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A semana da Criação, dias literais

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16072010

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A semana da Criação, dias literais






É racional crer na criação recente em seis dias?

Publicado em agosto 25, 2010 por Seventh Day

Antes de responder à questão de saber se é razoável ou racional acreditar em uma criação recente em seis dias, é importante definir os seus elementos fundamentais: “razoável” e criação recente em seis dias.” Enquanto a ciência tem sido associada à “razão” e, portanto, espera-se que seja razoável, o criacionismo tem sido associado por muitos à “fé” e, portanto, parece ser incompatível com qualquer coisa “razoável”.1

Mas a fé bíblica, nesse caso a fé na criação, é “razoável”, no sentido de que não é mítica e/ou irracional, pelo contrário, apresenta histórica (a Bíblia também é um documento histórico), natural e sensível evidências para suas alegações. Embora seja verdade que a Bíblia não é um documento científico moderno da criação, ainda assim se espera que aceitemos pela fé o seu registro (Hebreus 11:3, 6). Contudo, não se espera que exerçamos fé cega ou simplista.2 Pelo contrário, a Bíblia oferece estrutura e argumentos para que a fé seja convincente acerca da veracidade cosmológica e histórica de eventos e elementos apresentados biblicamente. Leonard Brand e David Jarnes resumem as evidências judaico-cristãs para a razoabilidade das Escrituras, ao enumerar: (1) o cumprimento histórico das profecias bíblicas/previsões; (2) o apoio arqueológico para as históricas localizações bíblicas, pessoas ou acontecimentos; (3) os regulamentos mosaicos de saúde que diferem radicalmente dos do Egito, apontando para uma revelação sobrenatural. As três fontes bíblicas de evidências são experimentáveis e assim reforçam nossa visão da Bíblia como sendo razoável. Fato comprovado também em relatos das Escrituras que não são experimentáveis – característica que se deve não ao caráter pré-científico da Bíblia, mas às limitações da ciência.3

Justo Gonzalez definiu “criacionismo” como “a resposta de alguns cristãos conservadores para a teoria da evolução, que eles veem como uma ameaça para a doutrina cristã da criação… Segundo os criacionistas, a história bíblica da criação… é cientificamente defensável, e há uma diferença abissal entre a doutrina cristã da criação e a teoria científica da evolução”.4 Uma forma de criacionismo – “criacionismo recente em seis dias” – enfatiza que a vida e a organização deste planeta se originou sobrenaturalmente em seis dias, e mais recentemente (em vez de alguns milhares de milhões de anos atrás).5 Assim, ao assumir que a Terra poderia ter sido criada em um momento anterior (antes de Gênesis 1:2), evita tomar partido pelo criacionismo da Terra recém-criada, que insiste que o próprio planeta, se não todo o Universo, tem cerca de 6.000 anos de idade. Evita também defender qualquer lacuna entre Gênesis 1:1 e 1:2,6 ou a “teoria do intervalo”, que insere uma descrição especulativa do que poderia ter acontecido no intervalo entre os eventos de Gênesis 1:1 e 1:2.7

Dessa forma, é razoável considerar a criação recente em seis dias? Acreditamos que sim, por uma série de razões. As três primeiras evidências serão persuasivas principalmente para aqueles que já acreditam na Bíblia, enquanto que as outras podem ser mais pertinentes para os que ainda não acreditam.
Evidências de estudos bíblico-teológicos



1. O criacionismo recente em seis dias é razoável, da mesma forma e com a mesma intensidade em que a fé na Bíblia é razoável. É razoável acreditar no caráter histórico, não-mítico, factual do relato da criação, pois é razoável acreditar em outros relatos bíblicos, como os relatos da encarnação, ressurreição, ascensão e promessa da segunda vinda de Cristo.8

Em outras palavras, o criacionismo recente em seis dias é uma questão de fé, mas uma fé apoiada em evidências. O evolucionismo naturalista é também, em última análise, edificado em pressupostos filosóficos (como a eternidade da matéria/energia, biogênese, absoluto uniformitarianismo e naturalismo reducionista). Assim, ele também procura por evidências para comprovar a sua razoabilidade. Por conseguinte, um aspecto importante dessa discussão sobre razoabilidade diz respeito ao grau de autoridade que deve ser dado para os fundamentos do evolucionismo e criacionismo, respectivamente. São os pressupostos e/ou conclusões dos cientistas evolucionistas mais confiáveis do que as Escrituras? Brand e Jarnes, tendo descrito a relatividade das teorias científicas, por um lado, e a razoabilidade da fé na Bíblia, por outro, concluem que “se o naturalismo é falso e se Deus realmente se comunicava com os escritores da Bíblia, teríamos razões para acreditarmos que é mais digno de confiança do que as autoridades humanas”.9

2. Há uma conexão entre uma interpretação direta da descrição da criação de Gênesis e a data de criação apresentada. Richard Davidson argumenta convincentemente que o relato bíblico da criação aponta claramente para um registro literal e histórico dos eventos descritos, o que implica em um curto processo de criação abrangendo apenas seis dias de 24 horas. Ele mostra que mesmo os estudiosos histórico-críticos mais cautelosos têm insistido que o autor de Gênesis pretendeu que seus leitores compreendessem todo o processo de criação da vida na Terra durante esse período. A história da criação não apresenta qualquer sinal de linguagem alegórica ou mitológica e, portanto, não permite a interpretação de um dia para uma semana da criação.10 Também o quarto mandamento do Decálogo (Êxodo 20:8-11) supõe a criação em dias literais de 24 horas, ligando intimamente a celebração do sábado (e sua legitimidade) com a nova semana.11 Dessa maneira, qualquer tentativa de conciliar a criação com uma visão da evolução com base em uma longa história de vida na Terra, como a evolução teísta e criacionismo da velha Terra (a criação progressiva), está em desacordo com a clara intenção da Escritura.12

A extensão da história da vida na Terra, para se adequar com a evolução teísta ou com o criacionismo da velha Terra, é baseada no pressuposto de que as genealogias de Gênesis são simbólicas ou representativas. BB Warfield definiu as bases para essa abordagem, argumentando que podemos confiar em certa medida nas genealogias bíblicas que começam com Abraão, uma vez que temos informações adicionais além dessas genealogias, mas que não podemos fazê-lo com as genealogias anteriores, porque “somos dependentes inteiramente das inferências extraídas das genealogias registradas no quinto e décimo primeiro capítulos de Gênesis. E se as genealogias das Escrituras fornecerem uma base não sólida para inferências cronológicas é claro que ficamos sem os dados das Escrituras para a formação de uma estimativa da duração desses períodos”. Aplicando o estilo de genealogias de Mateus e de Lucas para as genealogias em Gênesis 5 e 11, Warfield explicou que “não há razão inerente à natureza das genealogias das Escrituras porque uma genealogia que registrou ligações… pode não representar um retrocesso efetivo de cem ou mil ou dez mil ligações”.13 Em oposição a isso, Davidson argumenta conclusivamente que as genealogias de Gênesis 5 e 11 contêm duas características especiais que fazem um esforço extra para provar o contrário, isto é, “que não existem lacunas individuais entre os patriarcas mencionados: (1) “características únicas de integração” do texto (“Um patriarca viveu X anos então, gerou um filho, depois que gerou esse filho, ele viveu mais Y anos, e gerou mais filhos e filhas, e todos os anos deste patriarca foram Z anos”) tornam “impossível argumentar que há importantes lacunas geracionais”, e (2) ao contrário de outras genealogias bíblicas que usam a forma Qal “gerou”, a forma Hiphil (yalad) é utilizada, a qual “é a especial forma causal que em outros lugares no VT refere-se à real descendência físico-direta, ou seja, o pai biológico da relação pai-filho (Gênesis 6:10; Juízes 11:1; 1 8:9 Crônicas; 14:3; 2 Crônicas 11:21; 13: 21; 24:3).”14 Portanto, essas genealogias bíblicas excluem a extensa história de vida tão necessária para aqueles que querem conciliar a Bíblia com a evolução, e representam uma ferramenta histórica razoável para posicionar um período recente de vida na Terra.

3. Uma criação recente de seis dias é coerente com os conceitos bíblico-teológicos da onipotênica divina, justiça e amor. A “desilusão” de Darwin com a noção de um Deus justo e amoroso foi baseada em sua rejeição (e aparente mal-entendido) da teodicéia clássica que atribui a situação atual do nosso planeta ao abuso da liberdade da escolha.15 Mas se Deus não é de fato apenas onipotente, mas também amoroso e justo, então é perfeitamente razoável que Ele iria criar e organizar a vida neste planeta em um processo curto, inofensivo e ordeiro, porque qualquer outra coisa, como a progressão violenta da vida durante longos períodos descritos pela teoria da evolução é repugnante para Sua natureza.
Evidências de estudos científicos



1. A razoabilidade de uma criação recente em seis dias é evidente a partir de séculos de debate entre a ciência e o cristianismo. A hipótese de uma longa história de vida na Terra surge dos conceitos uniformistas da geologia e da evolução biológica dos séculos XVIII e XIX de uma fonte comum baseada em probabilidades percebidas e seleção natural.16 Roth, porém, mostra como os recentes desenvolvimentos na ciência tem cada vez mais desafiado o uniformitarianismo a favor do catastrofismo global, observando que o ponto de partida começou com as observações de fenômenos globais como a produção de correntes de desordem produzindo deposição rápida. Ainda mais revelador é o surgimento recente das teorias que explicam a extinção dos dinossauros por meio de uma catástrofe global como resultado de um asteróide ou cometa.17 O surgimento do neocatastrofismo, que adiciona ainda mais apoio à enxurrada de modelos que explicam os depósitos geológicos em termos de evolução rápida e recente, tem dado um apoio adicional para uma criação recente.18

2. A evolução biológica ainda tem encontrado desafios significativos em seus próprios proponentes. Curiosamente, cientistas como Stephen Gould e Niles Eldredge têm promulgado o conceito de equilíbrio pontuado, a fim de explicar a falta de evidência de fósseis de transição.19 Além disso, Michael Denton, numa base puramente científica, desafiou a validade dos evolucionistas argumentando a partir da paleontologia até à biologia molecular.20

Concluindo, a teoria da evolução está longe de ser um fato provado, abrindo espaço para o relato bíblico da criação como uma alternativa razoável.21

Gheorghe Razmerita tem doutorado em Teologia pelo Instituto Adventista Internacional de Estudos Avançados nas Filipinas. É professor de Teologia e História da Igreja na Universidade Adventista da África, Nairobi, Quênia. E-mail: grazmerita@gmail.com

Este artigo foi publicado originalmente em Reflexões, um boletim informativo do Instituto de Pesquisa Bíblica.

Referências

1. Cf. Leonard Brand e David C. Jarnes. Beginnings: Are Science and Scripture Partners in the Search for Origins? Nampa, ID: Publicadora Pacific Press Assn., 2005. p. 25, 27. Também Norman Gulley. “Basic Issues between Science and Scripture: Theological Implications of Alternative Models and the Necessary Basis for the Sabbath in Genesis 1-2” in Journal of the Adventist Theological Society, 2003, 14: 195-228, esp. 203, 204. (Hereafter JATS).

2. Ver também Norman Geisler. “Faith and Reason” in Baker Encyclopedia of Christian Apologetics. Grand Rapids, MI: Baker. p. 239-243.

3. Brand e Jarnes, p. 30-32.

4. Justo Gonzalez. Essential Theological Terms. Louisville, KY: Westminster John Knox, 2005. p. 42.

5. Ariel Roth. Origins: Linking Science and Scripture. Hagerstown, MD: Publicadora Review and Herald Assn., 1998. p. 316; Richard Davidson. “In the Beginning: How to Interpret Genesis 1” in Diálogo 6 (1994) 3:9-12.

6. James Gibson. “Issues in ‘Intermediate’ Models of Origins” in JATS 15, 2004, p. 74, 75; Roth, p. 341, 342.

7. Roth, p. 316-318, 340, 341. Eruditos adventistas continuam a debater a existência de uma “teoria do intervalo” entre Gen. 1:1 e 1:2. Marco Terreros. “What Is an Adventist? Someone Who Upholds Creation” in JATS, 1996, 7:147-149, aceita a teoria do intervalo apenas na teoria, mas tem reservas teológicas, argumentando que a teoria é imposta pela ciência e que não há necessidade de lacunas na criação de Deus. No entanto, de acordo com Richard M. Davidson. “The Biblical Account of Origins” in JATS, 2003, 14:5-10, Gen. 1:1 deve ser traduzido como uma cláusula independente, que, então, não exclui a teoria do intervalo para a qual ele se inclina, sem ser dogmático (Ibid., p. 19-25).

8. Brand e Jarnes, p. 30-32, 27.

9. Lamech Liyayo (autor do livro Ted Peters’Proleptic Theory of the Creation of Humankind in God’s Image: Critical Evaluation. Silang, Cavite, Philippines: Instituto Adventista International de Estudos Avançados, 1998) observa que Peters aceita a possibilidade de uma histórica segunda vinda de Cristo, mas rejeita como não-histórica o relato da criação de Gênesis, apesar de ambos pertencerem à mesma Escritura; ver também, Gulley, p. 213. Randall W. Younker. “Consequences of Moving Away from a Recent Six-Day Creation” in JATS 15, 2004, p. 64, 65, afirma que para os eruditos “Neoevangélicos” (que reinterpretam Gênesis em uma maneira não-literal ) “para ser coerente, eles devem também negar um histórico período patriarcal (Abraão), a Estadia (Israel no Egito), o Êxodo (Mar Vermelho), Monte Sinai (Os Dez Mandamentos – o Sábado), a Conquista (Jericó), e provavelmente a existência da Monarquia (Salomão e Davi), até mesmo a ressurreição de Cristo poderia ser negada”.

10. Davidson, p. 10-19; ver também Gerhard F. Hasel. “The ‘Days’ of Creation in Genesis 1: Literal ‘Days’ or Figurative ‘Periods’/’Epochs’ of Time?” in Origins 21, 1994, p. 5-38; Jacques Doukhan. “The Genesis Creation Story: Text, Issues, and Truth” in Origins 55, 2004, p. 12-33.

11. Ver Gulley, p. 212-216, 221-224.

12. Para uma descrição desses modelos, veja Gibson. “Issues”, p. 73-87; Roth, p. 342-344.

13. Ver B. B. Warfield. “On the Antiquity and the Unity of the Human Race” in Biblical and Theological Studies. Filadélfia: The Presbyterian & Reformed Pub., 1968. p. 240, 241.

14. Davidson, p. 26; ver também G. Hasel. “Genesis 5 and 11: Chronogenealogies in the Biblical History of Beginnings” in Origins 7, 1980, p. 23-37.

15. Ver Nigel M. de S. Cameron. Evolution and the Authority of the Bible. Exeter, U.K.: Paternoster, 1983. p. 50-63. Sobre os problemas de Darwin com o projeto, veja Charles Darwin em Asa Gray, 22 May 1860, em Francis Darwin (ed). The Life and Letters of Charles Darwin. New York: Appleton, 1905 (2:105), citado em Neil Messer. Selfish Genes and Christian Ethics; Theological and Ethical Reflections on Evolutionary Biology. Londres: SCM, 2007. p. 39.

16. Roth, p. 197, 198.

17. Ibid., p. 199, 200; ver também. L. James Gibson. “Contributions to Creation Theory from the Study of Nature” in JATS 14, 2003. p. 147; Harold G. Coffin, Robert H. Brown e R. James Gibson. Origin by Design. Hagerstown, MD: Publicadora Review and Herald. Assn., 2005. p. 394.

18. Ibid., p. 200-230; ver também, Coffin. Origin by Design. p.37-43, 72-103, 183-194.

19. The Columbia Encyclopedia (6th e.; s.v. “Gould, Stephen Jay”). Embora a ideia do equilíbrio pontuado tenha sido introduzida anteriormente, ela tornou-se altamente influente com a publicação do proeminente artigo por Niles Eldredge e Stephen Jay Gould, “Puntuated Equilibria: An Alternative to Phyletic Gradualism” (em T. J. M. Schopf (ed.). Models in Paleobiology. São Francisco: Freeman Cooper, 1972. p. 82-115, esp. 85-90), citado em 26 de agosto de 2009, http://www.blackwellpublishing.com/ridley.classictexts/eldredge.pdf. Ver também: Coffin. Origin by Design. p. 258-271.

20. Michael Denton. Evolution: A Theory in Crisis, 3d rev. ed. Bethesda, MD: Adler & Adler, 1986.

21. Ver Roth, p. 332, 333; Jonathan Wells. Icons of Evolution: Science or Myth? Washington, DC: Regnery, 2000. Coffin. Origin by Design. p. 393, 394. Bert Thompson. Creation Compromises. 2d ed. Montgomery, AL: Apologetics, 2000. p. 50-71. Citado em 25 de agosto de 2009 (Disponível em: http://www.apologeticspress.org/pdfs/e-books_pdf/cre_comp.pdf).





A SEMANA DA CRIAÇÃO: DO PRIMEIRO AO QUINTO DIA

Frank Lewis Marsh

Ph. D. em Biologia pela Universidade de Nebraska, foi um dos fundadores do Geoscience Research Institute. Residia em Berrien Springs, Michigan até seu falecimento no ano passado. Este artigo corresponde ao capítulo 13 do seu livro “Estudos sobre Criacionismo”, página 194 a 217, edição sem data, da Casa Publicadora Brasileira, Santo André, S. P.


A Origem da História da Criação - A Bíblia não dá nenhuma explicação da origem do relatório da criação contido no Gênesis. É razoável supor que Deus mesmo comunicasse os fatos a Adão e Eva. Deles, provavelmente, passou por tradição para Moisés, que escreveu os fatos sob a inspiração divina, omitindo quaisquer erros ou inexatidão que se tivessem intrometido na história em seu tempo. A história é de todo o ponto de vista completa e satisfatória. O crítico bíblico, Skinner, diz: “É uma coisa ousada desejar um tratado mais digno do tema, ou mais impressivo no efeito, do que o que achamos no bosquejo rigorosamente cinzelado e nas cadências majestosas do primeiro capítulo de Gênesis” (1). As Escrituras mesmas consideram este relatório como história verdadeira. Notai as seguintes passagens: Êxodo 20:9-11; 31:17; Salmos 8 e 104; S. Mateus 19:4-6; II S. Pedro 3:5; Hebreus 4:4 (2).

I. O PRIMEIRO DIA
a. A Criação das Substâncias da Terra
“No princípio criou Deus os céus e a terra. Ora, no que respeita à terra, estava sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus Se movia sobre a face das águas”. Gênesis 1:1 e 2. (As sentenças em negrito são citadas do livro Exposition of Genesis, de H. C. LEUPOLD. São suas traduções do texto original hebraico).
Esta declaração responde à pergunta: “Qual foi o princípio da terra?” As coisas começaram pela palavra de Deus na Sua criação do céu e da terra. Quanto à terra, não tinha existência antes desse tempo. O Criador é chamado Elohim, palavra hebraica no plural, usada para indicar alguém que pela Sua natureza e Seu trabalho desperta no homem um santo temor e reverência. Estes versos demonstram claramente a falsidade da pretensão do panteísmo, acentuando a personalidade de Deus. Ele existiu antes da matéria e forma da terra e as trouxe à existência. Portanto, não podem constituir parte de Sua pessoa.
A palavra bara traduzida aqui por “criou”, nunca é usada na Bíblia no Kal, ou forma simples do verbo para outra atividade que não a divina. Esta palavra nem sempre significa formar alguma coisa do nada. Para ilustrar, em Isaias 65:18 lemos: “Eis que crio (bara) para Jerusalém alegria, e para o seu povo gozo”. E mais uma vez em Gênesis 1:1, onde não se encontra nenhum material que possa ser trabalhado, bara significa “criação do nada”. Esta doutrina também é ensinada em Romanos 4:17; Hebreus 11:3; Salmo 33:6 e 9 e Amós 4:13 (3).
As declarações dos versos 7-10 de Gênesis 1 fazem com que se presuma de maneira lógica que “céus” e “terra” do verso 1 são nosso firmamento e nosso mundo respectivamente. Em verdade, o mesmo Deus criou o resto do universo; mas, possivelmente exceto a alusão às estrelas (verso 16), a história do Gênesis se relaciona especialmente com o nosso sistema solar e especificamente com a nossa terra.
Tendo estabelecido que as duas partes do mundo, terra e firmamento, ou céu, se originaram pela palavra do Criador, o autor do Gênesis logo depois descreve a aparência da matéria-prima da terra, imediatamente depois de sua criação. A frase hebraica aqui traduzida “sem forma e vazia” é tohu wavohu. Tohu é uma palavra que significa “sem forma”. Bohu vem da raiz “estar vazio”, significando portanto que “não tinha nada”.
Comentando esta expressão, o Dr. Leupold diz: “Tohu” é realmente usado como um adjetivo enfático, como é também, naturalmente, bohu. Sobre o verbo hayethah, “era”, não pode recair ênfase, numa sentença em que seguem dois predicados significativos. Deve servir simplesmente como união. Consequentemente, todo o intento para pôr neste verbo algum pensamento como 'a terra já existia', ou 'assim esteve por muito tempo', é inteiramente inadmissível em gramática” (4).
Esta mesma expressão, tohu wavohu, é usada em Jeremias 4:23 para descrever a terra durante o milênio, quando as formas vivas estão ausentes, ou quase ausentes. Contudo deve-se observar que a condição “sem forma e vazia”, descrita em Jeremias, refere-se unicamente à superfície da terra. À luz deste texto parece razoável, portanto, presumir que a descrição de Gênesis 1:2 pinta a terra inteiramente formada como um corpo astronômico e estabilizada na sua geologia, com exceção do aspecto de sua superfície, inteiramente sobre o controle das “forças naturais”, e caracterizada pela falta de qualquer ser vivo.
Absoluta escuridão havia na superfície da terra. Aparentemente, nem mesmo a luz das estrelas alcançava a superfície. Que as estrelas existiam naquele tempo é certo, porque agora sabemos que tem incidido sobre nossa terra o brilho estelar que deixou as estrelas milhões de anos luz no passado - e nossa terra, de acordo com a cronologia bíblica, não pode ter mais do que sete mil anos de existência. É provável que a camada de nevoeiro que envolvia a terra, como os versos seguintes o indicam, impedisse que o brillho das estrelas a alcançasse.
A palavra traduzida aqui por “abismo” é a palavra tehom, que vem da raiz hum, significando “retumbante”. Que “abismo” se refere à água como a conhecemos, é indicado pela cláusula seguinte, onde a palavra “águas” a substitui. Pode parecer que pelo menos uma grande porção de superfície disforme da terra, se não sua inteira superfície (ver Salmo 104:7-9), estivesse coberta com água, e aparentemente, por alguma razão, esta água estava em agitação suficiente para que houvesse barulho. Ao contrário da opinião comum, o ar não foi criado no segundo dia mas deve ter sido trazido à existência antes, com as outras matérias inorgânicas. Se o ar não tivesse estado presente, tehom, o “abismo” ou “águas”, teria evaporado prontamente para o vácuo acima da terra. Assim, teria sido possível ao vento atmosférico produzir ruido.
Ruach Elohim, o Espírito de Deus, ou Epírito Santo, é apresentado como Se movendo protetoramente sobre a superfície da massa informe da terra. Este particípio, mera (ch) chepheth, nunca é usado na Bíblia para sugerir “incubar”; pelo contrário, sugere adejar, mover-se. A diferença pode ter significação. Uma galinha, por exemplo, choca os ovos mas move-se sobre os pintos. A interpretação fabulosa de que o Espírito estava incubando o mundo em embrião é indefensável.
A pluralidade de Elohim no primeiro verso é parcialmente explanada no segundo verso, pela presença do Espírito Santo. Este verso em conexão com S. João 1:1-3; Colossenses 1:16 e I Coríntios 8:6, torna claro que “os Deuses” que criaram a nossa terra foram o Pai, o Filho e o Espírito Santo (5). O plano foi desenvolvido pelos primeiros dois membros da Trindade; Cristo, o Verbo, deu a ordem para o aparecimento dos materiais e formas, e o Espírito Santo foi o agente ativo, executando o trabalho de modo sobrenatural. Assim Elohim, “os Deuses”, foi triúno na natureza, formando a Trindade.

