcel Simon, constituía “um teste confiável” para descobri-los. Ele explica que “como todos os membros da comunidade podiam ser convocados, na ausência dos sacerdotes oficiais, para oficiar no culto público, o método era certo: o participante contaminado com heresia tinha necessariamente que hesitar em pronunciar, com esta bênção, sua própria condenação. O Talmude declarava claramente: “Sempre que alguém cometer um engano em qualquer benção do Minin, deve ser chamado de volta ao seu lugar porque, supostamente, é um Min”.

O fato de que após a destruição de Jerusalém introduziu-se um teste pelas autoridades rabínicas palestinas para barrarem a presença dos cristãos e/ou sua participação nos serviços da sinagoga, indica que muitos cristãos judeus na Palestina ainda se consideravam essencialmente judeus. Sua aceitação de Cristo como o Messias não impedia sua freqüência aos serviços da sinagoga no sábado. A existência desta situação desacredita, portanto, qualquer tentativa de tornar os cristãos judeus responsáveis, à esta altura, pela substituição da guarda do sábado pelo culto no domingo.



Epifânio dava a SUA OPINIÃO de que os cristãos de Pela não eram cristãos, mas confirma que eles observavam o sábado, e isso é que vale em termos documentais. Claro, ele os considerava heréticos.
Agora, seria interessante ver a reação do intelectual católico que orientou a tese do Dr. Bacchiocchi. Eis como ele mesmo conta como se deu a questão toda de sua descoberta do texto de Epifânio:

Permitam-me falar sobre este documento do historiador palestino chamado Epifânio. Ele viveu ao redor de 350 AD e narra toda a história da igreja de Jerusalém e fala desses cristãos de Jerusalém que deixaram a cidade antes da destruição do ano 70 AD segundo a admoestação e instrução de Cristo. Lembram-se de como em Mat. 24:20 Jesus disse aos cristãos, que quando vissem os exércitos cercando a cidade não deviam demorar-se, mas fugir? E isso eles fizeram, e para onde foram? Para o norte, a um lugar chamado Pela, e sabem o que ocorreu? Eles estabeleceram-se ali, colonizaram o lugar e passaram a ser conhecidos como os nazarenos.
E sabem o que este Epifânio diz? Ele declara que esses nazarenos, ou seja, os diretos descendentes da igreja de Jerusalém, viveram ali no seu próprio tempo e, diz ele, que os nazarenos diferiam do resto dos cristãos por insistirem até aquele tempo na observância do sábado do sétimo dia. O documento inteiro está traduzido na pág. 157 de minha dissertação, assim poderão lê-lo por si próprios.
Quando eu descobri este documento, sabem o que eu fiz? Providenciei uma cópia e fui até o escritório de meu professor, [N.T.: o erudito católico Vincenzo Monachino]. Ele leu na coluna em grego e na coluna em latim e então me perguntou: “Onde encontrou isto?” Eu disse: “Estava no andar de baixo em sua biblioteca”. Eu não havia providenciado uma cópia para mim, e ele leu novamente e sabem o que ele disse? Ele declarou: “Este é o atestado de morte-em italiano ele disse il certificato di morte-da teoria que faz de Jerusalém o berço da guarda do domingo”.
Agora, por que ele disse isso? Porque ele era um homem muito inteligente. Ele reconheceu que se esses descendentes da igreja de Jerusalém preservaram a observância da guarda do sábado do sétimo dia até o 4o. século então dificilmente poderiam ser responsáveis pela mudança do sábado para o domingo no 1o. século, compreendem?
Tendo sido possível de provar para a satisfação de meu professor que Jerusalém necessitava ser excluída como o local de nascimento da observância do domingo a pergunta que permanecia em suspenso era-onde, quando, por que essa mudança teve lugar?
Ao continuar em minha investigação descobri evidência esmagadora indicando que essa mudança histórica começou aproximadamente um século após a morte de Jesus, não em Jerusalém, mas duas mil milhas de distância na igreja em Roma durante o reinado do famoso Imperador Adriano cuja foto aparece aqui na capa da Biblical Archaeology Review [Revista de Arqueologia Bíblica] de um tempo atrás, que publicou o meu artigo, “Como Ocorreu A Mudança do Sábado Para o Domingo”. Eu descobri que foi nessa ocasião, durante o tempo do Imperador Adriano, de 117 a 135, que a igreja em Roma tomou medidas para mudar o sábado para o domingo e a Páscoa de 14 de Nisã para o domingo de Páscoa.
Por que essa mudança ocorreu nessa ocasião? Basicamente porque esse foi o tempo em que o governo romano adotou medidas bastante repressivas contra os judeus, proibindo categoricamente a observância do judaísmo em geral e da observância do sábado, em particular. Por quê? Porque os judeus tinham um espírito de rebelião por toda parte. Eles estavam experimentando um reavivamento do nacionalismo.
A rebelião mais popular da época foi a rebelião de Barcocheba, e quando finalmente o imperador teve êxito em reprimir essa repressão, sofrendo pesadas perdas, não só expulsou os judeus de Jerusalém, mas proibiu categoricamente, sob ameaça de morte, a observância do sábado do sétimo dia. E eu descobri que foi nesse momento histórico crucial, quando era impopular e arriscado observar o sábado, a igreja em Roma, formada de cristãos gentios, a igreja vivendo sob o nariz, sob a atenção imediata do Imperador, decidiu que a melhor medida a adotar era mudar o sábado para o domingo, e a Páscoa de 14 de Nisã para o domingo anual, para mostrar separação, diferenciação dos judeus e de sua religião.
Como a igreja em Roma conseguiu fazer isso? Oh, como eu gostaria que estudássemos isto juntos. É muito interessante estudar a respeito de todas as medidas teológicas, litúrgicas e sociais que foram tomadas a fim de desencorajar a observância do sábado e incentivar, em seu lugar, a guarda do domingo. Uma das medidas que se destaca foi a mudança do sábado de um dia de festa para um dia de jejum para os judeus e para os cristãos. Então, em vez de ser um dia de alegria e celebração, tornou-se um dia de jejum e tristeza para matar o clima festivo do sábado. Eu descobri que a igreja em Roma promulgou muitos decretos determinando que o sábado devia ser um dia de jejum, quando as pessoas não deviam comer nada, por quê? Por duas razões: 1) Como disse o Papa Silvestre--a fim de demonstrar exacratione judeorum--desprezo e ódio para com os judeus. 2) A fim de aguardar ansiosamente pela vinda do domingo.
Permitam-me perguntar-lhes, amigos, é o ódio aos judeus um motivo legítimo para alterar um preceito divino?
Acaso Jesus jamais declarou que se se tornar impopular observar um de Meus mandamentos, tomem a liberdade de alterá-lo? Já leram isso nos evangelhos? Não, jamais encontraremos nos evangelhos tal tipo de conselho. Contudo, isso foi exatamente o que ocorreu. Foi por mera conveniência, o desejo de livrar a pele, como se diz, e aqueles que desejavam expressar separação e desprezo pelos judeus e seu sábado é o que levou ao abandono do sábado.
Mas permanece a pergunta, por que o domingo? Os cristãos poderiam escolher um dia diferente, como a sexta-feira, para celebrar e memorializar a Paixão e Morte de Cristo. Por que eles escolheram o domingo, o primeiro dia da semana? Um fato muito importante que influenciou a adoção específica do domingo foi, como descobri, o prevalecente culto ao sol com seu domingo relacionado. De fato, sabem o que eu descobri em minha pesquisa? Descobri que o culto ao sol, o sol invencível, o culto do solis invictus, havia se tornado muito popular, de fato chegou a ser o culto predominante de Roma antiga pelo meio do segundo século, e descobri que quando o deus-sol se tornou o deus mais importante, isso afetou o ciclo da semana romana.

Este trecho acima foi transcrito de um dos seminários que o Dr. Bacchiocchi apresenta por todo o mundo falando de suas pesquisas e da verdade do sábado. Quem desejar, posso remeter sem custo algum como anexo de um e-mail. Apenas confirme conosco interesse em ler os “seminários do Dr. Bacchiocchi” que teremos prazer em encaminhar a qualquer um. Inclusive recomendo-os muito ao Fabrício para que ele entenda o que realmente significa um trabalho de pesquisa erudito e atualizado.

Abraços
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Eduardo

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