b. O Aparecimento da Luz

“E disse Deus: Haja luz. E houve luz. E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas. E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite; então veio a tarde, e então veio a manhã - o dia primeiro.” Gênesis 1:3-5.
A ordenada seqüência do trabalho da semana da criação é muito impressiva. Para fazer provisões para o aparecimento e manutenção de plantas e animais, a matéria-prima teve primeiro de ser trazida à existência, e posto sob controle o que chamamos “lei natural”. Então o quesito mais essencial para a vida foi a luz acompanhada de calor.
O texto hebraico diz: Ye hi or wa ye hi or (“Haja luz e então houve luz!”). A Palavra or não se refere aos corpos celestes mas ao fenômeno físico chamado luz. A fonte desta luz não é revelada aqui. Entretanto, não é ilógico supor que todo o nosso sistema solar fosse formado no primeiro dia. Naquele evento o Sol estaria presente, e sua luz apareceria numa forma difusa através das nuvens pesadas que sem dúvida envolviam a terra. Que a terra começou a rotação sobre o seu eixo quando apareceu, é demonstrado pelo fato de que o primeiro dia consistiu de uma porção de trevas e uma porção de luz, tarde e manhã. Os últimos três dias da semana da criação são claramente controlados pelo Sol, cujo disco apareceu visivelmente no quarto dia, e os dias são descritos nos mesmos termos usados para delimitar os primeiros três. Isto constitui forte argumento de que os primeiros seis dias foram iguais em extensão e em natureza; foram dias normais de vinte e quatro horas.
A palavra hebraica wayyabhdel, que é traduzida, “E fez Deus separação entre a luz e as trevas”, não significa que a luz estava misturada com as trevas e que tivesse de ser desembaraçada, mas significa literalmente: “Fez separação”. Assim uma funcionou num tempo e outra noutro tempo. Podemos mesmo ser justificados quando afirmamos que ocorreu uma separação entre a luz e as trevas. A passagem de Jó 38:19 e 20 leva-nos a tal conclusão (6) .
É interessante notar que no verso 5 a palavra “dia”, (yom) é usada em dois sentidos. Dia (yom) quando usado com “noite” (layelah) deve referir-se à parte clara do dia, mais ou menos doze horas. Quando é feita a declaração de que o “dia” (yom) terminou, a mesma palavra é usada para significar um período de vinte e quatro horas.
Há quem diga que a expressão “e foi a tarde e a manhã” significa que o dia começa com a manhã e não com a tarde. O argumento usado em tais casos é que o verso 5 descreve a conclusão do trabalho deste dia e não o seu começo, isto é, a tarde mergulha na noite, que é terminada pela manhã seguinte, o começo do dia seguinte. Este é um ponto de vista de um grupo exemplificado por Otto Procksch, em Kommentar zum Alten Testament (Gênesis), que assegura que “tarde” é usada como a terminação da porção iluminada do dia, e “manhã” como o fim da porção escura. Entretanto, deve-se reconhecer que os começos das duas metades de cada dia, isto é “tarde” para a porção escura, e “manhã” para a parte clara, podiam ser usados para indicar o dia inteiro, assim como o final das duas metades. De fato parece muito mais lógico que cada metade fosse demarcada por aquilo que a separa da metade precedente, do que o fim de cada metade fosse usado para indicar o período das doze horas que ela termina. O argumento de que todo o verso 5 descreve a conclusão do primeiro dia não é sustentável. Note-se que a expressão: “Veio a tarde... veio a manhã” aparece no fim do registro de cada dia. O autor evidentemente usa esta expressão não somente para sumariar as declarações de cada dia mas também com o propósito de tornar muito claro o fato de que todos os dias foram iguais em extensão; cada um consistindo de aproximadamente doze horas de escuridão, seguido de doze horas de luz aproximadamente: “tarde” e “manhã”.
Não é necessário que o estudante se confunda quanto ao começo de cada dia, se foi de tarde ou de manhã. Qualquer aparente dificuldade aqui se torna completamente clara quando lembramos que o Criador mesmo, novamente, definiu os limites do sábado aos filhos de Israel na Sua instrução de que eles deviam observar o dia sagrado “duma tarde a outra tarde” (Levítico 23:32). Lemos em Gênesis 2:2 e 3 que o ato final da semana da criação foi a santificação ou separação do sétimo dia para uso santo e a colocação de uma bênção muito especial sobre as horas daquele dia. Este memorial do trabalho da criação e sinal do amor e poder do Criador devia durar tanto quanto a terra e por toda a eternidade. Isaías 66:23 (7) .Que esta já era uma instituição existente antes que a lei fosse dada no Sinai, é evidenciado pela milagrosa provisão do maná nos dias da semana e pela sua ausência no sábado, bem como a reprovação de Deus para os que procuraram maná no sétimo dia (Êxodo 16:22-30) (8) .
O sétimo dia da semana da criação começou no fim do sexto dia, que, à luz de Levítico 23:32, terminou com o pôr-do-sol de sexta-feira. É inteiramente inadmissível sustentar que o Criador tivesse dito aos filhos de Israel que o sábado começava com o pôr-do-sol de sexta-feira se, na criação, tivesse começado com o aparecimento do Sol no sétimo dia. Se Procksch está certo na sua asserção de que a palavra “tarde” é usada para marcar o fim da porção escura, então o sábado delimitado para os filhos de Israel teria consistido da porção escura do sexto dia e unicamente da porção iluminada do sétimo, o único dia que foi inteiramente santificado. Mas a declaração de Gênesis é que o sexto dia terminou antes que o sétimo dia, ou sábado, começasse. Aqui não pode haver mais de uma conclusão acertada - que o sétimo dia começou como os primeiros cinco que o precederam, ao pôr-do-sol do dia anterior.
A idéia que yom (“dia”) significa um período de tempo mais longo do que vinte e quatro horas não tem aprovação nos dicionários hebraicos de reputação como os de Buhl (9); Brown, Driver e Briggs (10); e o de Eduard Koenig (11). Skinner declara: “A interpretação de yom como aeon, recurso favorito dos harmonizadores de ciência e revelação, é oposta ao claro sentido da passagem e não tem aprovação no uso hebraico” (12). Dillmann diz: “As razões apresentadas pelos escritores antigos e modernos para interpretar estes dias como períodos muito longos são inadequadas” (13).
O quarto mandamento (Êxodo 20:8-11) declara que, porque Deus fez os “céus e a terra, o mar e tudo o que neles há” em seis dias e descansou no sétimo, do mesmo modo devemos trabalhar seis dias e descansar no sétimo. Seis dias de vinte e quatro horas seguidos de um dia semelhante de descanso, unicamente, fornecem uma adequada analogia para o nosso trabalho de seis dias e descanso no sétimo.

II. O SEGUNDO DIA
a. O Estabelecimento do Espaço Vazio
“E disse Deus: Haja um firmamento no meio das águas, e que ele cause a divisão entre águas e águas. E fez Deus o firmamento, e fez separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam sobre o firmamento. E assim foi. E chamou Deus ao firmamento céus, e veio a tarde, e veio a manhã - o dia segundo.” Gênesis 1:6-8.
A palavra “firmamento” é traduzida do Latim firmamentum da Vulgata, e compreende alguma coisa estabelecida firmemente em um lugar. Todavia a palavra hebraica traduzida firmamento (raquia) indica alguma coisa nebulosa ou intangível, uma expansão ilimitada. Assim a ordem seria, literalmente: “haja uma coisa nebulosa e ilimitada a expandir-se entre as águas, para separar águas de águas”. Esses versículos indicam que no princípio do segundo dia a superfície da terra se achava em grande parte coberta de água, e a atmosfera era uma fria coberta de neblina que obscurecia os corpos celestes com espêsso véu. Os objetos só se viam de muito perto. Para prover um espaço em que pudesse existir a vida neste planeta, o Criador separou as águas da superfície da terra das que se achavam em cima, fazendo com que um ar pesado e seco enchesse o espaço antes ocupado pela neblina. Esta se ergueu acima desse mar de ar seco, acumulando-se em forma de uma contínua e pesada camada de núvens. Todas as forças naturais estavam aparentemente em ação desde que a matéria fora chamada à existência, no dia anterior. O firmamento pode ter sido limpo da mesma forma em que hoje desvanecem as massas de neblina. O calor do Sol sobre a superfície da terra sem dúvida teve muito que ver com essa mudança na umidade atmosférica, quando o mundo pela segunda vez fazia sua rotação perante ele. A obra do segundo dia foi mais do que a criação do ar propriamente dito, fazer a separação das águas pela interposição de ar seco entre a água da superfície e o ar úmido, motivando as respectivas camadas. A expressão wihi mabhidil (“e haja uma divisão”) é um exemplo muito claro do uso do particípio para expressar a permanência de certa correlação. Continuamente desde aquele dia, agências intermediárias, como o Sol, têm feito com que as nuvens flutuem no alto do firmamento e deixem assim um espaço livre para o movimento dos seres vivos sobre a terra e no ar ao redor dela.

b. A Teoria do Vapor Envolvente
Esta teoria, que tem sido favoravelmente considerada por alguns criacionistas, declara que quando o Criador separou as águas no segundo dia, formou uma transparente camada de vapor d'água acima da nossa atmosfera atual. De acordo com esta teoria, essa camada de vapor d'água teria um efeito modificador sobre os raios solares. Em verdade absorvia grande porção de raios actínicos que, sob as condições presentes, impedem o crescimento das plantas e fazem com que os animais procurem a sombra para sobreviver. A teoria ainda afirma que este envoltório também conservaria o calor introduzidos pelos raios solares, evitando sua perda no espaço interestelar, e contribuiria assim para um clima subtropical sobre a terra de um polo a outro. De acordo com esta teoria, ao tempo do dilúvio esse vapor envolvente condensou-se e baixou sobre a terra, tornando possível que a chuva caísse continuamente sobre toda a superfície da terra, durante quarenta dias e quarenta noites. Com a presença dessa camada envolvente, a pressão sobre a superfície da terra seria muito maior do que agora, e seu colapso repentino produziria uma maré e outra ação destruidora na superfície da terra.

III. O TERCEIRO DIA

“E disse Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça a porção seca. e assim foi. E chamou Deus à porção seca terra; e ao ajuntamento das águas chamou mares. E viu Deus que era muito bom. E disse Deus: Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nela sobre a terra. E assim foi. E a terra produziu capim e ervas, dando semente conforme a sua espécie, e árvores frutíferas, cuja semente está nelas conforme a sua espécie. E viu Deus que era bom. Então veio a tarde, e então veio a manhã - o dia terceiro.”
Aparecera a luz, a atmosfera estava livre do nevoeiro, e agora no terceiro dia o tehom ou abismo ressonante recebe atenção. As águas em cima nos céus já estavam reunidas em uma camada de nuvens, espêssa e contínua, e agora as “águas debaixo dos céus”, isto é, as águas sobre a superfície da terra, são reunidas em “um lugar”. Em vez de indicar o oceano, esta expressão “um lugar” sem dúvida significa os grandes corpos coletivos de água. As evidências que existem em nossa terra na forma de fósseis de corais e plantas sub-tropicais nas regiões antártica e ártica, indicam que toda a sua superfície, incluindo o polo, desfrutou uma vez de um clima sub-tropical, e sugere que estes corpos dágua podem de fato ter constituido um corpo único muito ramificado, cuja circulação do equador ao polo e vice-versa, tenderia a igualar o clima em todas as regiões.
A maneira do aparecimento da hayyabbashah, “a porção seca”, pode ser descrita para nós em Salmo 104:5-9. “Lançou os fundamentos da terra, para que não vacile em tempo algum. Tu a cobres com o abismo, como com um vestido: as águas estavam sobre os montes. À Tua repreensão fugiram, à voz do Teu trovão se apressaram. Sobem aos montes, descem aos vales, até ao lugar que para elas fundaste. Limite lhes traçaste, que não ultrapassarão, para que não tornem mais a cobrir a terra.” Naturalmente, é de igual modo muito possível que Davi, quando fez o seu poema na encosta da montanha, falava da superfície da terra como a via então. Neste caso a descrição se aplicaria ao tempo do dilúvio e não à condição original.
É observado que a usual aprovação do Criador ao Seu trabalho no fim de cada dia foi omitida ao fim do segundo dia. A explicação disto pode ser o fato de que o trabalho da separação das águas ocupou o segundo dia e parte do terceiro. No segundo dia o nevoeiro da superfície se ergueu para formar uma camada de nuvem, e no terceiro as águas da terra barrenta foram separadas na “porção seca” e no yammim, ou mares, termo aqui usado em sentido amplo, para que incluísse grandes mares, como nós os conhecemos e também lagos e rios. Depois, quando a separação de todas as águas foi completada no segundo dia e parte do terceiro, o Criador colocou sua aprovação: “Eis que era bom”.
O resto do trabalho do terceiro dia consistiu na formação das plantas. A ordem foi dirigida à terra. A palavra usada no verso 11, dasha, literalmente significa: “Brote da terra!” O verso 12 registra que a terra fez as plantas “saírem” (yatsa). A indicação é de que as plantas aparecem como resultado do crescimento que foi acelerado como para ocupar um momento apenas. Tal produto podia possivelmente ser indistinguível das plantas que cresciam naturalmente. À luz destes fatos, não precisamos perguntar o que veio primeiro, se as plantas ou as sementes. As plantas vieram primeiro.
Assim a substância da planta foi a substância da terra. Nos nossos dias as plantas ainda são um produto da terra. Os elementos minerais fornecem os materiais de construção dos quais partes do protoplasma e as paredes das células são construidas; eles influenciam a pressão osmótica das células das plantas; influem na acidez; eles influem na hidratação das células coloidais; influenciam a permeabilidade das membranas e servem como catalisadores. As plantas aparentemente requerem do pó da terra e sua atmosfera pelo menos carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, enxofre, fósforo, cálcio, magnésio, potássio, ferro, boro, manganês, cobre, zinco, sódio, silício e cloro - que constituem o pó da terra.
Os três grupos de plantas mencionados, capim (deshe, palavra cujo radical significa “estar úmido”), ervas (esebh, “herbáceos”), e árvores (ets peri, “árvores frutíferas”), evidentemente têm em mira abranger toda a vegetação. O primeiro grupo talvez não inclua o capim como o conhecemos, mas pode referir-se a formas como os musgos, líquens e outras espécies que tapetizam o chão. Que os membros do segundo grupo são distintos daqueles do primeiro, é evidente pelas passagens de II Reis 19:26 e Isaías 37:27 (14), (15), onde eles são mais uma vez mencionados separadamente numa enumeração. Também os membros do segundo grupo são descritos como mazria zera - “plantas que dão semente”. Dir-se-ia assim que os membros deste grupo sejam destacados como “tendo semente”. É este grupo, esebh, mencionado no verso 29, como dado ao homem juntamente com frutos e nozes para o seu alimento. A tradução “erva do campo”, que é usada em Gênesis 3:18 para descrever parte do alimento dado ao homem depois do pecado, é esta mesma esebh (16). Esebh é também usada em Deuteronômio 11:15 para descrever o alimento dos animais (17). Assim, este segundo grupo parece incluir tudo entre musgos, líquens, fetos e outras plantas que não têm semente, e árvores e arbustos. O termo ets peri, que abrange o terceiro grupo, é um coletivo singular que se emprega para as plantas lenhosas que produzem nozes e pinhas, e frutos carnosos como amoras, pêssegos, maçãs, etc. Estes três grandes grupos não coincidem com a moderna classificação das plantas, não obstante são muito próprios porque são ainda visíveis os tipos rudimentares, os herbáceos mais altos e os arbustos e árvores.
Estes versos determinam muito claramente que no simples intervalo de um dia constituido de um período de trevas e de um período de luz, isto é, um dia solar, o Criador formou todas as diversas plantas. É importante notar que esta vegetação inclui plantas com sementes, que os evolucionistas consideram ser as formas mais elevadas e recentemente evoluidas. Não é um quadro da formação de algumas formas simples, unicelulares, que evoluiram gradualmente para formas complexas, portadoras de semente, durante muitos milhares de anos. Em vez disso, sabemos que cada espécie distinta de planta que tem vivido sobre a terra foi formada no terceiro dia.
A declaração de que o Criador ordenou que a terra produzisse plantas “segundo a sua espécie”, aparentemente significa, em parte, que Ele mesmo formou estes organismos segundo um plano bem ordenado. É testemunha deste fato a presente classificação lógica das plantas do mundo. Sobre uma surpreendente variedade de caracteres morfológicos é possível edificar numerosos grupos extremamente interessantes. O taxonomista no seu trabalho está aparentemente pensando os pensamentos de Deus, após Ele, quando descobre os grupos naturais das plantas.
Uma questão extremamente importante é focalizada nos versos 11 e 12 de Gênesis 1. Esta questão se relaciona primariamente com a fisiologia das plantas e não com a sua morfologia. Isto é verdade porque a forma e estrutura de uma planta procedem do funcionamento de suas unidades hereditárias (genes), sob as influências do ambiente. O dogma da evolução determina que as espécies de organismos deram (e, às vezes, estariam dando) origem a outros organismos que são morfológica e fisiologicamente de espécies diferentes das dos seus progenitores. Todavia, estes versos declaram que uma flora completa apareceu em todas as suas espécies básicas no terceiro dia.
Surge naturalmente a pergunta: Apareceram novas espécies de plantas depois da semana da criação? A seguinte declaração do falecido geneticista da atualidade, Thomas Hunt Morgan, representa o pensamento de todos os evolucionistas que estão na posse dos fatos:
“Dentro do período da história humana não conhecemos nenhum simples exemplo da transformação de uma espécie em outra ... Pode-se afirmar, portanto, que a teoria da descendência está em falta no aspecto mais essencial que se necessita para colocar a teoria em bases científicas. Isto deve ser admitido” (18) .
Sem nenhuma evidência para a origem de novas espécies após o começo da história humana, perguntamos naturalmente: Há evidência do aparecimento de novas espécies no “tempo geológico” - o único registro natural que temos do passado? Os evolucionistas mesmos dirigem a nossa atenção aqui a um fato de suma importância, que, num passado tão remoto quanto os organismos podem ser achados como fósseis nas rochas, nenhuma série de elos pode ser descoberta como ponte que transponha o abismo morfológico entre as espécies (19). Portanto, deve-se concluir que nenhuma nova espécie de organismos surgiu por processos naturais após a semana da criação.
Outra questão que surge aqui é esta: A declaração “segundo a sua espécie” refere-se simplesmente à prossecução de um plano ordenado na mente do Criador, em estabelecer a morfologia das plantas, para que espécies separadas fossem criadas, ou isto compreende um estado morfológico e também, ao mesmo tempo, uma habilidade inata para reproduzir somente segundo suas espécies? Autoridades bíblicas concordam unanimemente que o comportamento reprodutivo é também descrito aqui. Exemplos de opiniões de autoridades neste ponto são os seguintes:
“A par das várias espécies e sementes, a par da propagação determinada das plantas, cada uma segundo a sua espécie, ali entra clara e distintamente a concepção da natureza que já é anunciada nos grandes contrastes” (20).
“Cada gênero (espécie) permanece fixo e se reproduz segundo a sua espécie, isto é, as várias espécies que eles abrangem” (21).
“Fruto segundo a sua espécie”. Que diria o Sr. Darwin sobre isto? Não é isto uma refutação de sua elaborada teoria sobre a origem das espécies? O produto será sempre da mesma espécie da semente. Pode haver variação na direção e expressão da vida germinal, mas sua espécie original é imutável” (22).
“Dois outros sinais, entretanto, estão apensos a esta classe: primeiro, estes frutos trazem fruto segundo a sua espécie, limitação peculiar e definida, que entendem melhor os que têm visto como a 'espécie' estabelece limitações sobre tudo que as poderia misturar e cruzar. A natureza mesma aqui é vista tendo definidos limites fixos, que aparecem como leis constantes ou como barreiras intransponíveis” (23).
É uma lei de reprodução hoje estabelecida que a planta que se propaga de uma anterior é sempre da mesma espécie que seus ancestrais. Todas as evidências até aqui encontradas demonstram que em todos os casos trigo tem vindo de trigo, rosas de rosas, maçãs de maçãs, etc. Os evolucionistas declaram que tal nem sempre tem sido o caso, pelo contrário, que, em muitos exemplos, apareceram plantas que eram de espécie diferente que a dos seus ancestrais. Entretanto, não o podem provar.
É indiscutível que espécies extremamente diversas de plantas não podem cruzar-se hoje e nunca se conheceu o seu cruzamento, por exemplo: abóboras e rosas. Parece muito razoável para todos os criacionistas supor que tais espécies diversas não possam e nunca puderam cruzar-se. Por exemplo, o rabanete e o repolho cruzam-se e produzem uma nova semente fértil. São eles membros de duas espécies diferentes ou da mesma espécie?
Alguns criacionistas crêem que o rabanete e o repolho devem pertencer a espécies diferentes. Em verdade a aparência superficial das partes vegetativas das plantas pode indicar isto. Mas quando consideramos
1) a íntima semelhança de seus órgãos reprodutores,
2) a semelhança química, isto é, sua compatibilidade fisiológica, evidenciada pelo fato de que elas se cruzam, e
3) o fato de que os taxonomistas as colocam em seus tratados de taxonomia como gêneros em justaposição,
não é desarrazoado considerá-los como membros de uma simples espécie original. Esta mesma semelhança sempre existe entre dois indivíduos, tendo ocorrido a hibridação. Por esta razão muitos criacionistas mantêm a opinião de que existe a impossibilidade de hibridação, e que sempre existiu, entre membros de duas espécies diferentes.
Se os versos 11 e 12 declaram que as plantas foram formadas de tal maneira que
1) elas podiam reproduzir-se unicamente segundo a sua espécie, ou se
2) eles simplesmente declaram que as plantas foram feitas morfologicamente de acordo com o plano na mente do Criador,
a conclusão é essencialmente a mesma. De acordo com a opinião anterior, estes versos declaram que as plantas foram formadas de tal modo que cada vez que uma espécie se reproduzia, trazia indivíduos adicionais, semelhantes a ela. De acordo com o último ponto de vista, estes versos declaram que as plantas foram formadas em toda a multiplicidade de espécies que a terra já viu; isto é, eles não se referem diretamente ao comportamento reprodutivo das plantas mas simplesmente à sua morfologia. Todavia, a declaração da formação de diferentes espécies morfológicas refere-se indiretamente ao comportamento reprodutivo. Diferentes morfologias, particularmente com respeito às partes reprodutivas, surgem de propriedades fisiológicas diferentes e as indicam. Para ilustrar, a estrutura química da abóbora é diferente da da rosa, tão diferente que nenhuma fertilização ocorre quando se tenta a hibridação. Isto, pode-se supor, é devido à incompatibilidade entre eles. Assim, qualquer que seja o ponto de vista mantido, é possível que o fim lógico seja o mesmo. As plantas foram formadas de tal modo que nenhuma erradicação das espécies originais pode ser executada por hibridação, dando como resultado formas intermediárias. A ausência de formas intermediárias, isto é, “elos de ligação”, entre todas as espécies do Gênesis, fósseis ou vivas, constitui a maior prova de que a evolução das plantas não ocorreu.

IV. O QUARTO DIA

“E disse Deus: Haja luminares no firmamento dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos. E sejam luminares na expansão dos céus, para
alumiar a terra. E assim foi. E fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas. E Deus os pôs no firmamento dos céus para alumiar a terra. E para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas. E viu Deus que era bom. E então veio a tarde e então veio a manhã - o dia quarto”. Gênesis 1:14-19.

A história da criação foi escrita para o homem. É razoável que o ponto de vista do narrador seja do lar do homem, a superfície da terra. Durante os primeiros três dias a luz estivera sobre a terra, mas unicamente de um modo débil, difuso, justamente como se filtrara através do teto de nuvens pesadas e contínuas. Mas agora, com plantas sobre a terra, a luz brilhante torna-se uma necessidade. O pormenor no qual são descritas as funções dos corpos celestes, do ponto de vista da nossa terra, é digno de atenção especial. Nenhuma oportunidade legítima é deixada para as intepretações pagãs, como agouros astrológicos.
Pode ser importante notar aqui que estes versos não dizem que Deus criou (bara) estes corpos celestes no quarto dia. A palavra usada aqui é asah, que é comumente interpretada como “empregar materiais já existentes; libertar de restrição”. A segunda significação, “libertar de restrição”, parece aqui muito apropriada. Na obra do segundo dia os pesados nevoeiros levantaram-se da superfície da terra mas aparentemente permaneceram como uma camada contínua de nuvem que foi penetrada pela difusa luz do sol, mas que interceptava qualquer vista dos corpos celestes. Parece lógico supor que o trabalho do quarto dia foi o rompimento desta contínua camada de nevoeiro, numa descontínua massa de nuvens, tornando os corpos celestes visíveis da terra. Estes corpos já existiam, mas desde esse movimento da dissolução do nevoeiro em nuvens descontínuas, eles começaram a servir a um propósito definido com referência à terra.
Não é fora do comum achar criacionistas que são da opinião de que as nuvens não existiam até que as tempestuosas nuvens se apresentassem no tempo do dilúvio. Todavia, Ellen G. White está inteiramente certa quando se refere à existência das nuvens na seguinte declaração com respeito a alguns dos objetos de estudo que atraíram a atenção de Adão e Eva: “A glória de Deus nos céus, os mundos inumeráveis em suas ordenadas revoluções, 'o equilíbrio das grossas nuvens', os mistérios da luz e do som, do dia e da noite, tudo estava patente ao estudo dos nossos primeiros pais”(24). Certamente a beleza de qualquer panorama é grandemente aumentada pela presença de nuvens descontínuas. Unicamente as nuvens tempestuosas é que foram desconhecidas até ao tempo do dilúvio.
O fato de que o verso 1 declara que Deus criou “os céus e a terra” (os céus são mencionados em primeiro lugar), e o fato de que a luz apareceu no primeiro dia, dão-nos base para supor que no primeiro dia se formou o nosso completo sistema solar. Nos nossos dias compreendemos como as órbitas celestes dos membros do nosso sistema solar são determinadas pela razão do seu movimento através do espaço e pelas atrações mútuas da gravitação. Este conhecimento leva-nos a concluir que os membros do nosso sistema, completo e delicadamente equilibrado, muito provavelmente vieram à existência ao mesmo tempo, no primeiro dia: - “Criou Deus os céus e a terra”. Então no primeiro dia Deus fez alguma coisa à massa escura do Sol que a levou a irromper na Sua presente glória de luz. Parte desta luz penetrou no denso nevoeiro que envolvia a superfície da terra e constituiu a luz do primeiro dia e dos dias sucessivos. No quarto dia a decomposição do nevoeiro em massas de nuvens fez com que se tornassem visíveis os discos do Sol e da Lua. Isto de igual modo desvendou a majestade do céu estrelado.
Ocasionalmente ouvimos o protesto de ser impossível para o Criador criar todos os corpos astronômicos a não ser de uma vez, por causa da interação gravitacional desses corpos. O pensamento é que o intrincado equilíbrio existente entre esses corpos é tão delicado que a adição de nosso sistema solar numa data posterior causaria perturbações tão sérias que resultariam em colisões e finalmente no caos. Verdadeiramente, em certo grau, cada corpo no universo afeta os outros corpos. Mas onde existe distância suficiente entre dois corpos, seu efeito real mútuo torna-se tão insignificante que pode ser considerado nulo. A força da gravitação opera inversamente de acordo com o quadrado da distância entre dois corpos quaisquer. Nosso sistema solar está cerca de três e meio anos-luz distante da estrela mais próxima, e seu efeito sobre esta estrela mais próxima não merece consideração quanto a sérias perturbações. Quão mais verdade é isto a respeito dos que estão além desta distância ou a uma distância de pelo menos 140 milhões de anos-luz da mais distante estrela já fotografada! Uma vez perguntei a um astrônomo meu amigo que efeito o acréscimo de nosso sistema solar teria sobre o resto do universo. Ele sorriu e respondeu: “Posso pensar em inúmeros lugares onde o nosso sistema solar poderia ter sido acrescentado ao nosso universo e o acréscimo não teria nenhum efeito sobre os corpos celestes já existentes”.
Por outro lado, a força da gravitação agindo entre as unidades de nosso sistema solar é tremenda. O Criador poderia ter mantido diretamente nossa Terra no espaço até o quarto dia e ter-lhe-ia fornecido luz direta; então no quarto dia teria suspenso o Sol no espaço para exercer estas funções. Mas a identidade dos dias da semana da criação, antes do disco solar tornar-se visível da Terra, com os restantes dias da semana, e a presença da luz desde o primeiro dia, indicam que o Criador formou o Sol ao mesmo tempo em que formou nossa Terra e fez com que ele se tornasse um corpo incandescente no primeiro dia. Que o Criador usualmente prefere manifestar Seu poder mantenedor na forma de “leis naturais” é o fato mais facilmente observado. A ostentação do Seu poder no nosso sistema solar mediante milagres é excepcional. O progresso da ciência natural mostra cada vez mais que isto é verdadeiro.

A expressão mais ou menos explicativa que declara que “Ele fez também as estrelas”, pode referir-se aos planetas, as “estrelas” de nosso sistema solar, isto é, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão; ou pode incluir também as estrelas mais distantes. Outros exemplos onde o autor faz declarações que são claramente parentéticas são Gênesis 2:24; 10:9; 26:33; 32:32. No versículo 1 a palavra shamayim, que é traduzida por “céu” em algumas versões, está na forma plural e devia ser lida “céus”. Do ponto de vista humano sabemos de três céus. No primeiro voam os pássaros (Jó 35:11) e as nuvens flutuam (I Reis 18:45). No segundo estão as estrelas (Deuteronômio 17:3). No terceiro, o céu dos céus, mora Deus (Daniel 4:26; S. Lucas 15:21) (25).
A criação do primeiro céu ocorreu durante a semana da criação, e também a parte do segundo céu que inclui os planetas de nosso sistema solar. Estes planetas são como verdadeiras “estrelas” para nós, como são os sóis de outros sistemas. Assim a referência aqui à criação das “estrelas” pode aplicar-se àquelas que foram realmente feitas durante a semana da criação, nossos planetas. Todavia, é possível que o autor do Gênesis desejasse nesta conexão lembrar ao leitor que o mesmo Deus que formou esta Terra de igual modo formou os inumeráveis corpos de todo o universo.
O fato de que muitas estrelas estão milhões de anos-luz distantes de nossa Terra e contudo estão espargindo sua luz sobre nós, demonstra aparentemente que existiram por muitíssimas vezes seis mil anos. Isto mostra que elas deviam ter sido formadas antes da semana da criação, a menos que Deus fizesse com que sua luz atravessasse o espaço num momento, em vez de alcançar o nosso planeta de modo natural. Tal premissa não se enquadra com tudo o que sabemos acerca de como Deus preferiu fazer os objetos da Sua criação. Neste ponto H. W. Clark disse com muita razão:
“Vamos sugerir de passagem que a idéia de que Deus criou estes sóis distantes, cada um completo com raios de luz já projetados através do espaço, se fosse aceita, destruiria toda a crença na regularidade das leis de Deus. Tudo que sabemos da maneira de Deus produzir luz ensina-nos que quando Ele faz um corpo tornar-se luminoso, raios de energia luminosa partem da fonte e não são postos em ação instantânea ao longo de todo o caminho do raio de luz. Deus opera de modos regulares, de acordo com leis definidas” (26) .


Artigo publicado na

Folha Criacionista 52


Os dias da criação são literais?



Segundo Gerhard F. Hasel, falecido professor de Teologia Bíblica e Antigo Testamento na Andrews University, nos Estados Unidos, a semântica (estudo linguístico dos significados de palavras, frases, cláusulas, etc.) chama atenção para a questão crucial do significado exato da palavra hebraica yom. Poderia a designação “dia” (yom) em Gênesis 1 ter um significado figurativo? Ou deve ela ser entendida, com base nas normas da semântica, como um dia literal de 24 horas? Algumas pessoas, numa tentativa de evitar maiores problemas com o evolucionismo, aplicam a teoria dos dias-eras ao relato de Gênesis 1. Para elas, os seis dias da criação são, na verdade, longos períodos de tempo. Será que isso é possível? Antes de mais nada, é preciso deixar claro que o termo yom em Gênesis 1 não se liga a qualquer preposição; não é usado em uma relação construtiva; e não tem nenhum indicador sintático que seria de esperar para um uso extensivo não literal.

Nas Escrituras, a palavra yom invariavelmente significa um período literal de 24 horas, quando precedida por um numeral, o que ocorre 150 vezes no Antigo Testamento. Obviamente, no relato da criação existe sempre um numeral precedendo aquela palavra – primeiro, segundo, terceiro... sétimo dia – e essa regra para a tradução de yom como um dia literal aplica-se neste caso. O que parece ser significativo também é a ênfase dada à sequência dos numerais 1 a 7, sem qualquer hiato ou interrupção temporal.

Esse esquema de sete dias (seis dias de trabalho seguidos por um sétimo dia de repouso) interliga os dias da criação como dias normais em uma sequência consecutiva e ininterrupta. O relato da criação em Gênesis 1 não somente liga cada dia a um numeral sequencial, como também estabelece as fronteiras do tempo mediante a expressão “tarde e manhã” (versos 5, 8, 13, 19, 31).

A frase rítmica “e houve tarde e manhã” provê uma definição para o “dia” da criação; e, se o “dia” da criação constitui-se de tarde e manhã, é, portanto, literal. O termo hebraico para “tarde” – ‘ereb – abrange toda a parte escura do dia (ver dia/noite em Gênesis 1:14). O termo correspondente, “manhã” (em hebraico boqer), representa a parte clara do dia. “Tarde e manhã” é, portanto, uma expressão temporal que define cada dia da criação como literal. Não pode significar nada mais.

Outro tipo de evidência interna no Antigo Testamento para o significado dos dias resulta de duas passagens sobre o sábado no Pentateuco, que se referem aos dias da criação. Elas informam como os dias da criação foram compreendidos por Deus. A primeira passagem faz parte do quarto mandamento do Decálogo, e está registrada em Êxodo 20:9-11. A ligação com a criação transparece no vocabulário (“sétimo dia”, “céus e terra”, “descansou”, “abençoou”, “santificou”) e no esquema “seis mais um”.

As palavras usadas nos Dez Mandamentos deixam claro que o “dia” da criação é literal, composto por 24 horas, e demonstram que o ciclo semanal é uma ordenança temporal da criação. Aliás, como explicar a origem do ciclo semanal, se não pela criação em seis dias literais seguidos do repouso do sétimo dia? A semana não está vinculada a nenhum movimento ou fenômeno astronômico, como os dias (rotação da Terra), os anos (translação) e os meses. A palavra divina, que promulga a santidade do sábado, toma os seis dias da criação como sequenciais, cronológicos e literais. Dizer o contrário, portanto, é ir contra o Criador.

Por fim, uma última consideração: a criação da vegetação ocorreu no terceiro dia (ver Gênesis 1:11 e 12). Grande parte dessa vegetação parece ter necessitado de insetos para a polinização. Mas os insetos só foram criados no quinto dia (verso 20). Se a sobrevivência desses tipos de plantas, que necessitam de insetos e outros animais para a polinização, dependesse deles para a reprodução, então haveria um sério problema se o “dia” da criação significasse “era”.

Ainda mais: a teoria dos dias-eras exigiria um longo período de iluminação e outro de escuridão para cada uma das supostas épocas. Isso, é claro, seria fatal tanto para as plantas quanto para os animais. Os dias da criação devem ser entendidos como literais e não como representando longos períodos de tempo. Argumentar em contrário é forçar o texto bíblico a dizer o que não diz.

(Adaptado de Folha Criacionista n° 53, setembro de 1995, p. 26-30 – Sociedade Criacionista Brasileira)


Última edição por Ronaldo em Seg Nov 01, 2010 7:42 pm, editado 4 vez(es)
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Eduardo

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A semana da Criação, dias literais :: Comentários

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Mensagem em Sex Jul 16, 2010 11:32 am por Eduardo

V. O QUINTO DIA

“E disse Deus: Sejam as águas cheias de enxames de almas viventes; e voem as aves através do firmamento dos céus. E Deus criou os grandes monstros marinhos, e todos os répteis com os quais as águas enxameiam, conforme a sua espécie; e toda ave de asas conforme a sua espécie. E viu Deus que era bom. E Deus os abençoou, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas nos mares; e as aves se multipliquem na terra. E então veio a tarde e então veio a manhã - o dia quinto”. Gênesis 1:20-23.
A palavra hebraica yam, traduzida aqui por “águas”, é aplicada a um oceano, mar, lago, lagoa, rio, regato, poço ou nascente. O termo yam inclui tudo isto.
Nossas versões estão incorretas na tradução: “Produzam as águas abundantemente”. Sharats sherets pode unicamente significar: “Sejam as águas cheias de enxames”. A origem dos animais aquáticos e alados não é revelada neste capítulo. É dito simplesmente que lhes foi ordenado aparecer na água e no ar, respectivamente. Todavia, em Gênesis 2:19 torna-se claro que os animais voadores originaram-se “saindo da terra” (27).
Em conexão com a formação dos animais aquáticos e voadores, a palavra nephesh, “alma vivente”, aparece pela primeira vez. De acordo com o ponto de vista bíblico as plantas não têm vida como os animais a têm. Unicamente os animais manifestam vida em “almas”, mas esta “alma” deve aparentemente ser considerada como nada mais que “aquilo que respira”. Comparados com as plantas, os animais eram algo de novo e distinto. Para a média dos homens um animal era um organismo que respirava, ao passo que uma planta não o fazia. Biologicamente tanto as plantas como os animais “respiram”, porque o protoplasma, quer da planta, quer do animal, deve constantemente receber oxigênio de fora, para que não morra. Mas para o propósito prático com o homem comum, um organismo que podia locomover-se de um lugar para outro, “respirar”, e mostrar ao menos um pequeno grau de inteligência, era distinto de uma planta.
Kanaph, verso 21, literalmente: “aves que voam”, usado no sentido mais amplo, como é aqui, sem dúvida inclui não somente os pássaros mas também todos os outros tipos de seres que têm asas, seja inseto, morcego ou répteis voadores.
O uso da expressão wayyibhra, “e Ele criou”, verso 21, parece confundir à primeira vista. Por que teria Deus feito as plantas e criado os animais aquáticos e os voadores? A palavra “criar” aqui é usada ao menos por duas razões. Primeiro, o verso 21 diz que Deus criou animais que enxameassem as águas, sem dizer que eles foram formados de qualquer material; portanto, foi usada uma forma de bara, criar. Segundo, bara é usado onde a idéia de novidade deve ser transmitida (ver Isaías 41:20; 48:6 e 7; 65:17; Jer. 31:22) (28). Trazer à existência criaturas tão notáveis, que respiram e são animadas e podem ir aonde desejam, é digno do termo bara.
A palavra tanninim, verso 21, que é traduzida por “baleias” em algumas versões, inclui todos os grandes animais do mar. A palavra vem de uma raiz que significa “de considerável comprimento”. Isto incluiria não somente os grandes peixes, mas também baleias, répteis aquáticos e anfíbios.
O termo hebraico romeseth, que foi traduzido por “réptil”, significa literalmente “deslizar ou rastejar”. A expressão nos versículos 20 e 21, significando “enxamear”, certamente não deixa terreno para supor que de cada espécie apareceu um par somente. Todavia, embora cada animal aquático e cada pássaro fosse aparentemente representado por numerosos indivíduos, foi-lhes ordenado que se multiplicassem até que todos os habitats ao redor da terra estivessem ocupados.
Os versos 20-23 destacam o mesmo fato que foi apresentado nos versos 11 e 12; isto é, que os animais aquáticos e todos os animais que voam foram formados segundo a sua espécie, como foram as diferentes plantas. Que eles foram moldados em distintas espécies parece ser um ponto muito importante. Todos os animais aquáticos e voadores, sejam estrelados ou moluscos, esponja ou ouriço do mar, beija-flor, medusa ou baleia, borboleta ou pterodáctilo - todas as espécies foram modeladas de acordo com suas respectivas diferenças morfológicas distintas. Nenhum terreno é deixado para qualquer suposição de que estas espécies distintas tivessem evoluído de outras espécies que eram de morfologia mais simples.

A ORIGEM DOS ANIMAIS TERRESTRES
“SEGUNDO A SUA ESPÉCIE”

O SEXTO DIA

a. A Formação de Todos os Animais Terrestres

“E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie, animais domésticos e répteis, e bestas feras da terra conforme a sua espécie, assim foi. E Deus fez as bestas feras da terra conforme a sua espécie, e os animais domésticos conforme a sua espécie, e os répteis da terra conforme a sua espécie. E viu Deus que era bom.”
Gênesis 1:24 e 25.

Aqui como no caso das plantas do terceiro dia, temos uma criação imediata. Em vez de chamar diretamente à existência as criaturas terrestres por meio de Sua palavra, o Criador capacitou a terra para produzí-las. O “porquê” podemos não perceber, mas sabemos que elas vieram do pó e devem voltar ao pó. A ordem à terra é totse, “fazer surgir de”. Esta ordem é inteiramente idêntica à declaração do verso 12, que a terra produzisse as plantas. As criaturas que apareceram no sexto dia são descritas com o mesmo título geral que as formas que voam e os animais aquáticos. Elas são chamadas nephesh, “almas viventes”, porque a coisa que anima, a alma, é o seu aspecto preeminente. Estas formas terrestres são nomeadas em três classes. Primeiro são os behemah, ou “animais domésticos”, que são frequentemente chamados de gado. A palavra behemah vem de uma raiz que tem a significação de “ser mudo”. Isto, todavia, não serve para estabelecer certos grupos à parte, porque a todos os animais falta o poder da fala articulada. O segundo grupo são os remes, palavra tirada de uma raiz que significa “mover-se velozmente”, ou “rastejar”. A tradução “répteis” é demasiadamente estreita, porque não deixa lugar para os maiores répteis e anfíbios da terra. Poderia parecer que remes incluisse tudo o que se move sobre a terra, como serpentes, lagartixas e aranhas. A terceira classe é chayyath haarets, ou “bestas feras da terra”, nome apropriado por causa da sua geral liberdade de movimento na terra. Nunca esta classificação pretendeu satisfazer os biólogos taxonomistas, mas para as pessoas não treinadas cientificamente ela é satisfatória, pois dá um quadro geral, variado, que é suficiente para lembrar todos os tipos de animais terrestres. Nenhuma menção é feita aqui de uma bênção pronunciada como se descreve no verso 22. As inferências naturais são que tal bênção foi certamente dada; e fica-se a pensar se Moisés, na sua pressa para registrar a origem do homem no verso seguinte, não deixou passar desapercebida qualquer declaração acerca disto.

b. “Segundo a sua Espécie”
O fato de que todo animal foi feito “segundo a sua espécie” é fortemente destacado mais uma vez nos versos 24 e 25. Isto parece ser um fato da maior importância. É sem dúvida de proveito para nós perguntar a nós mesmos novamente: “Qual é a significação especial desta declaração?”
Em sua interpretação do significado da frase “segundo a sua espécie” dividem-se os criacionistas em duas escolas, a saber:
1) os que são da opinião de que só se refere à estrutura anatômica, sem nenhuma barreira fisiológica existente contra a hibridação entre as espécies, isto é, que o cruzamento pudesse ocorrer onde fosse mecanicamente possível; e
2) os que são de opinião de que a frase se refere a ambos os característicos anatômicos e fisiológicos, com particular destaque dos últimos.
Os membros da primeira escola dizem-nos que a frase “segundo a sua espécie” não faz nenhuma referência ao comportamento reprodutivo. A isto, os membros da segunda escola replicam que a frase nada diz acerca da morfologia. Na verdade, será observado por um leitor imparcial que a frase não faz menção nem de morfologia, nem de fisiologia. O estudante deve ser guiado em grande parte por sua opinião pessoal para chegar à sua conclusão.
A revelação não dá ao estudante nenhuma ajuda específica na compreensão do significado da frase. As únicas citações da Escritura que contêm a expressão são as que se encontram em Gênesis 1:11, 12, 21, 24 e 24; 6:20; 7:14; Levítico 11:14, 15, 16 e 19; Deuteronômio 14:13, 14, 15 e 18; e Ezequiel 47:10. Estes textos nos dizem que Deus formou as plantas e os animais “segundo a sua espécie”; a terra e as águas produziram “segundo a sua espécie”; os animais da terra entraram na arca “conforme a sua espécie”; eles eram limpos ou imundos “conforme a sua espécie”; e finalmente, os peixes da nova terra serão “de acordo com suas espécies”. Vistas como um todo, essas referências não excluem caracteres morfológicos nem fisiológicos.
Qual é o testemunho da natureza com respeito às espécies? Um dos fatos mais óbvios que impressiona o estudante da natureza é o da descontinuidade das espécies de plantas e animais. As rosas, lírios aquáticos, carvalhos e plátanos; esquilos, lobos, veados e macacos têm as suas peculiaridades distintivas. Não há formas intermediárias. Os paleontólogos contam-nos que as mesmas unidades distintas destacam-se claramente no registro fóssil, com ausência total de elos de ligação (29). Para os criacionistas isto significa que no tempo do dilúvio, cerca de quarenta e três séculos atrás, viviam sobre a terra as mesmas espécies de animais que hoje vivem. Assim o testemunho da natureza é que espécies de animais morfologicamente distintas existiram na terra desde antes do tempo em que ela foi inundada por um dilúvio universal. À luz do Gênesis, parece razoável concluir que estes organismos distintamente diferentes têm de ser “espécies” que foram criadas no começo. Este fato da descontinuidade morfológica parece suprir-nos evidência real de que a declaração da formação de organismos “conforme as suas espécies” deve referir-se também a suas morfologias basicamente diferentes. Todas as diferenças anatômicas entre as rosas e as maçãs, os cães e os gatos, o macaco e o homem, existiram desde o aparecimento dos organismos. Esta é a antítese direta da evolução. O fato da possibilidade da classificação dos organismos hoje é testemunha da verdade do Gênesis neste ponto. Quaisquer mudanças que se acharam necessárias no campo da classificação têm sido devidas a diferenças nas opiniões dos taxonomistas e não ao aparecimento de espécies morfologicamente novas.
Para obter uma concepção mais plena da significação da frase “conforme a sua espécie”, voltemos mais uma vez à natureza. De mãos dadas com o fato da descontinuidade morfológica está o fato da reprodução “conforme a sua espécie”. Isto nos é tão familiar que algumas vezes deixamos passar desapercebida sua importância e significação. Do ovo de patas obtemos patos; da semente de abóboras brotam aboboreiras; e quando uma vaca dá cria, podeis observar que será sempre um bezerro.
Quanto à reprodução ter sido ou não sempre “conforme a sua espécie”, não somos deixados inteiramente a conjecturar. O fato de que a descontinuidade morfológica existiu na natureza desde o dilúvio do tempo de Noé e continua no mesmo modelo básico até hoje, é prova muito real de que os organismos devem ter-se estado reproduzindo “conforme suas espécies” desde o seu aparecimento. A ausência total de casos evidentes de híbridos entre espécies tanto nas que percorrem a terra hoje como nas que existem entre os fósseis, demonstra além disto que a hibridação das espécies foi e é aparentemente impossível.
Argue-se algumas vezes, que em tempos atrás, quando o protoplasma era mais jovem e vigoroso, ao ser recém-formado pelo Criador, seria possível o cruzamento das espécies embora hoje não o seja. A resposta do fato científico aqui é que entre os animais soterrados pelo dilúvio não é encontrada confusão de formas que teria ocorrido se as espécies se hibridassem. As espécies vivas têm seus ancestrais bem destacados entre os fósseis, ancestrais que possuem o mesmo padrão morfológico básico que seus descendentes atuais.
Fósseis tais como o Archaeopteryx, ou pássaro lagarto, que não têm representantes vivos, podem ser considerados como híbridos entre duas espécies. Mas não deve passar desapercebido que é igualmente lógico presumir que o Archaeopteryx representa aquele grupo de espécies originalmente criadas, que se extinguiram por ocasião do dilúvio. Não é somente lógica esta última conclusão mas também está em harmonia com o comportamento reprodutivo conhecido - pássaros e répteis não são capazes de cruzamento hoje em dia. Não há um fragmento de evidência real que torne isto necessário, ou que mesmo sugira fortemente, que espécies básicas fossem uma vez capazes de hibridação se quisessem.
Assim, à luz dos fatos conhecidos, que focalizam a expressão bíblica “conforme a sua espécie”, achamos a descontinuidade anatômica no presente e no passado, indicando que as diferenças morfológicas, usadas na classificação dos organismos, estão evidentemente incluidas; e com igual certeza manifestada na impossibilidade presente das espécies se cruzarem e na evidência dos fósseis de que não há nenhuma prova real de que esse cruzamento de espécies ocorresse justamente antes do dilúvio; e concluimos que diferenças fisiológicas, que evitaram o cruzamento das espécies ou sua reprodução de qualquer outro modo senão de acordo com suas espécies, são igualmente incluidas na frase.
Argüir que a expressão “conforme a sua espécie” se relacione inteiramente com a morfologia e nem mesmo sugira comportamento reprodutivo é ignorar totalmente o mecanismo na natureza pelo qual as estruturas anatômicas se desenvolvem. Para surgir qualquer estrutura anatômica no processo de desenvolvimento do ovo fertilizado para o estado adulto, devem primeiro estar presentes certas unidades hereditárias agindo como diretrizes no desenvolvimento do corpo. Portanto, dizer que plantas e animais foram feitos “conforme a sua espécie” é dizer em outras palavras que cada um foi formado com seu próprio equipamento hereditário. E fatos científicos mostram-nos que equipamentos hereditários basicamente diferentes surgem de protoplasmas tão diferentes quimicamente, que são incapazes de cruzamento. Não podemos estribar-nos em fatos naturais e concluir que “conforme a sua espécie” compreenda unicamente característicos fisiológicos. Isto evidentemente inclui todos aqueles mecanismos pelos quais o Criador executou a criação da assombrosa variedade de modelos básicos e os processos pelos quais estas diferenças são continuadas.
Parece ser muito lógico supor que, se o Criador Se aplicou em fazer a multiplicidade de diferentes modelos morfológicos básicos, Ele pretendia que persistissem por todo o tempo que a terra durasse. Parece-nos que um sábio obreiro estabeleceria seus modelos fundamentais de tal modo que eles não pudessem apagar-se por meio da hibridação. Com tudo isso, repetimos a pergunta: “Intentaria Deus que os organismos continuassem nos modelos básicos que Ele criou para depois fazê-los fisiologicamente de tal modo que todas as espécies se hibridassem onde fosse mecanicamente possível, ou fez cada espécie quimicamente diferente de todas as outras de modo que o seu cruzamento fosse impossível?”
A presciência de Deus habilitou-O a olhar adiante e ver que Satanás se ergueria e se empenharia por todos os modos para destruir a ordem e a perfeição do trabalho de Deus. Quando estudamos a presente complexidade do mundo biológico vemos muita evidência de que Deus formou os organismos para funcionarem perfeitamente no estado edênico e também os fez de tal modo que eles pudessem tornar-se adaptados “naturalmente” a viver sob o reino dos dentes e das garras, que surgiu com a entrada do pecado. É possível que estruturas que podem ser ilustradas pelas glândulas venenosas das serpentes, os ferrões dos insetos himenópteros, as mandíbulas dos mosquitos, percevejos, etc., e mesmo a estrutura das pulgas e alguns outros parasitos, foram possuidas por esses animais no estado original e foram postos a uso diabólico somente depois da entrada do pecado. Na esfera espiritual Deus tomou providências para uma emergência tal como a entrada do pecado. Não é razoável supor que Ele tomasse semelhantes providências no reino natural?
Estou persuadido de que quando Deus formou as plantas e os animais “conforme a sua espécie”, Ele os dotou de protoplasma quimicamente diferente, tornando-os incapazes de cruzamento, mesmo quando manipulados e dirigidos pelo mais sábio demônio. Em outras palavras, Deus não fez os organismos de tal modo que eles pudessem cruzar-se, dizendo-lhes então: “Agora não vos hibrideis”. Isto podia ser dito a seres racionais como o homem, mas não às plantas e animais que não têm o poder da razão e da escolha. O comportamento reprodutivo das plantas e animais é hoje tal que indica que Deus os formou no princípio de tal modo que os protoplasmas de diferentes espécies fossem e ainda sejam incompatíveis. As espécies básicas originais têm persistido desde o Éden, e isto ocorreu unicamente porque eram incapazes de ser erradicadas por cruzamento.
Alguns supõem que esta incompatibilidade se desenvolveu como resultado da degeneração do protoplasma depois da criação. Quer dizer, o cruzamento das espécies pode ter sido possível, por exemplo, até o dilúvio; mas impossível de lá para cá. Todavia, creio que é mais razoável supor que quando os protoplasmas estavam mais perto de sua criação eles mostrariam suas diferenças químicas fundamentais mesmo mais marcadamente do que agora, depois de sessenta séculos de intentos de Satanás para perverter, confundir e degenerar.
É característico dos biólogos criacionistas dizer que hoje é impossível designar as espécies do Gênesis, com exceção da espécie humana. Os biólogos criacionistas têm naturalmente muito que dizer acerca das espécies do Gênesis. Aos olhos dos evolucionistas esta situação é absurda. Eles dizem aos criacionistas que estes sustentam que todas as espécies de organismos foram criadas como unidades distintas e que os criacionistas se apressam em dizer: “Mas nós não podemos ter nenhuma idéia do que estas unidades sejam hoje em dia”. Os evolucionistas arguem que, se tais unidades básicas importantes existiram uma vez, e se não há evolução das espécies, então os criacionistas deviam apontar estas unidades na natureza hoje ou cessar de falar delas. Embora os evolucionistas não possam apontar os elos de ligação entre duas espécies, nem mesmo em um único caso, contudo penso que eles têm bastante razão aqui em suas exigências aos criacionistas. Além disso, creio que estas unidades básicas, as espécies do Gênesis, podem ser esboçadas na maior parte dos casos, mesmo em nossos dias.
Temos estudado tanto a lógica da criação de espécies que se não podem cruzar, como o fato da existência, na natureza, de certos grupos distintos de organismos, do tempo do dilúvio até os nossos dias. Submeto a tese de que estas unidades discretas, que têm evidentemente permanecido distintas uma da outra, desde a criação, porque não podem hibridar-se, são as espécies do Gênesis. Se estou certo aqui, temos para nosso uso duas experiências concretas de laboratório, pelas quais podemos determinar as espécies do Gênesis; isto é:
1) o teste morfológico, a saber, a semelhança dos modelos anatômicos básicos, que nas plantas se aplicariam principalmente às suas estruturas reprodutivas, e
2) o teste fisiológico, isto é, a compatibilidade reprodutiva, ao menos na extensão de que a verdadeira fertilização do ovo se efetua resultando os primeiros estágios do desenvolvimento embriológico, mesmo no caso de ocorrer a morte prematura.
Em vista do fato evidente de que a morfologia é simplesmente uma manifestação exterior, algo variável, devido às influências do meio, do modelo fisiológico básico do organismo, isto é, de seu complemento de unidades hereditárias ou genes, parece razoável que os caracteres fisiológicos quanto à reprodução, deveriam ter precedência sobre os caracteres morfológicos na determinação da espécie do Gênesis. Em outras palavras, embora suas morfologias sejam muito semelhantes, e ainda, se dois organismos dão cruzamento estéril, sou da opinião de que, exceto em situações incomuns, surgidas de mutações, os organismos são representantes de duas espécies básicas diferentes.
Para ilustrar o que disse aqui, o homem e o chimpanzé são de notável semelhança morfológica. Um manual para a dissecação anatômica do esqueleto, sistema muscular, nervoso e digestivo, e outros sistemas de órgãos do homem, pode também ser usado em todas as suas minudências no corpo do chimpanzé. Não obstante, o homem e o chimpanzé, tanto quanto o conhecimento científico abrange, são e sempre foram reprodutivamente incompatíveis, ao se tentar o seu cruzamento. Nenhum cruzamento de homem com macaco é conhecido da ciência do passado ou do presente. Estamos muito certos de que o homem é uma espécie do Gênesis e que o chimpanzé é um representante de outra espécie do Gênesis. Estamos certos de que não pode haver cruzamento entre eles. Creio que este é um exemplo típico do comportamento reprodutivo quando quaisquer duas espécies básicas são envolvidas.
Quando estudamos, na natureza, exemplos de híbridos produzidos realmente, achamos que em cada exemplo os que são capazes de cruzamento são bastante semelhantes morfologicamente, para facilmente ser concebidos como sendo membros de uma única espécie básica. O cruzamento tem-se operado pelo menos até o começo do desenvolvimento embriônico nos seguintes animais comuns: o leão e o tigre; cavalo, asno, zebra e onagro; cão, lobo, chacal, coiote, e algumas raposas; rato e camundongo; ovelha e bode; galinha e galinha de Angola; galinha e peru; touro, zebu, iaque, bisão, gado da Índia e o africano; cisne e ganso; e algumas espécies de andorinhas. Entre as plantas são conhecidos interessantes cruzamentos como entre o trigo e o centeio, fumo selvagem e petúnia, amoras silvestres e framboeza, framboeza e morango, e rabanete e repolho.
Alguns criacionistas, na sua filosofia, não desejam aceitar dois indivíduos em uma única espécie, quando diferem tanto na sua morfologia como rabanete e repolho. Todavia, dever-se-ia ter em mente que, de acordo com as melhores informações disponíveis, o repolho, a couve-de-Bruxelas, a couve-flor e outras têm sido desenvolvidas de uma só planta, o repolho selvagem, Brassica oleracea, da Europa. Evidentemente são membros de uma só espécie. E se plantas com tão diversas morfologias vegetativas são membros de uma só espécie, então parece muito razoável que o rabanete com uma flor aproximadamente idêntica possa ser também membro da espécie do repolho, e por esta razão pode cruzar-se com ele.
É à luz destas conhecidas variações morfológicas de um só ancestral, algo diferente da sua anatomia vegetativa, mas evidentemente idênticas fisiologicamente, que sustento que o teste de reprodução é válido para ser aplicado hoje em dia para determinar os membros de uma espécie original. Deus “de um só fez toda a geração dos homens para habitar sobre toda a face da terra”. (Atos 17:26). Sabemos que o homem constitui uma espécie única do Gênesis. Ele é caracterizado em toda a sua variação morfológica por ter um único tipo de protoplasma, que torna possível o cruzamento de toda e qualquer raça de pessoas. Parece lógico presumir que a compatibilidade fisiológica que caracteriza a espécie humana é de igual modo um característico de todas as espécies originais.
Seria bom lembrar-nos aqui de que há exceção dentro da espécie humana, casos em que os indivíduos são estéreis no acasalamento, mas se tornam férteis em acasalamento com outro indivíduo. Da mosca das frutas, a Drosophila melanogaster, o geneticista russo Kozhevnikov desenvolveu uma espécie de mosca fértil, mas que é estéril quando o macho faz cruzamento com os ancestrais (30). Estes indivíduos são certamente membros de uma única espécie, mas ainda são estéreis no cruzamento.
Tais casos ilustram o fato de que, ocasionalmente, os membros de uma espécie podem ser estéreis, e nestes casos o teste de reprodução deixaria de ser válido. Todavia, essas situações são, creio eu, exceção à regra geral.
O estudo de hibridação revela alguns fatos interessantes com respeito ao número de cromossomos no núcleo das células dos indivíduos que são de cruzamento fértil. O núcleo de todas as células do cavalo contém dezenove pares de cromossomos. Os do asno contêm trinta e três pares. Entretanto, apesar desta grande discrepância no número dos cromossomos, sabemos que estes dois animais são susceptíveis de cruzamento e produzem um híbrido muito vigoroso, a mula. Embora esta descendência seja geralmente estéril, conhecem-se diversos casos de mulas férteis (31). Esta situação de cruzamento fértil, embora o número de cromossomos seja diferente, não é incomum nas variedades da mesma espécie de planta. Isto é ilustrado no gênero Crepis, hierácio, onde os números de diferentes espécies, tais como 6, 8 e 10, são acompanhados de diferentes morfologias (32), e no gênero Poa, onde as famílias de uma espécie, P. alpina, têm os números 28, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 41, 45, 49, 52, 64, 66, 67, 72, 73, e 74 (33).
Em muitos gêneros de plantas e em relativamente poucos animais, a metade (haplóide) do número de cromossomos das espécies de um gênero forma uma série de simples múltiplos do número mínimo ou básico, por exemplo, 7, 14, e 21, nas espécies de trigo. Parece muito provável que tais casos se tenham desenvolvido por métodos naturais, após a Criação. Em outros exemplos, como do cavalo-asno, a diferença no número dos cromossomos sugere que não houve nenhum ancestral consangüíneo comum. Todavia, o fato da fertilidade de cruzamento indica protoplasmas muito semelhantes, e creio eu, indica serem membros da mesma espécie.
Número idêntico de cromossomos não é, aparentemente, indicação de tratar-se de uma mesma espécie. Para ilustrar: o chimpanzé e o homem, ambos, têm vinte e quatro pares de cromossomos nas suas células, e algumas espécies de hidras, ciclopes, afídeos, escaravelhos e moscas, todos têm seis como um número haplóide. E ainda, o rato e o boi têm o número haplóide de dezoito cromossomos (34). Hernandes e Darlington relataram meio número de cromossomos de doze como o ponto modal com um total de 391 espécies diferentes de uma lista de 2.413 diferentes espécies de plantas que dão flor (35). Dir-se-ia assim que o número dos cromossomos, como tal, não tem significação para determinar os membros em uma espécie particular.
Arrematando este breve estudo das espécies do Gênesis (num livro anterior, que está esgotado, sugeri o termo baramin para estas unidades originais, tirado das palavras hebraicas bara, “criado”, e min, “espécie” (36)), delinearei minha concepção desta unidade básica na natureza como segue.
Havia dois grupos gerais de unidades originais:
1) a espécie monotípica, e
2) a espécie politípica.
Na primeira não havia variedades originais, simplesmente uma única unidade fisio-morfológica. O homem poderia servir de ilustração aqui. Tal baramin seria inteiramente fora do comum; de fato, creio ser possível que o homem tenha constituido o único baramin monotípico. Os outros animais e também as plantas foram formados em baramins politípicos. Em tais casos estas unidades foram feitas de duas ou mais variedades originais. Para ilustrar, a espécie cavalar possivelmente consistiu da variedade semelhante ao cavalo (dezenove pares de cromossomos) e a variedade de asnos (trinta e três pares de cromossomos). E ainda, a espécie canina possivelmente consistiu de uma variedade original semelhante à raposa, uma variedade semelhante ao cão e uma variedade semelhante à hiena. Estes cães modernos, com a possível exceção da hiena, todos são susceptíveis de cruzamento fértil (37).
Os protoplasmas das variedades de cada baramin eram do mesmo tipo geral - tipo que diferia suficientemente na sua química para evitar qualquer cruzamento de espécies. Todavia os protoplasmas de uma espécie eram suficientemente semelhantes para permitir hibridação, ou amálgama, de suas variedades. É provável que os híbridos fossem comumente estéreis; ou sua prole, através da segregação de séries completas de cromossomos, na formação de gametas (células germinativas), reverter-se-ia a uma ou outra variedade original. Um caso em que essa segregação de séries inteiras de cromossomos em formação de gametas evidentemente ocorre, encontra-se nos raros casos de mulas férteis que geram potros férteis, quando enxertadas por garanhões, e mulos estéreis quando enxertadas por jumentos (38), (39). Tal mecanismo tenderia, em caso de hibridação, a preservar a pureza das variedades originais de cada baramin. Entretanto, suponho que naquele estado original as variedades de uma espécie fossem distribuidas sobre a superfície da terra de tal modo que cada variedade de uma espécie fosse isolada de outras variedades da mesma espécie. Muitas espécies ocupariam as mesmas áreas, mas as variedades originais de uma só espécie formariam um descontínuo mosaico na sua distribuição geográfica. Como se poderiam cruzar as variedades de uma espécie? Simplesmente porque todos os membros de um baramin foram criados com protoplasmas suficientemente semelhantes para que o cruzamento se tornasse possível. Se as variedades originais de uma espécie tivessem contato mútuo, na sua distribuição no estado original, é possível que o cruzamento não ocorresse por razões psicológicas, isto é, não haveria desejo de acasalar-se a não ser com membros de sua variedade particular.
Que razões tenho eu para delinear tal quadro das espécies criadas?
São as seguintes:
1) Razões lógicas - Seria absurdo formar plantas e animais conforme a sua espécie e ainda fazê-los morfológica e fisiologicamente tais que pudessem operar cruzamento e imediatamente apagar de todo o modelo original.
2) Razões fisio-morfológicas - A existência hoje de grupos biologicamente descontínuos. Todas as formas que podem hibridar hoje ou que já se tem conhecido como hibridantes são sempre suficientemente semelhantes para serem classificadas em um simples frupo básico taxonômico.
3) Razões paleontológicas:
a) O registro dos fósseis mostra a mesma evidente descontinuidade de grupos, e entre esses grupos distintos podem ser reconhecidos os ancestrais das espécies que vivem hoje, possuindo os mesmos caracteres morfológicos distintos que mostram os seus descendentes.
b) A ausência de qualquer forma fóssil que deva ser considerada híbrida entre as espécies.
O criacionista crê que quando os cientistas evolucionistas reconhecerem estes grupos isolados fisiologicamente, eles terão descoberto um dos mais evidentes, e ao mesmo tempo mais importantes fatos no mundo dos seres vivos. Finalmente, a demarcação dessas unidades básicas na natureza e a proclamação de sua identidade com as espécies do Gênesis livrarão o criacionista do estigma de pregar uma filosofia da ciência para a qual não pode oferecer nenhuma prova concreta na natureza.
(Na edição revista do livro Evolution, Creation and Science, do autor, à página 179, está um diagrama ilustrando a explanação da espécie original contida neste capítulo. O capítulo 10 desse livro deveria ser lido para maior clareza deste conceito).


(1) SKINNER, John. International Critical Commentary (Genesis), p. 11.
(2) Êxodo 20:9-11 - “Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus; não farás nenhum trabalho ... porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou”.
Êxodo 31:17 - “Entre Mim e os filhos de Israel é sinal para sempre; porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, e, ao sétimo dia, descansou, e tomou alento”.
Salmo 8 - “Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o Teu nome! ... Quando contemplo os Teus céus, obra dos Teus dedos, e a Lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres? ... Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico é em toda a terra é o Teu nome”.
Salmo 104 - “Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Senhor, Deus meu, como Tu és magnificente: vestido de glória e majestade, coberto de luz como de um manto. Tu estendes o céu como uma cortina ... lançaste os fundamentos da terra, para que ela não vacile em tempo nenhum. ... Puseste às águas divisa que não ultrapassarão. ... Que variedade, Senhor, nas Tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das Tuas riquezas. ... Exulte o Senhor por Suas obras! ... Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Aleluia!”
S. Mateus 19:4-6 - “... Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher? ...”
II S. Pedro 3:5 - “Porque, deliberadamente, esquecem que, de longo tempo, houve céus bem como terra, a qual surgiu da água e através da água pela palavra de Deus”.
Hebreus 4:4 - “Porque, em certo lugar, assim disse, no tocante ao sétimo dia: E descansou Deus, no sétimo dia, de todas as obras que fizera”.

(3) Romanos 4:17 - “... o Deus que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem”.
Hebreus 11:3 - “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem”.
Salmo 33:6 e 9 - “Os céus por Sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de Sua boca, o exército deles”. “Pois Ele falou e tudo se fez; Ele ordenou, e tudo passou a existir.”
Amós 4:13 - “Porque é Ele quem forma os montes, e cria o vento, e declara ao homem qual é o seu pensamento ... Senhor dos exércitos, é o Seu nome.”
(4) LEUPOLD, op. cit., pág. 46.
(5) S. João 1:1-3 - “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dEle, e, sem Ele, nada do que foi feito se fez”.
Colossenses 1:16 - “Pois nEle foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis ... Tudo foi criado por meio dEle e para Ele”.
I Coríntios 8:6 - “Todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por Ele”.
(6) Jó 38: 19-20 - “Onde está o caminho para a morada da luz? E quanto às trevas, onde é o seu lugar, para que as conduzas aos seus limites e discirnas as veredas para a sua casa?”
(7) Isaias 66:23 - “E será que de uma Festa da Lua Nova à outra e de um sábado a outro, virá toda a carne a adorar perante Mim, diz o Senhor”.
(8) Êxodo 16:22-30 - “Respondeu-lhes ele: Isto é o que disse o Senhor: Amanhã é repouso, o santo sábado do Senhor; o que quiserdes cozer no forno, cozei-o, e o que quiserdea cozer em água, cozei-o em água; e tudo o que sobrar, separai, guardando para a manhã seguinte. E guardaram-no até pela manhã seguinte, como Moisés ordenara; e não cheirou mal, nem deu bichos. Então disse Moisés: Comei-o hoje, porquanto o sábado é do Senhor; hoje não o achareis no campo. Seis dias o colhereis, mas o sétimo dia é o sábado; nele não haverá. Ao sétimo dia, sairam alguns do povo para o colher, porém não o acharam. Então disse o Senhor a Moisés: Até quando recusareis guardar os Meus mandamentos e as Minhas leis? Considerai que o Senhor vos deu o sábado; por isso, Ele , no sexto dia, vos dá pão para dois dias; cada um fique onde está, ninguém saia do seu lugar no sétimo dia. Assim descansou o povo no sétimo dia”.
(9) BUHL, Frants. Handwörterbuch über das Alte Testament.
(10) BROWN, DRIVER, e BRIGGS. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament.
(11) KOENIG, Eduard. Wörterbuch zum Alten Testament.
(12) SKINNER, op. cit., pág. 21.
(13) DILMANN, August. Die Genesis.
(14) II Reis 19:26 - “... tornaram-se como a erva do campo, e a erva verde, e o capim dos telhados ...”
(15) Isaias 37:27 - “... tornaram-se como a erva do campo, e a erva verde, e o capim dos telhados”.
(16) Gênesis 3:18 - “... e tu comerás a erva do campo”.
(17) Deuteronômio 11:15 - “Darei erva no vosso campo aos vossos gados ...”
(18) MORGAN, Thomas Hunt, Evolution and Adaptation, p. 43. Macmillan, (citado com a permissão do autor).
(19) AUSTIN, H. Clark, The New Evolution - Zoogenesis, p. 100-105; SIMPSON, op. cit., p. 99, 105 e 106.
(20) LANGE,J. P., A Commentary on the Holy Scriptures, vol. I, p. 160, sobre Gênesis 1:11 e 12.
(21) PEAK, A. S., A Commentary on the Bible, p. 137, sobre Gênesis 1:9-13.
(22) EXCELL, J. S., The Preacher’s Homiletic Commentary, Genesis, p. 17, sobre Gênesis 1:9-13.
(23) LEUPOLD, op. cit., p. 67 e 68, sobre Gênesis 1:11.
(24) WHITE, Ellen G., Patriarcas e Profetas, p. 44. Casa Publicadora Brasileira.
(25) Jó 35:11 - “... nos faz mais sábios do que as aves dos céus”.
I Reis 18:45 - “Dentro em pouco, os céus se enegreceram, com nuvens e vento, e caiu grande chuva”.
Deuteronômio 17:3 - “Que vá e sirva a outros deuses, e os adore, ou ao Sol, ou à Lua, ou a todo o exército do céu ...”
Daniel 4:26 - “... depois que tiveres conhecido que o céu domina.”
S. Lucas 15:21 - “... Pai, pequei contra o céu e diante de ti ...”
(26) CLARK, Harold. Creation Speaks, p. 22.
(27) Gênesis 2:19 - “Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os ao homem ...”
(28) Isaias 41:20 - “Para que todos vejam e saibam ... que o Santo de Israel o criou”.
Isaias 48:6 e 7 - “... Desde agora te faço ouvir coisas novas e ocultas, que não conhecias. Apareceram agora e não há muito, e antes deste dia delas não ouviste ...”
Isaias 65:17 - “Pois eis que crio novos céus e nova terra ...”
Jeremias 31:22 - “... Porque o Senhor criou coisa nova na terra ...”
(29) SIMPSON, George Gaylord. Tempo and Mode in Evolution, pp. 99, 105, 106.
(30) DOBZHANSKY, Theodosius. Genetics and the Origin of Species, pp. 302-303.
(31) Yearbook of Agriculture, 1936, pp. 184-185.
(32) DOBZHANSKY, Theodosius, op. cit. p. 132.
(33) MUNTZING, A. Further Studies and Apomixis and Sexuality in Poa, Hereditas, 1940, vol. 26, pp. 115-190.
(34) WILSON, E.B. The Cell in Development and Inheritance, pp. 855-865.
(35) DOBZHANSKY, Theodosius, op. cit. p.225.
(36) MARSH, Frank L. Fundamental Biology, 1941, p. 100.
(37) MAYR, E. Systematics and Origin of Species, p. 259.
(38) Yearbook of Agriculture, 1936, pp. 184-185.
(39) SINNOTT, E.W., e DUNN, L.C. Principles of Genetics, p. 279.


Criação em sete dias ou milhões de anos?


Considero-me criacionista porque creio que Deus criou tudo o que existe. Mas que diferença faz se Ele criou a Terra em sete dias de 24 horas ou ao longo de milhões de anos? Em ambos os casos, Deus é o Criador.

Atualmente, muitos cristãos acham que não é necessário acreditar que a Criação ocorreu em seis dias de 24 horas há menos de 10 mil anos. Segundo eles, essa crença não faz qualquer diferença nas doutrinas bíblicas, em nossa salvação ou na vida prática. Tenho a convicção de que nossa crença sobre as origens é fundamental para as doutrinas bíblicas e nossa vida prática. E aí está incluída principalmente nossa salvação. Vejamos algumas razões para essa convicção:

1. O caráter de Deus. Em primeiro lugar, essa questão tem a ver com o caráter do Deus que adoramos. Algum tempo atrás, uma amiga me disse que pensava que “severo” e “carrancudo” são características de Deus. Eu lhe respondi: “Eu nunca adorei um Deus assim. Apesar de ser um Deus de justiça e misericórdia, Ele nunca é severo ou carrancudo.” E poderia ter acrescentado: “Ele nunca é cruel.” Que tipo de Deus teria criado a vida por meio da morte e extinções ao longo de milhões de anos? Certamente, não o Deus que percebe quando uma ave cai no chão!

Romanos 5:12 afirma que a morte entrou no mundo por causa do pecado. A entrada do pecado no planeta Terra é descrita em Gênesis 3, quando Adão e Eva desobedeceram a Deus e sofreram a consequência: a morte. Mas, em vez de aceitar o claro ensino bíblico de que a morte é um resultado do pecado, alguns cristãos apresentam a morte como o próprio meio que Deus usou para criar! Com isso, parece que Satanás, cujo maior objetivo é distorcer o caráter de Deus, conseguiu levar pessoas a crer em dois enganos: (1) Deus cria por meio de sofrimento, violência, catástrofe e morte; e (2) a morte não é o resultado do pecado, mas o meio para que ocorra o progresso das criaturas.

Pensemos sobre o caráter de Deus em termos de “evolução criativa”. Suponha que Deus realmente tenha criado ao longo de milhões de anos. Em que momento do processo surgiu a consciência moral? Quando a humanidade se tornou moralmente responsável? Em que ocasião na história primitiva Deus mostrou aos seres humanos que Ele é um Deus que cuida e em quem se pode confiar? Mesmo se pudéssemos estabelecer um momento na história em que Deus comunicou Seu amor a mentes que poderiam raciocinar, por que demorou tanto tempo? O caráter de Deus é severamente atacado por teorias de que Ele usou milhões de anos para criar.

2. A salvação. Se a humanidade tem evoluído durante milhões de anos e está sempre evoluindo, por que precisamos de um Salvador? Não haveria qualquer necessidade de uma morte em nosso lugar, ensino apresentado em Gênesis 3:15, desenvolvido ao longo do Antigo Testamento e se cumprindo na morte de Cristo na cruz. Se não é o pecado que traz a morte (Rm 6:23), então não precisamos de um Salvador que remova a morte que recebemos como consequência do pecado.

Se rejeitarmos o ensino bíblico sobre a origem da vida e do pecado, então a morte de Jesus seria apenas uma influência moral, um exemplo de amor (nem mesmo uma revelação do amor de Deus), em vez de ser “o salário do pecado” (Rm 6:23). A morte de Cristo é uma transação divina; ou seja, é uma reconciliação realizada por Alguém fora da história humana que nos salva, e não apenas a influência daquela morte.

3. O sábado. A próxima razão é a santidade do sábado (Gn 2:2, 3; Êx 20:8-11; Mc 2:27). Se o sábado não foi o sétimo dia de uma semana literal da Criação, qual é a razão para nos lembrarmos do aniversário da Criação? Se a semana da Criação não foi literal, o dia específico que guardamos como tempo sagrado se torna totalmente irrelevante.

4. A presença e atuação de Deus. Outro aspecto é a maneira como Deus atua em nosso mundo. Se Deus não pode falar e, imediatamente, tudo ocorrer (Sl 33:9), por que eu deveria crer em qualquer outra coisa que Ele afirma ter feito ou que fará? Posso crer no ensino bíblico sobre o juízo final? Se o processo de criação realizado por Deus é descartado, apesar de ser confirmado por João e Paulo (Jo 1:1-3, 10; 1Tm 2:13), existe razão para questionar também o nascimento virginal de Cristo, Sua morte na cruz e a ressurreição literal.

5. A volta de Jesus. Na Bíblia, os eventos históricos da criação, do dilúvio global e da segunda vinda de Jesus estão intimamente ligados (Mt 24:37-39; 2Pe 3:3-5). No modelo evolucionista, tudo está em processo de desenvolvimento. Segundo alguns modelos evolucionistas, Deus está dentro de todos os seres vivos e precisamos apenas encontrar o deus que vive em nós.

Que necessidade existe de se preparar para o retorno de alguém que não é distinto das criaturas? Além disso, se a vida está se desenvolvendo, por que não simplesmente aguardar esse processo? Por que antecipar o Céu? (De fato, muitos cristãos já abandonaram a ideia de que Deus intervirá na história humana e preocupam-se apenas com esforços humanísticos para melhorar a sociedade.)

6. O casamento. Casamento! Se Deus não criou o primeiro homem e a primeira mulher, se Ele não os abençoou como cônjuges e pais (Gn 1:28), quem pode dizer o que é o matrimônio? O casamento se tornaria qualquer coisa que for declarada pela sociedade atual. Ele não teria sido originado por Deus nem fora estabelecido como modelo de relacionamentos (Mt 19:4, 5).

7. A mensagem de Deus para o tempo do fim. Outro motivo está relacionado com a mensagem de Deus para o tempo do fim (Ap 14:6-12). Apocalipse 14:7 apresenta a razão para adorarmos a Deus: Ele é o Criador dos Céus e da Terra, do mar e das fontes das águas. Observe os paralelos entre a linguagem do texto e a linguagem do quarto mandamento da lei de Deus (Êx 20:11). Em uma época em que o mundo rejeita a Deus como Criador, Apocalipse 14 mostra que a mensagem do juízo, a criação e o sábado estão profundamente ligados e são ensinos fundamentais para o tempo do fim.

8. A Palavra de Deus. Penso que a grande questão seja esta: a Bíblia é a Palavra de Deus e possui autoridade, ou é apenas um poema mítico e metafórico? Gênesis capítulos 1 e 2; Êxodo 20:8-11; Salmo 19:1-6; 33:6, 9; 104; Mateus 19:4 e 5; Hebreus 11:3 e muitos outros textos devem ser considerados relatos confiáveis e verdadeiros da obra de criação realizada por Deus? Ou devemos distorcer a Palavra de Deus apenas por que não somos capazes de explicar tudo que existe no Universo?

Conclusão. Voltemos à pergunta inicial: Que diferença existe se cremos que Deus criou a Terra da maneira como descrita na Bíblia (principalmente Gn 1-2) ou se Ele a criou ao longo de milhões de anos?

Estou convicta de que isso faz toda a diferença. Escolhi ter um relacionamento com o Deus que me criou e que deseja ter comunhão comigo (Ef 3:9), que é digno de meu amor e adoração (Ap 4:11) e à imagem de quem fui criada (Gn 1:27). Esse Deus está comigo a cada momento da vida. Pela fé, sei que Ele está sempre presente ao meu lado. Como poderia amar ou me relacionar com um Deus que deu origem à vida através da morte e sofrimento que duraram milhões de anos?

O ensino bíblico sobre a criação e sobre os últimos eventos da história é o que fornece o alicerce para o centro da Bíblia: Jesus Cristo. Se esse alicerce é destruído, a grande mensagem da Bíblia – a salvação – é destruída completamente.

(Cindy Tutsch, D.Min., é líder de jovens e diretora associada do Patrimônio Literário de Ellen G. White. Traduzido e adaptado por Matheus Cardoso. Usado com permissão.)

Última edição por Ronaldo em Seg Nov 01, 2010 7:43 pm, editado 1 vez(es)

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Mensagem em Sex Jul 16, 2010 11:32 am por Eduardo

Artigos

NO PRINCÍPIO - DEUS

Harold Coffin
Ph.D., foi professor de Paleontologia da Andrews University, em Berrien Springs, Michigan, U.S.A., e pesquisador do Geoscience Research Institute, em Loma Linda, California, U.S.A. Este artigo corresponde ao Capítulo 1 de seu livro intitulado “Origin by Design”, publicado em 1983 pela Review and Herald Publishing Association.


A mente humana não é capaz de compreender o infinito. Quando pequeno, deitava-me na poltrona estofada da sala de visitas e punha-me a meditar profundamente sobre os conceitos de infinitude do tempo e do espaço. Depois de ter-me envolvido com considerável turbulência na discussão desses mesmos assuntos, pareço agora acordar de um pesadelo pronto para escrever algo a seu respeito. Os anos trouxeram-me maturidade, mas não estou mais perto de ser capaz de resolver esses problemas - o que faço pela fé, apesar de a astronomia e a matemática hoje tornarem mais compreensíveis alguns aspectos do tempo e do espaço - do que estava antes.
“Tudo que é humano tem um princípio. Somente Aquele que se assenta sobre o trono, o soberano Senhor do tempo, não tem princípio nem fim. As palavras introdutórias das Escrituras estabelecem assim um impressionante contraste entre tudo que é humano, temporal e finito, e aquilo que é divino, eterno e infinito. ... Gênesis 1:1 afirma que Deus existe antes de todo o mais, e que Ele é único, e a única causa de todo o mais” (1).
O homem sempre demonstrou curiosidade sobre a origem da matéria e da vida. Os que não tiveram oportunidade de conhecer a Palavra de Deus, ou que rejeitam a sua inspiração, têm formulado várias teorias. Não é nosso propósito discutí-las, mas sim examinar cuidadosamente os primeiros poucos versículos das Escrituras.
Entendemos aqui a matéria como sendo a substância básica que constitui a estrutura dos materiais minerais e orgânicos que compõem a Terra. A descoberta da fissão nuclear, em anos recentes, focalizou as atenções sobre a energia e a matéria. O homem, até hoje, conseguiu realizar somente pequenos progressos no sentido de transformar energia em matéria. Entretanto, mais espetacular tem sido a sua capacidade de transformar em energia a massa associada à matéria, mediante a fusão e a fissão nucleares. As bombas atômicas lançadas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki ceifaram mais de 200.000 vidas. Embora uma só pessoa pudesse facilmente ter transportado o material que produziu as explosões sobre o Japão, a quantidade de energia liberada por esse material foi tremendamente grande.
Obviamente seria necessário pelo menos igual quantidade de energia para criar a matéria que se transformou em energia naquelas explosões. Na realidade, seria necessária mais de 1000 vezes a quantidade de energia liberada, para produzir a matéria envolvida na fissão do Urânio, já que a fissão nuclear constitui tão somente uma reorganização da matéria que libera aproximadamente 0,09% da energia que estaria disponível se a matéria fosse completamente aniquilada. Se a criação de uma quantidade de matéria tão ínfima demanda tanta energia, quanta energia estaria envolvida na criação do mundo? Ela seria equivalente à energia liberada pelo nosso Sol no decorrer de 44 milhões de anos.
“Pois Ele falou, e tudo se fez; Ele ordenou, e tudo passou a existir” (Salmo 33:9).
O que aconteceu no primeiro dia da semana da criação? Criou Deus, então, a matéria, juntamente com a luz, ou a matéria já existia? Ambos os pontos de vista reconhecem que Deus criou a substância que compõe nossa Terra, e que, ao fazê-lo, Ele não dependia de matéria pre-existente, de forma alguma. Da mesma maneira, ambos aceitam a integridade da semana da criação, consistindo de seis dias literais, e a santidade do sábado como o seu memorial. A única diferença entre os dois pontos de vista é se a matéria estava ou não presente no início do primeiro dia da semana. Esta divergência de opinião surge do fato de que as passagens bíblicas que tratam do assunto podem, com igual validade, ser compreendidas das duas maneiras.

A raiz do problema situa-se no significado da declaração introdutória das Escrituras Sagradas: “No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo” (Gênesis 1:1-2). Refere-se isso a um ato divino e à condição de nosso planeta anteriores ao primeiro dia da semana da criação? Ou a passagem especifica somente a primeira atividade criativa do primeiro dia da semana da criação? A frase “no princípio” significa os primeiros momentos da semana da criação, a própria semana da criação, ou um tempo anterior à semana da criação? A palavra criou envolve a produção de materiais que não tinham existência prévia, ou o seu rearranjo para formar uma habitação para o homem e para as miríades de formas de vida sobre o planeta? Céus significam o universo estrelado, ou o céu atmosférico sobre a superfície do planeta? E terra refere-se a nosso planeta como um todo, ou às características de sua superfície e dos seres vivos sobre ela?

Uma outra questão surge quanto a como deveríamos traduzir o original hebraico de Gênesis 1:1-3 - como na versão Almeida transcrita anteriormente, ou como rezam algumas outras traduções, como por exemplo a “Anchor Bible”: “Quando Deus se pôs a criar céu e terra - o mundo sendo então um êrmo sem forma, com trevas sobre os mares e somente um impressionante vento soprando sobre a água - disse Deus: 'Haja luz'. E houve luz” (2). Ambas as traduções são interpretações válidas do texto hebraico original, a diferença entre elas sendo o resultado da introdução de diferentes vogais nas consoantes do hebraico original. (A forma escrita do hebraico - semelhante à de outras línguas antigas escritas - utilizava somente consoantes). Na realidade, não temos maneiras de saber hoje qual das duas traduções se aproxima mais do significado que Moisés pretendia dar. Poderíamos dizer que a tradução de Almeida tende a favorecer a idéia de que Deus criou a substância básica de nosso planeta no primeiro dia da semana da criação, e a “Anchor Bible” a idéia de que Ele procedeu dessa forma antes do primeiro dia. Entretanto, nenhuma das traduções necessariamente exclui o outro ponto de vista, e a escolha final entre as duas depende do sentido em que entendemos as palavras princípio, criou, céus, e terra(3).
A pergunta então é: O que quis o escritor inspirado nos transmitir? Na linguagem moderna, terra (4) denota nosso planeta como um todo, incluindo toda a matéria de que ele se compõe. Por outro lado, as Escrituras nos dizem que “à porção seca chamou Deus terra”, em contraposição ao “ajuntamento das águas”, que Ele chamou “mares” (Gênesis 1:10). Além do mais, Moisés nos informa que o dilúvio destruiu “a terra” (Gênesis 9:11), e outros autores inspirados declaram que no futuro Deus “criará novos céus e nova terra” (Isaias 6:17, cf. II S. Pedro 3:13, Apocalipse 21:1). Claramente os autores bíblicos parecem referir-se à “terra” como a terra seca sobre a qual andavam, e não todo o planeta propriamente dito.
Na Bíblia a palavra céu(s) denota de maneira variada a atmosfera, as estrelas visíveis a partir da Terra, e o paraíso de Deus. Mas em cada caso em que ocorre a dupla “céu(s) e terra” em um contexto em que o escritor torna claro o sentido no qual está usando os termos, ele significa os céus atmosféricos e a superfície da Terra, e não o universo astronômico e o nosso planeta Terra. Exemplos dignos de nota são Hebreus 1:10-11 e II S. Pedro 3:7 e 10, que declaram que os céus e a terra serão “abrasados” e “perecerão”. Tanto quanto saibamos, poucas pessoas, se é que existem algumas, admitiriam que a grande conflagração do último dia destruirá o planeta Terra e as estrelas.

Gênesis 1 emprega a palavra criar para os atos divinos pelos quais Deus produziu as criaturas marinhas (verso 21) (5) e o homem (verso 27). É evidente, entretanto, que no momento de sua criação Deus fez uso de matéria já existente (versos 20 e 21, e capítulo 2, verso 7). Na realidade, o mesmo é válido para todas as formas de vida vegetal e animal mencionadas no relato da criação, como a própria Bíblia claramente afirma. Obviamente, a palavra criou, como o próprio escritor inspirado a utiliza posteriormente nos dois capítulos iniciais de Gênesis, pode referir-se à organização de matéria pre-existente para produzir seres vivos, e não necessariamente só à origem da própria matéria.
É possível interpretar Gênesis 1:1 da seguinte maneira: “No princípio (do primeiro dia da semana da criação) Deus criou (trouxe à existência) o céu (o universo estelar) e a Terra (planeta)”. É também igualmente válido ler: “No princípio (semana da criação) Deus criou (deu forma a) o céu (atmosfera) e a (superfície da) terra”. A primeira versão falaria da criação do globo terrestre no primeiro dia da semana da criação, e a segunda referir-se-ia à série dos atos divinos registrados no restante do capítulo, sem nada dizer sobre o instante em que Deus trouxe à existência a substância básica da terra.
Examinemos, nesta altura, a declaração de Êxodo 20:11, de que “em seis dias fez o Senhor os céus e a terra ... e tudo o que neles há”. Para a mente moderna à primeira vista isso pode parecer incluir o material inorgânico básico que compõe nosso planeta, bem como todos os seres vivos. Porém, novamente, como com relação a Gênesis 1:1-2, aplicam-se também aqui nossas observações anteriores a respeito das palavras céu(s) e terra. Em seu sentido original essa passagem de Êxodo poderia dizer: “Em seis dias fez o Senhor os céus (o firmamento, ou atmosfera, Gênesis 1:8) e a terra (a porção de terra seca da superfície terrestre, verso 10), o mar (ou a porção de água sobre a superfície terrestre, verso 10), e tudo o que neles há (todos os seres vivos nos céus, na terra e no mar)”. Da mesma forma como sua contra-parte em Gênesis 1, esta afirmação pode referir-se à organização da configuração da superfície da terra, incluindo a atmosfera e a hidrosfera, que estavam até então “sem forma”, e o preenchimento daquilo que estava “vazio” de vida, com seres vivos. Da mesma forma que Gênesis 1, Êxodo 20:11 deixa sem resposta a questão sobre quando Deus criou a substância básica da qual deu forma à configuração da superfície terrestre. A Bíblia não declara de maneira específica se isso aconteceu no primeiro ato criativo do primeiro dia da semana da criação, ou se aconteceu anteriormente.
Podemos, ainda, ler o primeiro versículo da Bíblia de outra forma. Um estilo comum na língua hebraica inicia a discussão de um assunto com uma declaração introdutória e termina com um sumário. Neste caso a introdução seria o versículo 1, e o sumário a primeira metade do versículo 4 do capítulo 2. O segundo versículo do primeiro capítulo descreveria então o que existia antes de Deus iniciar a Sua obra criadora, e o versículo 3 iniciaria a narração da semana da criação.
Poderíamos mencionar numerosos argumentos a favor de cada um dos dois lados da questão. Por exemplo, uma pessoa pode dizer que não é provável que Deus deixasse inacabada a obra da criação durante milhões de anos, enquanto que outra poderia apontar para Marte, cuja superfície ainda está aparentemente “sem forma e vazia”. Com relação a questões tais como a época em que Deus criou a substância básica de nossa Terra, nossa única posição segura é aceitar a Palavra de Deus naquilo que ela diz, nada mais e nada menos, e deixar a Bíblia ser a sua própria intérprete. Sobre pontos para os quais a Inspiração não proveu direção segura, é melhor suspender nosso juízo, e construir solidamente somente sobre o que Deus tenha revelado claramente. Deveríamos também ser tolerantes para com pontos de vista distintos a respeito de assuntos tais.

Sinto que muita tensão tenha se desenvolvido nos círculos criacionistas com relação à interpretação desses versículos. Evidentemente, mais de um ponto de vista é possível sem torcer as Escrituras. As considerações importantes não são sobre a presença ou a ausência de matéria no princípio da semana da criação, mas sim sobre a onipotência de Deus como Criador, Sua capacidade criativa (com ou sem matéria pre-existente), a literalidade da semana da criação, e o memorial comemorativo do sábado.
A existência de matéria inorgânica anteriormente à semana da criação pode permanecer uma questão em aberto, mas não deve existir dúvida com relação aos animais e plantas (matéria orgânica). A idéia de que seres vivos existiam na Terra antes da semana da criação é inteiramente incompatível com interpretação literal de Gênesis 1.
Alguns têm tentado conciliar a teoria da evolução com o relato bíblico da criação, atribuindo a cada dia da criação um longo período de tempo. Qualquer ponto de vista que aceite centenas de milhares ou milhões de anos para a existência da vida sobre a Terra levaria com toda a probabilidade, finalmente, ao conceito de que um dia significa uma era, ou seja um longo período de tempo. Não deixa de ser simples conjectura defender a integridade da semana da criação em face dos eons de tempo, mediante a afirmação de que a semana da criação teve a ver somente com o jardim do Éden, ou que a vida existia antes da semana da criação, mas que foi destruída antes desse evento. É perigoso construir teorias sobre o que pensamos ler nas entrelinhas dos versículos bíblicos. Os que defendem longas eras para a vida sobre a Terra devem explicar a seqüência dos fósseis na crosta terrestre - animais marinhos nos níveis mais baixos, plantas de terras baixas e répteis em seguida, e mamíferos, aves, e o ser humano em último lugar - ou como uma sucessão evolutiva, ou como uma série de atos criativos sucessivos de Deus, separados entre si por muito tempo. Os que aceitam a última possibilidade freqüentemente a equacionam logicamente com a seqüência da criação relatada no primeiro capítulo de Gênesis. Mas isso os traz de volta à idéia de que a narração bíblica refere-se aos dias da criação como prolongados períodos de tempo indefinidos. Parece ser praticamente impossível crer simultaneamente em grandes eras desde o início da semana da criação e nos dias literais da criação.
Podemos afirmar com certeza as verdades sobre a criação que Deus revelou claramente - que “Ele falou, e logo tudo se fez”, e que Ele modelou nossa Terra e a preencheu com seres vivos em uma semana literal.


O PRINCÍPIO

O povo aguardava, tenso, no desolado deserto. Uma descarga elétrica proveniente das pesadas nuvens negras que encobriam o anfratuoso monte havia-lhes atemorizado. O trovão que se ouviu ainda ecoava em sua mente. Sobreveio, entretanto, um estranho e não natural silêncio - a calmaria que antecede a tempestade, talvez? Enquanto tremiam em expectativa, até mesmo o seu líder - costumeiramente calmo e confiante - parecia visivelmente preocupado.


Subitamente, quebrando o silêncio, ouviu-se a voz da Onipotência. Recuando, a multidão caiu de joelhos. As palavras ribombavam pelos flancos da montanha e ao longo do vale, enquanto o grande Deus de Abraão, Isaque e Jacó pronunciava os dez preceitos do Decálogo, que seriam sua norma de vida.
Por muitos anos o povo hebreu havia estado imerso em uma sociedade idólatra. Eles haviam quase esquecido aquelas leis que constituem uma transcrição do caráter de Deus. Agora Deus trazia-lhes de novo o conhecimento de Si mesmo. O quarto mandamento, de maneira especial, iria lembrá-los de que Ele é um Deus superior a todos os outros, pois nenhum deus havia se manifestado como criador dos céus e da terra. Um dos seus descendentes declararia no futuro: “Só Tu és Senhor, Tu fizeste o céu, o céu dos céus e todo o seu exército, a terra e tudo quanto há neles; e Tu os preservas a todos com vida, e o exército dos céus Te adora” (Neemias 9:6).
Dias Literais
Em semanas vividas há pouco tempo antes, uma série de acontecimentos havia vividamente relembrado os até então escravos, acerca do ciclo semanal. Em todos os sétimos dias não havia maná para colher, fato esse descoberto por algumas pessoas que não haviam crido no que ouviram. Ainda mais, o maná apodrecia e dava bichos se fosse guardado de um dia para outro - exceto do sexto para o sétimo dia. O dia de repouso, o sábado, encerrava regularmente cada ciclo semanal. Deus disse ao povo que em seis dias havia criado o mundo, e no sétimo havia repousado. A multidão reunida não tinha dúvidas de que Ele se referia a dias literais. Não havia como pensar de outra maneira.
Se cada dia da semana da criação não fosse um período de 24 horas, não teríamos como explicar de onde proveio o ciclo dos dias da semana. Independentemente do dia que observássemos - sexta-feira, sábado ou domingo - teríamos dificuldade para explicar a origem de qualquer dia de repouso, sem a sua vinculação ao ciclo semanal estabelecido na semana da criação.
Nas Escrituras, a palavra hebraica yom, traduzida “dia”, quase sempre significa um período literal de 24 horas, quando precedido por um numeral. Obviamente, no relato da criação existe sempre um numeral precedendo aquela palavra - primeiro, segundo, terceiro, etc., e essa regra para a tradução de yom como um dia literal aplica-se neste caso. Com base na correta exegese bíblica podemos portanto interpretar os dias da criação como dias literais.
Os escritores dos demais livros da Bíblia, após Moisés, certamente encaravam a primeira parte de Gênesis como divinamente inspirada e autorizada, e compreendiam ser literal a semana da criação. Davi refere-se repetidamente a Deus como Criador, e indica a natureza instantânea de Sua obra criadora (Salmo 33:6-9). O Salmo 104 segue a ordem dos dias da criação - observe-se especialmente os versos 2 e 3 (primeiro e segundo dias), 19 (quarto dia), e 25-30 (quinto e sexto dias). No Novo Testamento todos os evangelistas incluem referências à criação, ao dilúvio, e à história dos primórdios da terra. As próprias palavras de Jesus indicam a Sua aceitação da historicidade de Gênesis (Mateus 11:23-24; 19:4; 24:37-39; Marcos 10:6; 13:19; Lucas 11:51; 17:26-27).
Se Jesus tivesse afirmado positivamente no Novo Testamento que a criação teve lugar em seis dias literais, a maioria das pessoas ficaria impressionada com esse fato. Não obstante, Deus, na majestade de Sua glória, afirmou o fato, do alto do Monte Sinai, sendo ouvido por milhares de pessoas, e tendo registrado Sua declaração em tábuas de pedra e também nas Escrituras Sagradas. “Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há” (Êxodo 20:11).
Como poderia Moisés, o autor de Gênesis, ter tornado mais claro que os dias da criação foram literais? Ele deu um número seqüencial para cada dia, falou a respeito de noite e dia, trevas e luz, encerrando o relato sobre cada dia com a expressão “tarde e manhã”. Qualquer pessoa que deseje crer em longos períodos de tempo para cada dia da criação deverá compreender que Moisés não estava tentando dar esse sentido ao seu relato.
Constituiriam os dois primeiros capítulos de Gênesis relatos distintos da criação feitos por diferentes autores não contemporâneos, como às vezes se alega? À primeira vista os dois capítulos podem parecer bastante distintos. Entretanto, têm eles em comum unidade temática, semelhança de forma e de características, e significativos usos dos nomes para a divindade (1). Traçar em linhas gerais a temática principal e em seguida voltar a preencher os detalhes, ainda hoje constitui um estilo literário comum. O relato básico encerra-se com a primeira metade do quarto verso do capítulo 2. A parte que diz respeito especificamente ao ser humano inicia-se com a segunda metade de Gênesis 2:4 e continua até o fim do capítulo 2.

O primeiro dia

Sempre, desde que o homem pela primeira vez elevou seus olhos para o céu noturno, tem ele se maravilhado com a sua beleza, e ponderado sobre o desconhecido. A astronomia moderna tem descoberto algo sobre a vastidão do universo, que jaz além da compreensão humana. As estrelas e galáxias não vieram à existência acidentalmente - elas são o objeto do poder criativo de Deus manifestado na transformação de energia em matéria. O primeiro capítulo do livro de Gênesis descreve os atos criativos que levaram ao estabelecimento de um desses corpos celestes como um lar para uma nova raça de seres feita à Sua imagem.
Do início ao fim, a primeira semana da história da Terra foi plena de sucessivos milagres. Deus não houve por bem dar-nos muitos detalhes sobre os Seus atos criativos. O registro é breve, porém simples e abrangente.
“No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra, porém estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas. Disse Deus: Haja luz; e houve luz. E viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas. Chamou Deus à luz Dia e às trevas, Noite. Houve tarde e manhã, o primeiro dia” (Gênesis 1:1-5).
Assim se inicia o relato da criação. Como executou Deus os Seus atos criadores? As Sagradas Escrituras dizem que Ele “pronunciou” a existência do mundo e suas formas vivas, de acordo com o plano que já existia em Sua mente. “Os céus por Sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de Sua boca, o exército deles. ... Pois Ele falou, e tudo se fez; Ele ordenou, e tudo passou a existir” (Salmo 33:6-9). “Também a Minha mão fundou a terra, e a Minha destra estendeu os céus; quando Eu os chamar, eles se apresentarão juntos” (Isaias 48:13). O apóstolo João declarou: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dEle, e, sem Ele, nada do que foi feito se fez” (João 1:3).
A frase “sem forma e vazia” descreve a condição da terra no instante em que os atos criativos começaram a ter lugar. Ela descreve o estado caótico que foi transformado, mediante sucessivos atos criativos durante a semana da criação, em um estado de ordem e beleza, à medida em que Deus modelava, dava forma, e organizava a superfície da terra tornando-a um local habitável para o ser humano.
A luz trazida à existência no primeiro dia da semana da criação evidentemente provinha de uma fonte definida, e a rotação da Terra resultou na sucessão de noite e dia, situação não diferente da de hoje. É razoável supor que Deus tenha criado nosso sistema solar - o Sol, os planetas e seus satélites - como uma unidade.


O segundo dia

“E disse Deus: Haja firmamento no meio das águas e separação entre águas e águas. Fez, pois, Deus o firmamento e separação entre as águas debaixo do firmamento e as águas sobre o firmamento. E assim se fez. E chamou Deus ao firmamento Céus. Houve tarde e manhã, o segundo dia” (Gênesis 1:6-8).
Deus despendeu o segundo dia na organização da atmosfera. Talvez tenha Ele então elevado o vapor d’água que podia estar pairando sobre a superfície das águas, inserindo uma camada de ar entre essas águas que foram para cima, e as águas que permaneceram em baixo. A palavra hebraica traduzida como “firmamento” significa uma grande expansão - uma boa descrição da atmosfera. O relato do segundo dia, com a repetição do conceito da separação entre águas e águas, tem sugerido a muitos a possibilidade de ter ocorrido a formação de uma camada envoltória de vapor d’água na alta atmosfera. Independentemente de uma comprovação de tal interpretação, numerosas evidências circunstanciais tendem a apoiá-la. Em resumo são elas as seguintes:
1) A redação repetitiva de Gênesis 1:6-8 com relação à separação entre as águas, a menos que fosse um expediente meramente literário ou estilístico, parece enfatizar essa interpretação.

2) A blindagem efetuada por essa camada envoltória de vapor d’água poderia explicar uma possível diferença entre as relações Carbono-12/Carbono-14 existentes antes do dilúvio e atualmente.

3) Uma camada envoltória de vapor d’água poderia ter influído para um clima global mais ameno.

4) Camadas de ozônio e faixas quentes na estratosfera poderiam ter sido os reservatórios desse vapor d’água. O ozônio tem forte afinidade pela água, e temperaturas maiores permitiriam maior saturação.
Por outro lado, é possível que Moisés refira-se às nuvens ao mencionar as águas acima do firmamento. Falando dos céus de sua época (pós-diluviana), Davi usou a mesma expressão de Moisés (Salmo 148:4 - “... louvai-O as águas que estão acima do firmamento”), embora ninguém defenda que um invólucro de vapor d’água tenha existido após o dilúvio. Não devemos defender dogmaticamente a teoria da camada envoltória de vapor d’água. Pelo contrário, deveríamos pesar as restrições de ordem física e meteorológica que possam vir a limitar nossas opções com relação a quaisquer eventuais características fascinantes que a teoria possa apresentar (2). Por exemplo, a camada de vapor d’água poderia encobrir a luz das estrelas, e então como poderiam elas ter sido postas para “sinais”? (Gênesis 1:14). A condensação de um invólucro de vapor d’água não proporcionaria mais do que uma pequena fração da quantidade de água necessária para um grande dilúvio universal.
A cosmologia dos povos antigos descrevia um firmamento sólido que podia enrolar-se como um pergaminho, tendo luminárias nele pendentes. Eles se viam como que morando sob uma grande cobertura ou tenda, que tinha sólidos apoios. Janelas nessa cobertura abriam-se para deixar cair a chuva, conceito esse refletido nos textos seguintes: Gênesis 1:17 (luzeiros colocados no firmamento); Jeremias 10:12; 51:15 (os céus sendo estendidos); Salmo 104:2, Isaías 40:22 (os céus estendidos como uma cortina, como tenda para neles habitar); Jó 26:11 (as colunas do céu); Gênesis 7:11, II Reis 7:2 (as janelas do céu); Isaías 34:4, Apocalipse 6:14 (os céus se enrolando como pergaminho); Provérbios 8:28 (as nuvens sendo firmadas).
Certas passagens das Escrituras - Jeremias 10:12, Isaías 40:22, Jó 26:11, e outras - sugerem que os seus autores tinham conceitos cosmológicos semelhantes aos das antigas culturas pagãs. Certamente não queremos dizer que os escritores bíblicos entendiam a cosmologia como nós hoje (não querendo com isso, absolutamente, dizer que nossa compreensão atual seja perfeita). Entretanto, em numerosas ocasiões parece que Moisés, nos seus escritos de Gênesis, realmente estava tentando contrabalançar e remover a influência da cosmologia pagã. Por exemplo, ele nem mesmo se permite nomear o Sol e a Lua, tão somente chamando-os de luminar maior e luminar menor. Sol e Lua eram divindades egípcias que Moisés não desejava endossar nem dar ensejo para sua adoração. A primeira sentença de Gênesis, com suas quatro declarações fundamentais - quando, quem estava envolvido, o tipo de atividade, e o resultado - não encontra paralelo no mundo antigo. No relato bíblico da criação o homem é o centro e o clímax da atividade de Deus. Permanece esse relato em acentuado contraste com as mitologias pagãs antigas que descrevem a criação do homem como uma ilação tardia, ou como resultado de guerras entre os deuses. Os relatos pagãos da criação não mencionam a mulher, ou a encaram como de importância secundária. A narrativa de Gênesis da criação da mulher é mais notável quando a comparamos com as culturas e a sociedade nas quais seu autor viveu. Talvez interpretássemos melhor expressões como “janelas dos céus”, ou “colunas do céu”, à luz do seu contexto como linguagem figurada ou poética. Tal prática ainda hoje é freqüente. Falamos freqüentemente do nascer ou do pôr-do-sol, dos quatro cantos da Terra, etc., sem realmente acreditarmos literalmente nas palavras que usamos. Os escritores antigos usavam suas próprias palavras e eram influenciados pela sua herança cultural, entretanto não devemos esquecer que o Espírito Santo os inspirou, e que suas mensagens são verdadeiras, e não meramente idéias pagãs atualizadas ou reescritas.
Eclesiastes 1:6-7 reflete uma perspectiva do ciclo hidrológico na natureza, e do movimento das massas de ar, que é notavelmente moderna, e de maneira nenhuma em conformidade com a cosmologia dos dias de Salomão.

O terceiro dia

“Disse também Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num só lugar, e apareça a porção seca. E assim se fez. À porção seca chamou Deus Terra, e ao ajuntamento das águas, Mares. E viu Deus que isso era bom. E disse: Produza a terra relva, ervas que dêem semente e árvores frutíferas que dêem fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nele, sobre a terra. E assim se fez. A terra, pois, produziu relva, ervas que davam semente segundo a sua espécie e árvores que davam fruto, cuja semente estava nele, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom. Houve tarde e manhã, o terceiro dia” (Gênesis 1:9-13).
O Salmo 104, versos 5 a 9, aduz um quadro posterior da criação que acrescenta detalhes ao breve relato de Gênesis. Os versos 7 e 8, particularmente, aplicam-se ao terceiro dia. “À Tua repreensão (as águas) fugiram, à voz do Teu trovão, bateram em retirada. Elevaram-se os montes, desceram os vales, até ao lugar que lhes havia preparado”. Aparentemente ocorreram grandes movimentos da crosta, que em algumas áreas rebaixaram o solo e em outras elevaram cadeias de montanhas e massas de terra. A água foi drenada para as áreas mais baixas, deixando seca a terra das áreas mais elevadas. A mesma descrição aplicar-se-ia também aos últimos estágios do dilúvio, apesar de neste caso a atividade aparentemente ter sido bem mais lenta do que na criação. A drenagem da terra, e o seu enxugamento, ocorreram durante parte de um dia, velocidade esta que ultrapassa enormemente o valor atual de ocorrências semelhantes.
Deus devotou a última parte do terceiro dia à criação das plantas. O relato de Gênesis torna claro que isso envolveu mais do que um mero brotar da vegetação. Deus deve ter criado plantas em todos os estágios de crescimento, incluindo a maturidade completa. Adão e Eva não tiveram de esperar até que as plantas crescessem, para encontrar alimento. Conquanto no Jardim do Éden se manifestasse uma beleza especial, o clima tropical, ou semitropical, manteve luxuriante vegetação em toda a terra.
Ao tentarmos compreender a obra de Deus na criação, repetidamente reconhecemos e confessamos nossa incompetência e ignorância. “Porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os Meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os Meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos” (Isaías 55:9).


O CLÍMAX DA CRIAÇÃO

O quarto dia

Uma leitura descuidada de Gênesis 1:14-19 pode induzir uma pessoa a pensar que Deus repentinamente tenha transferido sua atividade criadora para outras partes do universo. Todos os outros atos da semana da criação, entretanto, tiveram lugar na terra, e estiveram relacionados diretamente com ela. O relato, entretanto, engloba mais do que pode parecer à primeira vista:
“Disse também Deus: Haja luzeiros no firmamento dos céus, para fazerem separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais, para estações, para dias e anos. E sejam para luzeiros no firmamento dos céus, para alumiar a terra. E assim se fez. Fez Deus os dois grandes luzeiros: o maior para governar o dia, e o menor para governar a noite; e fez também as estrelas. E os colocou no firmamento dos céus para alumiarem a terra, para governarem o dia e a noite e fazerem separação entre a luz e as trevas. E viu Deus que isso era bom. Houve tarde e manhã, o quarto dia” (Gênesis 1:14-19).
Os corpos celestes sempre fascinaram o homem. Para quem crê no Deus da criação eles ilustram Sua grandeza e poder. Isaías bem expressou tal convicção: “Levantai ao alto os olhos e vede. Quem criou estas coisas? Aquele que faz sair o Seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais Ele chama pelo nome; por ser Ele grande em força e forte em poder, nem uma só vem a faltar” (Isaías 40:26). Os antigos, que já se tinham apartado da crença em um Criador, também se sentiram impressionados com eles. Infelizmente, começaram a adorá-los (especialmente o Sol) em lugar de seu Criador. O nome comum para o primeiro dia da semana, em várias línguas, por exemplo, é um resquício dessa antiga prática.
Nos versos 5 a 8 Moisés identifica o que ele significa com a palavra firmamento. São os céus atmosféricos, a expansão existente imediatamente acima da superfície terrestre. O verso 17, que diz respeito ao quarto dia, conta como Deus colocou o Sol, a Lua e as estrelas no firmamento. Esses corpos, porém, não estão em órbita nos céus atmosféricos. Ter-se-ia enganado Moisés?
Uma interpretação razoável é que Moisés descreveu a criação como ele a viu. Se o seu ponto de vista fosse o de uma pessoa sobre a superfície da Terra, observando a atividade criadora de Deus, pareceria a ele como se Deus realmente colocasse os corpos celestes no firmamento no quarto dia, quando eles se tornaram visíveis como entidades distintas, pela primeira vez. Encontramos situação análoga em pelo menos mais um outro caso, também envolvendo Moisés. Êxodo 7:10-12 relata o episódio das varas que se tornaram serpentes. A história não distingue a serpente proveniente da vara de Aarão, das demais provenientes das varas dos magos. Todas são chamadas de serpentes. As serpentes provenientes das varas dos magos não eram seres vivos, pois o homem não tem o poder de criar vida. Isso é prerrogativa unicamente de Deus. A Bíblia usa de forma consistente a capacidade de criar e dar vida como sendo a característica que distingue o verdadeiro Deus de todos os outros seres. Na corte de Faraó aquelas varas aparentemente haviam-se transformado em serpentes, e Moisés registra a maneira pela qual aparentavam ser.
A leitura de Gênesis 1:14-19 dá nítida impressão de que Deus criou o Sol, a Lua, e as estrelas, no quarto dia. É difícil, entretanto, incluir aí as estrelas, pois isso implicaria pelo menos a formação do universo visível naquele instante. Este ponto de vista tão geocêntrico nos recorda a crença antigamente sustentada de que a Terra era o centro do universo. Os raios de luz das estrelas distantes não teriam ainda chegado até nós (com a atual velocidade da luz), a menos que Deus as tivesse formado bem antes da semana da criação.
Como a palavra “fez” - na declaração “E fez também as estrelas” (verso 16) - foram acrescentadas pelos tradutores, e não aparece no texto hebraico, a sentença pode constituir uma expressão intercalada sem a intenção de significar que Deus tencionou que as estrelas governassem a noite, como expresso no Salmo 136:9 (“... a Lua e as estrelas para presidirem a noite...”). Talvez também Moisés desejasse deixar claro que Deus criou as estrelas, sem necessariamente implicar que Ele o tivesse feito no quarto dia, apressando-se assim a acrescentar “as estrelas também”.
Alguns preferem pensar que Deus formou o Sol no primeiro dia, ou no instante em que Ele trouxe à existência a matéria que compõe nosso sistema solar. A partir do primeiro dia, parece que dia e noite não fugiram da configuração atual que exige uma fonte de luz constante e definitiva, e uma Terra em rotação.
Os acontecimentos dos dias anteriores haviam produzido movimentos dinâmicos da crosta terrestre, e estabelecido a mistura de gases para sustentar a vida no espaço imediatamente acima da superfície da Terra. Tais fatos naturalmente teriam produzido grandes quantidades de vapor d'água, de tal forma que talvez o Sol, a Lua, e as estrelas, não fossem visíveis como corpos distintos, a partir da superfície da Terra, até o quarto dia quando a neblina tivesse se dissipado.
Estudiosos da língua hebraica dividem-se quanto ao significado e à interpretação das palavras bârâ (“criou”) e 'âsâh (fez). Alguns acham que elas têm significado semelhante e são intercambiáveis. Outros interpretam 'âsâh de maneira mais ampla, para incluir significados tais como “libertar a restrição”, ou “desvendar”. Como Gênesis usa 'âsâh para descrever atividades criadoras do quarto dia, deveríamos ser tolerantes para com as diversas opiniões sobre quando estabeleceu Deus o Sol, a Lua, e as estrelas. Certamente cada um tem a liberdade de manter a opinião a que chegou após seu reverente estudo pessoal do assunto.

O quinto dia

Nos quinto e sexto dias chegou à culminância a obra da criação de nosso mundo. Apesar da formação da matéria inorgânica, do estabelecimento de um mundo organizado a partir de um vazio sem forma, e da criação das plantas, tudo isso, tivesse manifestado o grande poder e intelecto de Deus, a formação de criaturas animadas ativas, com responsabilidades, foi o que proveu o espetacular clímax do processo criativo.
“Disse também Deus: Povoem-se as águas de enxames de seres viventes; e voem as aves sobre a terra, sob o firmamento dos céus. Criou, pois, Deus os grandes animais marinhos e todos os seres viventes que rastejam, os quais povoavam as águas, segundo as suas espécies; e todas as aves, segundo as suas espécies. E viu Deus que isso era bom. E Deus os abençoou, dizendo: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei as águas dos mares; e, na terra, se multipliquem as aves. Houve tarde e manhã, o quinto dia” (Gênesis 1:20-23).
As descrições feitas por Moisés das diferentes espécies de plantas e de animais marinhos e terrestres não tinham intenção de nos fornecer classificações científicas. A Bíblia foi escrita para os homens de todas as épocas, e poucos teriam formação científica como a de hoje. Tentar fazer com que essas listas simplificadas se tornem completas e sejam congruentes com o moderno sistema de classificação dos seres vivos, contraria a intenção e o propósito das Sagradas Escrituras. Deveríamos observar, entretanto, que as categorias de plantas e animais que Moisés menciona, na realidade cobrem adequadamente os reinos vegetal e animal de forma simples para a compreensão por parte de qualquer leitor, apesar de, em alguns casos, os tradutores aparentemente terem dado significados muito restritos a algumas palavras ou frases do relato original.
Por exemplo:

“A tradução baleias (que consta na tradução de Almeida revista e corrigida) é muito limitada em seu escopo. A palavra tem significados outros, como serpente (Êxodo 7:9, 10 e 12) e dragão (Isaías 51:9, Ezequiel 29:3, como consta na tradução de Almeida antiga), mas deve significar grandes animais marinhos nesta passagem (como consta na tradução de Almeida revista e atualizada) como também no Salmo 148:7 (onde consta como monstros marinhos).
“O verbo mover, râmâs em hebraico, é especialmente descritivo de animais que rastejam (Gênesis 9:2) seja sobre a terra (Gênesis 7:14), seja nas águas (Salmo 69:34), embora aqui em Gênesis 1:21 refira-se claramente às criaturas aquáticas” (1).
Da leitura da versão King James, em Inglês, poderia parecer que Deus houvesse criado das águas tanto as aves como as criaturas marinhas. A Versão Revista Padrão (Revised Standard Version), em Inglês, reflete mais corretamente o hebraico: “Povoem-se as águas de enxames de criaturas vivas, e voem as aves sobre a terra através do firmamento dos céus” (Gênesis 1:20) (2). Provavelmente não tem maior relevância o fato de terem as águas produzido as aves, ou de ter Deus escolhido alguma outra nova fonte de matéria. A Versão Revista Padrão, em Inglês, destrói o argumento usado por alguns críticos da Bíblia, de que Gênesis 1:20 e 2:19 se contradizem porque na versão King James a primeira passagem refere-se às águas produzindo as aves, e a segunda menciona “Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra ... todas as aves do ar”. A palavra ave incluiria todos os pássaros e talvez outros seres alados.
Os tipos de animais criados no quinto dia eram extremamente diversificados, incluindo mamíferos, insetos, peixes, vermes, mariscos e pássaros. Uma simples olhadela na lista, juntamente com a verificação de que no dia seguinte também se deu a produção de vermes, mamíferos, insetos, etc., elimina toda e qualquer pretensa seqüência evolutiva. Deus formou tanto as formas de vida mais complexas como as mais simples, em ambos os dias, o quinto e o sexto.
Talvez Deus tivesse criado diferentes estágios nos ciclos de vida de alguns animais em dias distintos - por exemplo, girinos no quinto dia (como animais aquáticos) e rãs no sexto dia (como animais terrestres). O relato é sumário, e Ele achou desnecessário revelar muitos detalhes.

O sexto dia

“Disse também Deus: Produza a terra seres viventes, conforme a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selváticos, segundo a sua espécie. E assim se fez. E fez Deus os animais selváticos, segundo a sua espécie, e os animais domésticos, conforme a sua espécie, e todos os répteis da terra, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom” (Gênesis 1:24-25).
O sexto dia completa o trabalho da criação dos animais. Novamente não podemos querer comparar as categorias empregadas por Moisés com qualquer classificação moderna. Na versão Almeida revista e corrigida tem-se “gado”, “répteis”, e “bestas feras”, correspondendo a “animais domésticos”, um conjunto misto de formas de vida mais simples, e “animais selváticos” (principalmente mamíferos). Essas categorias incluem praticamente todas as formas de vida terrestres.
Uma das notáveis características da narrativa referente aos terceiro, quinto e sexto dias da criação é o uso repetitivo da expressão “segundo a sua espécie”, ou “conforme a sua espécie”.
“E a terra, pois, produziu relva, ervas que davam semente segundo a sua espécie, e árvores que davam fruto, cuja semente estava nele, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom” (Gênesis 1:12).
“Criou, pois, Deus os grandes animais marinhos e todos os seres viventes que rastejam, os quais povoavam as águas, segundo as suas espécies; e todas as aves, segundo as suas espécies. E viu Deus que isso era bom” (Gênesis 1:21).
“E fez Deus os animais selváticos, segundo a sua espécie, e os animais domésticos, conforme a sua espécie, e todos os répteis da terra, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom” (Gênesis 1:25).
Seria significativa essa repetição, e teria a intenção de transmitir algum sentido especial? Os comentaristas têm interpretado essa frase pelo menos de duas maneiras:
1) Como uma ordem reguladora do futuro comportamento reprodutivo das plantas e dos animais;

2) Como uma maneira de dizer que Deus criou várias categorias de plantas, pássaros, criaturas aquáticas, etc., das quais aquelas que foram mencionadas deveriam ser representativas.
A expressão “conforme a sua espécie” aparece trinta vezes nos livros de Moisés, particularmente nos capítulos 6 e 7 de Gênesis, 11 de Levítico e 14 de Deuteronômio. Por exemplo:

“Das aves, estas abominareis; não se comerão, serão abominação: a águia, o quebrantosso e a águia marinha; o milhano e o falcão, segundo a sua espécie, todo corvo, segundo a sua espécie, o avestruz, a coruja, a gaivota e o gavião, segundo a sua espécie, o mocho, o corvo marinho, a ibis, a gralha, o pelicano, o abutre, a cegonha, a garça, segundo a sua espécie, a poupa e o morcego. Todo inseto que voa, que anda sobre quatro pés será para vós outros abominação. ... Deles, comereis estes: a locusta, segundo a sua espécie, o gafanhoto devorador, segundo a sua espécie, e o gafanhoto, segundo a sua espécie”. (Levítico 11:13 a 20 e 22)
“De tudo o que vive, de toda carne, dois de cada espécie, macho e fêmea, farás entrar na arca, para os conservares vivos contigo. Das aves, segundo as suas espécies, de todo réptil da terra segundo as suas espécies, dois de cada espécie virão a ti, para os conservares em vida”. (Gênesis 6:19-20)
Torna-se evidente que o autor nessas passagens não tem a intenção de referir-se ao comportamento reprodutivo, e que as palavras “segundo a sua espécie” são usadas simplesmente para indicar todos os animais da mesma categoria que os que foram nomeados. A frase “espécies de” poderia tornar mais preciso o significado - espécies de aves, espécies de gado,e espécies de répteis. Observe-se esta tradução: “... junto com todas as várias espécies de animais selváticos, todas as várias espécies de animais domésticos, todas as várias espécies de répteis que rastejam sobre a terra, e todas as várias espécies de aves, todas com penas e asas; de todas as criaturas em que havia fôlego de vida, Noé juntou um casal de cada, na arca” (3) (Gênesis 7:14-15).
Voltando a Gênesis 1, torna-se evidente que o mesmo sentido ali se aplica. Moisés aparentemente refere-se às espécies de animais e plantas que Deus criou no terceiro, quinto e sexto dias, e não ao seu comportamento reprodutivo.
Na época em que Darwin escreveu “A Origem das Espécies”, os religionistas defendiam fortemente a idéia da fixidez das espécies com base na frase “segundo sua espécie” repetida em Gênesis 1. Darwin, por exemplo, escreveu para um amigo que, quando começou a compreender que as espécies realmente mudam, foi como se estivesse confessando um homicídio (4). Compreendemos hoje que o conceito dos religionistas da época, sobre a fixidez das espécies, baseava-se em uma interpretação incorreta das Escrituras.
Como Gênesis 1 não declara que animais de diversas espécies não podem cruzar-se ou hibridizar-se, devemos manter nossos olhos e nossa mente abertos à possibilidade de que no mundo ante-diluviano pudessem ter ocorrido cruzamentos entre espécies distintas, em uma escala maior do que hoje. Negar enfaticamente que isso não poderia ter ocorrido no passado porque não ocorre hoje, é posicionar-se dogmaticamente dentro da estrutura uniformista.
O conhecimento da Bíblia tem-se aprofundado nos tempos atuais, o mesmo se dando com o conhecimento científico. Embora as verdades básicas permaneçam inalteradas, as igrejas deveriam reavaliar algumas de suas interpretações, de tempos em tempos. Não devemos criticar quem tenha errado no passado. Entretanto a lição fica para nós. Em todas as situações devemos estudar a Bíblia cuidadosamente para descobrir exatamente o que ela diz - e o que ela não diz. O mais diligente estudo, entretanto, não nos conduzirá à verdade, a menos que o Espírito Santo dirija nossa mente. As Escrituras prometem o Espírito Santo para aqueles que O procuram com contrição.
Na criação do homem, Deus trouxe à existência uma criatura dotada dos atributos divinos de raciocínio, julgamento e consciência, que o distinguem dos animais.
“Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à Sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gênesis 1:26-28).
O homem veio à existência como filho de Deus, produto de Seu planejamento e execução. Era uma criatura feita especialmente para habitar uma bela e perfeita terra. As claras palavras de Gênesis conflitam com a teoria que hoje prevalece sobre a origem evolutiva do homem, e jamais poderemos conciliar essas duas posições antagônicas.
O relato de Gênesis implica que, ao Deus criar as variadas formas de vida vegetal e animal nos dias sucessivos da semana da criação, fez Ele uso de matéria que previamente Ele mesmo havia trazido à existência. A vegetação proveio da terra; os animais marinhos, das “águas”; as aves e os animais terrestres, da “terra” (Gênesis 1:11-12, 20-21, 24; 2:19). O fato de que “formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra” (Gênesis 2:7) da mesma maneira ou sugere o uso de matéria existente, ou define a espécie de matéria de que se compõe o corpo humano, ou ambas as coisas.
Criou Deus matéria sem recorrer a material previamente criado, desde a semana da criação? Jesus teria criado matéria ao alimentar 5000 pessoas com cinco pãezinhos e dois peixes? O que aconteceu ao ter Ele curado o homem com o braço ressequido? Teria Deus criado instantaneamente os peixes da pesca milagrosa de Pedro ao jogar ele sua rede para o outro lado do barco? Ao curar os leprosos, recebiam eles de volta seus pedaços faltantes, como dedos, artelhos e nariz? Tais exemplos parecem sugerir que Deus tenha então criado matéria nova (5).
Com o homem, a obra criadora de Deus atinge seu grandioso clímax. O Criador foi pródigo na concepção e na execução deste Seu último ato criador. (Se alguém tem dúvidas, bastaria lembrar do caminho que Deus percorreu para tornar possível restaurar o homem caído levando-o de novo à sua perfeição criada no início).
“Deus ... lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gênesis 2:7). Os cristãos não aceitam que a vida seja meramente o resultado do arranjo fortuito de átomos e moléculas, de elementos e substâncias químicas nas devidas proporções. Deus deveria ter fornecido algo a mais, necessário para a vida, após ter formado um corpo perfeito, mas inerte. Talvez tenha sido este evento o primeiro exemplo de ressuscitação boca-a-boca (embora Adão não tivesse sido ressuscitado, pois não havia vivido anteriormente).
O procedimento usado por Deus na criação de Eva é significativo. Deus não precisava ter usado uma costela de Adão para criá-la. Mediante esse ato simbólico, todavia, Ele estava dando ciência a Adão, e a todos os homens depois dele, que, se tratassem mal aquela que se juntaria a eles através do casamento, estariam afligindo os seus próprios corpos.
Gênesis 2:21 e 22 retrata pitorescamente como Deus anestesiou Adão, efetuou uma operação cirúrgica, retirou uma costela, e “cerrou” a incisão. Registra também a apresentação de Eva a Adão, naquilo que bem poderia ter constituído uma adequada cerimônia matrimonial. Deus criou Eva após Adão ter tido a oportunidade de observar aves e mamíferos e compreender a necessidade de companheirismo em seu próprio nível.
Tão logo Deus colocou Adão no jardim, deu-lhe também trabalho para fazer. O plano de Deus para a humanidade claramente não inclui o ócio. A utilização ativa das mãos e do cérebro em empreendimentos benéficos acarreta não só saúde física como também mental, e o desenvolvimento harmônico de todas as faculdades.

O sétimo dia

A criação agora estava terminada. Tudo que Deus havia planejado fazer Ele havia executado. Tudo era bom - digno das mãos do Regente do universo. Ele estava satisfeito. O que Ele agora vem a fazer não era necessário por causa de qualquer cansaço. Mas Deus sabia das necessidades da criatura que Ele havia trazido à existência, e então repousou no sétimo dia, abençoou-o, e o deu ao homem como o memorial da criação. “O sábado foi estabelecido por causa do homem” (Marcos 2:27). O homem não pode trabalhar continuamente, sem repouso ou diversão. Para a saúde física mental e espiritual, deve ele observar um período de repouso, periodicamente, fato esse bem compreendido no mundo de hoje.
É especialmente adequado “lembrar do dia de sábado” mediante o estudo e a apreciação das coisas que Deus fez. As lições tiradas do mundo natural são apropriadas às necessidades e à capacidade de entendimento de todas as pessoas, velhos e jovens, iletrados ou instruídos. As coisas da natureza são simples, e até a criança correndo nas campinas floridas, ou atravessando borbulhantes regatos, é capaz de apreciar o Seu criador. As coisas da natureza, entretanto, são também profundas, e o cientista inclinado sobre o seu microscópio ou olhando através do telescópio, jamais poderá compreender plenamente tudo o que está observando. Não obstante, ele também pode apreciar o seu Criador. Tanto para a criança quanto para o cientista, o dia de repouso provê a oportunidade para lembrar-se do Criador e adorá-lO como Aquele que fez o céu e a terra. Se homens e mulheres tivessem sempre lembrado de assim fazer, não é provável que tivesse surgido a teoria da evolução.

Artigo publicado na

Folha Criacionista 52

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Mensagem em Sex Jul 16, 2010 11:33 am por Eduardo


DIAS LITERAIS OU PERÍODOS DE TEMPO FIGURADOS?

Gerhard F. Hasel.


I. INTRODUÇÃONas últimas décadas o destaque crescente que tem sido dado ao criacionismo, à “ciência criacionista” (1), à “ciência das origens” (2), e à “ciência teísta” (3), tem criado um clima em que perguntas antigas têm surgido com enfoques específicos e nova sofisticação. Uma delas refere-se ao significado que se dá ao termo “dia” nos primeiros capítulos de Gênesis.


A natureza do relato da criação com os seus seis “dias” (Gênesis 1:5-31) seguidos do “sétimo dia” (Gênesis 2:2-3) é de interesse especial, porque costumeiramente esse período é entendido como significando o curto lapso de uma semana literal. Com base na moderna teoria da evolução natural, tem sido questionado esse curto intervalo de tempo apresentado no relato bíblico da criação. Há um contraste entre o curto período de tempo do relato da criação e as longas eras exigidas pela evolução natural.
Este artigo tentará desincumbir-se de várias tarefas interrelacionadas:
1. Prover algumas observações metodológicas, com um breve histórico da interpretação bíblica pertinente;
2. Citar opiniões representativas recentemente publicadas sugerindo que os “dias” da criação constituem longos períodos de tempo, ou épocas, e não dias literais de vinte e quatro horas;
3. Apresentar os dados encontrados em Gênesis 1 no seu relacionamento com outros dados do Velho Testamento; e
4. Aplicar na análise dos dados de Gênesis 1 a metodologia usual das pesquisas lingüísticas e semânticas, levando em conta o mais apurado conhecimento atual.

II. OBSERVAÇÕES METODOLÓGICAS E A HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO
O conhecimento de certos aspectos da história da interpretação dos “dias” da criação de Gênesis 1 pode ser de utilidade dentro da perspectiva da metodologia usada para a interpretação. A informação histórica ajuda o intérprete moderno a reconhecer que não é correto sugerir que sómente após a publicação de “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin, em 1859, é que os “dias” da criação tivessem passado a ser considerados como períodos de tempo não literais. Houve razões extra-bíblicas anteriores que levaram alguns intérpretes a se afastar do significado literal dos “dias” da criação.

1. Algumas interpretações medievais dos “dias” da criação
Orígenes de Alexandria, um dos Pais da Igreja (* c. 185 A.D., + c. 254 A.D.), defensor e praticante do método alegórico de interpretação (4), é considerado como o primeiro a entender os “dias” da criação no sentido alegórico, e não literal (5).
Agostinho (* 354 A.D., + 430 A.D.), o mais famoso dos Pais da Igreja latinos, acompanhou a Orígenes na argumentação de que os “dias” devem ser entendidos como alegóricos, e não literais (6). Entende-se que Agostinho ensinava que Deus criou o mundo num só instante imediato.
Convêm aqui algumas considerações metodológicas. Nem Agostinho nem Orígenes tinham em mente qualquer conceito evolucionista. Eles consideravam os “dias” da criação como não literais com base em algo distinto - era obrigação filosófica atribuir a Deus atividade criadora sem qualquer relação com o tempo humano. Como os “dias” da criação se relacionam com Deus, argumentava-se que esses “dias” tinham de ser representativos de noções filosóficas associadas a Deus, tomadas nas suas respectivas perspectivas.
Na filosofia grega Deus é intemporal. Como os “dias” da criação incorporam-se à atividade divina, supunha-se que eles também deviam ser entendidos num sentido não temporal. O pensamento de Orígenes e de Agostinho havia sido influenciado pela filosofia grega, e não por especulações científicas que pudessem levar a uma reinterpretação dos “dias” da criação.
Esta abordagem tem em comum com as tentativas modernas que também tomam os “dias” da criação como significando algo distinto do que a sua acepção literal indica, o fato de que ambas baseiam-se em influências externas ao próprio texto bíblico. Os teólogos medievais que tomaram os “dias” da criação como não literais basearam-se em modos de pensar da filosofia pagã, extra-bíblicos.
Existe hoje também outra influência extra-bíblica que induz os intérpretes a alterar o que parece ser o claro significado dos “dias” da criação. É uma hipótese científica baseada num ponto de vista naturalístico, a moderna teoria da evolução, que tem impulsionado essa alteração.
O pensamento dos teólogos católicos medievais foi influenciado pelo método alegórico alexandrino de interpretação. Nos tempos medievais (7) foi adotado, e ainda encontra apoio no catolicismo romano atual, o sentido quádruplo das Escrituras (8). Os três sentidos não literais dessa interpretação quádrupla das Escrituras (a saber, alegoria, anagogia, tropologia) destacaram-se e mantiveram importância fundamental por mais de um milênio na Cristandade, provendo a base hermenêutica para a reinterpretação do sentido literal dos “dias” da criação.

2. O entendimento dos “dias” da criação pela Reforma
Os Reformadores do décimo-sexto século concordaram em que o sentido quádruplo da interpretação das Escrituras comprometia o significado literal da Bíblia, tornando nula e vazia a sua autoridade quanto à fé e à vida. Insistiram os Reformadores que o único e verdadeiro sentido das Escrituras é o literal, o significado claro e direto do texto.
Uma das principais conquistas da Reforma Protestante foi o retorno às Escrituras. Isto significou que as Escrituras não necessitam de uma chave externa para a sua interpretação - seja ela o Papa, os concílios da igreja, a filosofia, ou qualquer outra autoridade humana. A clareza e a lucidez tornaram-se norma; a leitura a partir do seu próprio contexto tornou-se fundamental. Conceitos externos não lhe deviam ser sobrepostos, como se tornara prática no catolicismo medieval. A Bíblia tinha de ser lida no seu sentido literal e gramatical (9).
Martinho Lutero, consistentemente, defendeu a interpretação literal do relato da criação: “Afirmamos que Moisés falou no sentido literal, e não alegórica ou figurativamente, isto é, que o mundo, com todas as suas criaturas, foi criado em seis dias, como se lê no texto” (10). Também os outros Reformadores entendiam os “dias” da criação da mesma forma.
A interpretação literal e gramatical, conhecida na história da Hermenêutica como o método histórico-gramatical, foi a norma da interpretação bíblica mais ou menos até o século dezenove (11).

3. Mudanças sob a influência do Modernismo
À medida em que o conceito de longos períodos de tempo se infiltrava na explicação das origens da Terra, a partir das publicações de James Hutton (* 1726, + 1797) e Charles Lyell (* 1797, + 1875), alguns intérpretes cristãos, seguindo uma linha de conciliação, começaram a reinterpretar os “dias” da criação de forma não literal. O impulso nessa direção não se encontrava na própria Bíblia, mas numa nova visão de mundo que estava a desenvolver-se com base no conceito uniformista, e na resultante concepção das origens demandando longos intervalos de tempo.
O entendimento dos “dias” da criação como sendo “dias de restauração” (12), “dias de revelação” (13), além de considerar um “dia” como uma “época” (teoria do “dia-época”) ou como uma “época/era” (14) remonta a esse tempo, da mesma forma que as mudanças de cronologia exigidas pela nova Geologia. A abordagem de uma reinterpretação não literal dos “dias” foi típica dos que seguiam uma linha de conciliação, chamados de “concordistas”, que passaram a aceitar longos intervalos de tempo para a origem da Terra (15). Tendo em vista essas alterações, é inevitável concluir que as influências externas exercidas por uma nova compreensão das idades geológicas tornaram-se o catalisador para a reinterpretação dos “dias” da criação.

4. Alterações recentes na interpretação dos “Concordistas”
Na última década os “concordistas”, ou conciliadores liberais, têm tentado interpretar cada vez mais os “dias” da criação relatada em Gênesis de maneiras não literais, para fazer concordar as longas eras explicitadas pela teoria evolucionista com as implicações cronológicas do relato bíblico da criação.
É um fato reconhecido que a longa e controvertida história da relação entre ciência e religião ocasionou seu impacto no atual entendimento da Bíblia (16). Provavelmente o exemplo mais célebre disso tenha sido a mudança do ponto de vista geocêntrico para o heliocêntrico (17).
O sistema ptolomaico, não cristão, havia sido adotado pelos teólogos medievais tanto como sendo o ponto de vista cristão correto, quanto sendo bíblico, para a compreensão de nosso planeta. A Terra era concebida como o centro do sistema solar, e freqüentemente também do universo. Estabeleceu-se um enorme dilema quando o sistema heliocêntrico de Copérnico tornou-se proeminente e aparentemente irrefutável.
De um ponto de vista metodológico, o modelo interpretativo que os cientistas operam para a interpretação dos dados observados na natureza predeterminará em grande grau os resultados a serem obtidos, o mesmo acontecendo com o significado dos dados provenientes de fontes não naturais, dentre as quais se insere a Bíblia. É reconhecido, de maneira geral que as “teorias científicas afetam, sem dúvida, a interpretação bíblica pelo menos à medida em que elas abrem a oportunidade para a reavaliação da interpretação de algumas passagens (Gênesis 1-2; 6-8)” (18). A questão decisiva que surge então é se essa reavaliação vai configurar ou não uma imposição ao texto bíblico a ser feita pelos “concordistas” ou outros - imposição de um significado alheio ao que se encontra nas Escrituras dentro de seu próprio contexto.
Pelo menos duas principais opções parecem apresentar-se então:
1. A reavaliação com base nas conclusões “científicas” poderia levar a uma interpretação dos textos bíblicos que seja permissível dentro da estrutura conceitual do contexto e da intenção da totalidade das Escrituras. Nesse caso a reavaliação não colide com as normas internas de coesão e unidade das Escrituras.
2. A reavaliação de um texto bíblico poderia também levar a uma conclusão referente ao significado específico desse texto em discordância com aquilo que certa hipótese científica aceita atualmente. Para aqueles que aceitam a autoridade bíblica plena isso deveria levar ao reexame da conclusão resultante da interpretação dos dados provenientes da natureza obtidos pelos cientistas. Neste caso, isso por sua vez poderá atingir a própria teoria científica, ou até mesmo a ciência em seu todo, “pelo menos levando-nos a reavaliar se todas as conclusões tiradas de uma teoria científica são fidedignas, ou em alguns casos indagar se toda a teoria está sob suspeição” (19).

5. A autoridade inerente das Escrituras
Alguns têm aceito a idéia de que uma teoria científica, pela sua própria natureza, e pela abrangência de sua aceitação, tem prioridade com relação às Escrituras (20). Está muito além dos limites deste artigo desvendar a complexidade dessa questão. Bastará dizer que, se as Escrituras são entendidas como resultado da revelação divina, e escritas de maneira inspirada, elas deveriam ter uma dimensão de autoridade não encontrada no livro da natureza. Com base nessa dimensão de autoridade superior, as Escrituras podem auxiliar na interpretação do livro da natureza, provendo um modelo de interpretação mais abrangente do que poderia ser esperado de um modelo puramente naturalístico.
Se as Escrituras devem manter sua integridade própria, dificilmente poderão ser interpretadas de forma a se acomodarem, a todo o momento, a alterações que derivem da ciência, da sociologia, da história, etc. As Escrituras, baseadas em sua própria natureza e autoridade, incorporam sua própria integridade quanto ao seu sentido e seus reclamos de verdade inerente. Isto se torna cada vez mais claro a partir de um estudo cuidadoso da Bíblia com sólidos métodos de interpretação que se harmonizam e se fundamentam no testemunho das próprias Escrituras. Isto implica que a autoridade das Escrituras reside nelas mesmas, e baseia-se na revelação e na inspiração.
A auto-suficiência das Escrituras, de que falamos, não significa que qualquer questão levantada a partir de outras áreas de investigação, tais como a ciência, a história, a sociologia, etc. não possa ser discutida com referência às Escrituras. Existe, entretanto, uma enorme diferença entre perscrutar novas questões referentes às Escrituras e impor novos significados ao texto bíblico.

III. INTERPRETAÇÕES FIGURATIVAS DOS “DIAS” DA CRIAÇÃO

1. Argumentos representativos a favor de longas épocas
O propósito claramente expresso das tentativas atuais de interpretar os “dias” de Gênesis 1 em termos outros que não literais freqüentemente é exposto também de forma bastante clara. Algumas citações de respeitados estudiosos falarão por si mesmas.
O erudito britânico John C. L. Gibson argumenta que Gênesis 1 deve ser tomado como uma “metáfora” (21), “história”, ou “parábola” (22), e não como um registro direto dos acontecimentos da criação. Escreveu ele em seu comentário sobre Gênesis, de 1981:
“... Se entendermos “dia” como equivalente a “época” ou “era”, poderemos pôr a seqüência da criação, apresentada no capítulo 1, em conexão com os relatos da moderna teoria da evolução, e assim caminhar um pouco no sentido da recuperação da reputação da Bíblia em nossa era científica ... Tanto quanto este argumento inicie uma tentativa de ultrapassar o sentido literal, atribuindo à semana da criação o sentido de uma parábola, com uma duração muito mais extensa, isso será digno de elogios.” (23)
Em 1983 o comentarista alemão Hansjörg Bräumer afirmou:
“O “dia” da criação que é descrito como contendo “manhã e tarde” (sic) não é uma unidade de tempo que possa ser determinada com um relógio. É um dia divino no qual mil anos são como o dia de ontem (Salmo 90:4, margem). O dia primeiro da criação é um dia divino. Não pode ser um dia terrestre, pois ainda está faltando a medida do tempo, o Sol. Não ocasionará nenhum dano ao relato da criação, portanto, entendê-la dentro do ritmo de milhões de anos” (24).
D. Stuart Briscoe, criacionista “progressista” americano, aborda o assunto em seu comentário sobre Gênesis, da mesma forma:
“O naturalista fala convincentemente em termos de milhões de anos e eras evolutivas, enquanto o crente na Bíblia olha para os seis dias e fica perplexo, sem saber o que fazer ... Não é absolutamente irrazoável crer que “dia” (em Hebraico yôm), que pode ser traduzido literalmente como “período”, refira-se não a dias literais, mas a eras e épocas em que a obra criadora de Deus estava sendo realizada.” (25)
Explicações desse tipo podem ser multiplicadas e provêem de estudiosos que militam no campo dos “concordistas”. Mais precisamente, pertencem eles ao ramo dos “concordistas abrangentes”, que em tempos recentes associaram-se ao criacionismo “progressista” (26).

2. Análise e avaliação de Salmo 90:4 e de II Pedro 3:8
Comecemos considerando Salmo 90:4. Esta passagem tem sido invocada com freqüência para indicar que os “dias” da criação não são literais, mas representam períodos, épocas, ou idades na cronologia.
Reza o texto: “Pois mil anos, aos Teus olhos, são como o dia de ontem que se foi, e como a vigília da noite” (27). De interesse imediato é a comparação do longo período de tempo de mil anos com tão somente o dia de ontem e a vigília da noite. Esta passagem das Escrituras contém uma partícula comparativa no original hebraico, para fazer a comparação entre os mil anos e “ontem”, e a “vigília”. A partícula comparativa, em Português, foi traduzida por “como”.
Do ponto de vista da sintaxe hebraica essa partícula comparativa refere-se não somente à expressão “dia de ontem”, mas também à expressão “vigília da noite”. Ela aplica-se a ambas as frases. Isto demonstra que a comparação não é entre um “dia” ser igual a mil anos. Mil anos com Deus são como ontem, isto é, o dia que passou, ou como a “vigília da noite”, que é um período de tempo menor mesmo do que “ontem”. O ponto fundamental é que Deus computa o tempo de maneira distinta dos seres humanos.
Gênesis 1 não está interessado em mostrar como Deus calcula o tempo. O contexto da criação em Gênesis fala de “dias” no sentido do tempo da criação durante o qual Deus criou este mundo, e pelo qual estabeleceu Ele o ritmo do ciclo semanal de contagem do tempo.
Além do mais, em Gênesis 1 falta qualquer partícula comparativa semelhante a “como”, em conexão com o uso do termo “dia”. A falta de uma expressão hebraica comparativa, em Gênesis 1, seja relativa ao termo “dia”, seja relativa à expressão “tarde e manhã”, indica que não se pretende comparação alguma. Comparação não é o problema de Gênesis 1. O problema é a extensão de tempo que Deus usa para criar o mundo, e se esse período de tempo é ou não idêntico à semana de sete dias que estabeleceu o ritmo para o tempo histórico.
A partir de pontos de vista contextuais, bem como de semântica e de sintaxe gramatical, a aplicação de Salmo 90:4 a Gênesis 1 não tem cabimento. Critérios adequados de comparação, tanto lingüísticos como fraseológicos, inexistem no caso. As pessoas que ligam entre si os dois textos não apresentam sensibilidade a quaisquer critérios contextuais lingüísticos e fraseológicos. Fica a impressão de que as pessoas que comparam os “dias” de Gênesis 1 com o “ontem” e a “vigília”, ou os mil anos da escala de tempo divina, estão “comparando laranjas com bananas”.
Outro tipo de objeção tem sido levantado ao se considerarem os “dias” da criação como longos períodos de tempo: se tivéssemos de entender “o sexto dia como a sexta época da criação, isso abriria a porta à existência de algum tipo pre-adâmico de homo (sic) sapiens” (28). Em outras palavras, a substituição de “dia” literal por longas eras colide com a visão de Adão e Eva como os primeiros seres humanos que Deus criou sobre a Terra.
Uma terceira dificuldade relaciona-se com o fato de que o Salmo 90 não é um Salmo que versa sobre a criação. Contextualmente, o Salmo 90 não aborda o tópico referente a como Deus encara os “dias” da criação, mas sim como os seres humanos devem encarar o tempo quando posto em comparação com a eternidade de Deus. Em Português há uma palavra para essa comparação, “ontem”. E “ontem” no Salmo 90:4 está em paralelismo com a expressão “vigília da noite”, isto é, um intervalo de tempo bastante mais curto. Isso significa que os mil anos não estão sendo comparados simplesmente com um dia, mas com um intervalo de tempo mais curto.
Em resumo, Salmo 90:4 não define o significado do que é designado como “dia”em Gênesis 1. Em face dos problemas citados, e de outras dificuldades existentes (29), não se deve surpreender com o fato de que muitos que normalmente aceitam a “teoria do dia/época” como solução para a contraposição entre ciência e religião, evitam de fazer referência a Salmo 90:4. Esse texto, quando lido em seus devidos termos, nada tem a ver com a extensão dos “dias” da criação.

Segunda Epístola de S. Pedro 3:8
Os “concordistas abrangentes” também têm usado a segunda epístola de S. Pedro, capítulo 3, versículo 8 (“para com o Senhor, um dia é como mil anos ...”) para apoiar a teoria do dia/época. Isso tem sido considerado por alguns como uma espécie de equivalência matemática “bíblica”, igualando literalmente um dia a mil anos. Outros têm considerado os mil anos como significando um longo período, uma época, ou algo semelhante. Neste caso, argumenta-se que “um dia é igual a um longo período de tempo”, ou “um dia é igual a uma época”.
Convém assinalar que os que invocam este texto desta forma deparam-se com vários problemas importantes:
1) II S. Pedro 3:8 não apresenta nenhum contexto criacionista;
2) II S. Pedro 3:8 incorpora uma partícula comparativa que não consta no texto de Gênesis 1;
3) II S. Pedro 3:8 passa a ser interpretado não literalmente quando os mil anos são supostos como significando uma “época” ou algo semelhante;
4) II S. Pedro 3:8 revela que Deus não está limitado ao fator tempo, nem sujeito a ele no cumprimento de suas promessas.
A intenção dessa passagem é bem posta por Lloyd R. Bailey, ele mesmo um “concordista abrangente”:
“O texto de II S. Pedro 3:8 tem sido mal interpretado por aqueles que querem utilizá-lo para amparar o sentido da palavra “dia” em Gênesis 1. ... Entretanto, o propósito daquele texto é destacar que “O Senhor não retarda a sua promessa ... mas é longânimo ... não querendo que ninguém pereça ...” (versículo 9; cf. versículo 4). Isto é, Deus não está sujeito ao tempo no sentido em que os seres humanos estão (“... como alguns a julgam demorada”, versículo 9). A intenção, portanto, é de asseverar a fidelidade de Deus a suas promessas, e não de definir o significado da palavra “dia” como ela é usada em Gênesis 1.” (30)
Melhor seria deixarmos que II S. Pedro 3:8 cumpra o seu propósito original, e não dar-lhe uma interpretação sem qualquer conotação tópica, contextual e lingüística.

3. “Dias de Revelação”?
A teoria de que os “dias” da criação são de fato “dias de revelação” é hoje defendida somente por alguns poucos estudiosos do assunto.
Essa teoria foi proposta no décimo-nono século pelo geólogo escocês Hugh Miller (31). Hoje em dia foi ela reavivada por P. J. Wiseman, em sua publicação “Creation Revealed in Six Days”, reeditada em 1977 (32).
De acordo com essa interpretação, Deus não criou o mundo em seis dias, mas sim “revelou” e explicou ao homem em seis dias literais aquilo que Ele já teria feito no decorrer de numerosos intervalos de tempo. A frase recorrente “e disse Deus” é considerada como apoiando a teoria de que os “dias” da criação constituem realmente “dias de revelação”. Esta teoria não exige uma idade recente para a origem do mundo, nem a criação em seis dias literais de 24 horas.
Tem sido observado de maneira incisiva que a concepção dos “dias da teoria da revelação” resulta em grande parte de uma “compreensão errada da palavra fez em Êxodo 20:11” (33), para a qual Wiseman defende o significado de “mostrou” (34).
“Mostrou” não é um significado válido para o termo hebraico ‘asah. Nenhum dicionário da língua hebraica apoia esse significado para esta palavra. O termo hebraico ‘asah, usado mais de 2.600 vezes no Velho Testamento, significa “fazer, manufaturar, produzir”, etc., (35) e em nem uma só vez seu significado pode ser associado a “mostrar”, tanto no Velho Testamento quanto no Hebraico extra-bíblico (36). Este significado, “mostrar”, foi inventado exclusivamente em função da teoria em questão. Em vista desse fato, não é surpresa que os “dias da teoria da revelação” não tenham tido maior repercussão (37).
Em resumo, os “concordistas abrangentes” atuais parecem interpretar Gênesis 1 de alguma forma “figurativa, simbólica, ou em senso lato, como por exemplo com a idéia de que os “dias” de Gênesis 1 podem ser interpretados como longos períodos de tempo” (38). Seu propósito é tentar uma acomodação com as alegações da teoria da evolução quanto aos longos períodos de tempo. Com base nessa hipótese para a cronologia, as Escrituras são reinterpretadas na busca de uma harmonização entre o seu relato da criação e o quadro evolutivo naturalista. Os que procuram ajustar as Escrituras, nessa linha, são conhecidos como “concordistas abrangentes”.
Contrastando com essa posição estão os “concordistas estritos”, estudiosos de igual erudição e capacidade, que também procuram harmonizar a ciência com a religião, mas sem pretender atribuir ao texto bíblico uma “leitura vaga”. Concordam eles que o significado de um texto deva basear-se em critérios de linguagem internos, bem como no emprego de padrões lingüísticos comumente aceitos. Concordam também que o contexto das Escrituras é primordial e que as normas lingüísticas precisam seguir sólidas convenções sintático-gramaticais. Assim, os “concordistas estritos” estão perfeitamente cônscios das tensões existentes, mas resistem contra forçar um significado para o texto bíblico sem o apoio de sólida análise lingüística.

IV. O GÊNERO LITERÁRIO DE GÊNESIS 1

1.Gênero literário / Argumento formal
O recente comentário sobre o livro de Gênesis, de autoria do erudito evangélico Victor P. Hamilton, assume a posição de que os “dias” de Gênesis 1 devem ser considerados como não figurativos e não metafóricos, isto é, devem ser dias solares de 24 horas (39). Entretanto, como “concordista abrangente” que é, comprometido com longos períodos de tempo, continua ele interessado na busca da harmonia com a moderna ciência naturalista. Para conseguir esse objetivo, apela ele para uma “leitura literária de Gênesis 1 que ainda permita a permanência de dia como um dia solar de 24
horas” (40). Como pode isso acontecer?
Hamilton fala de uma “leitura literária” do relato da criação em Gênesis. Essa “leitura literária” permite-lhe entender os “dias” da criação literalmente, mas não “como um relato cronológico a respeito de quantas horas Deus despendeu em Seu projeto criativo, mas como uma analogia referente à atividade criadora de Deus” (41). Sob este ponto de vista, os “dias” de 24 horas em Gênesis 1 nada mais são do que uma “analogia” baseada em uma “leitura literária (não histórica)” do relato da criação apresentado em Gênesis.
Este ponto de vista sobre a “leitura literária” baseia-se em Charles E. Hummel (42). Hummel argumenta que mesmo que os “dias” em Gênesis 1 tivessem de ser considerados como dias solares de 24 horas, como ele acredita que sejam, “permanece ainda a questão sobre se a forma (literária) é figurativa ou literal, isto é, uma analogia da atividade criadora de Deus, ou um relato cronológico a respeito de quantas horas Ele trabalhou” (43). Hummel acredita que são importantes o “quem” e o “porquê” da criação, mas não o “como” (acompanhando Bernard Ramm), e que, portanto, a “analogia ... provê um modelo para o trabalho humano” (44).
A teoria da “analogia” consiste em entender o “dia” literal no contexto de “uma metáfora” que “utiliza o significado usual de uma palavra” (no caso a palavra “dia”) “de uma maneira figurativa” (45). A transferência analógica sugerida pela teoria da “analogia” suprime de um documento cronológico o esquema de seis dias de trabalho e um de repouso, passando a caracterizá-lo tão somente como uma ampla configuração relacionada com o trabalho e o repouso aplicável à humanidade (46).
Por mais atraente que essa teoria da “analogia” possa parecer, permanecerá sempre o problema da fidedignidade contextual e literária dentro do capítulo 1 de Gênesis e da Bíblia como um todo, para aceitar a designação do tempo expressa na palavra “dia” simplesmente como uma analogia para o conceito de trabalho/repouso. Hummel (acompanhado por Hamilton) foi forçado a redefinir o gênero literário de Gênesis 1, deixando de lado o relato direto da criação, e aceitando um gênero designado como “narrativa semi-poética” (47). Isso enquadra-se na abordagem histórico-cultural da criação.
Torna-se evidente que estes eruditos “concordistas” em parte são influenciados pela crítica formal e seu estilo metodológico de interpretação. A crítica formal, um sub-método do método histórico-crítico, iniciou-se com Hermann Gunkel, conhecido como o pai da crítica formal, na virada do século (49). Gunkel levantou a questão sobre se “as narrativas de Gênesis são história ou lenda” (50). Sua premissa era que “muitas coisas relatadas em Gênesis ... vão diretamente de encontro ao que temos de melhor em nosso conhecimento” (51). A idéia contida no “melhor em nosso conhecimento” constitui uma admissão tácita da parte de Gunkel de que a concepção do mundo evolucionista naturalística constitui a norma autorizada para julgar o que é história ou o que é lenda. Desta forma, sugeriu ele que o gênero literário de Gênesis não é história, e sim “lenda”. Gunkel foi o primeiro erudito liberal a atribuir ao relato da criação, constante de Gênesis, outro gênero literário que não história no sentido de um relato factual. Posteriormente acompanharam-no outros eruditos liberais e teólogos neo-ortodoxos, e também hoje, em parte, eruditos neo-evangélicos que são “concordistas abrangentes”.
Embora não precisemos tentar ser exaustivos na citação de categorias de estilos literários que têm sido propostos para classificar Gênesis, poderão ser citados alguns dos principais exemplos representativos. Karl Barth, o pai da teologia neo-ortodoxa, considera Gênesis 1 e 2 como “saga” (52), e conseqüentemente não histórico. S. M. Hooke, líder da escola do mito-e-ritual, afirma que o relato da criação de Gênesis é uma “liturgia cultual” (53). Gordon Wenham, erudito não-evangélico, acredita ser ele um “hino” (54). Walter Brueggemann, não-concordista liberal, sugere que é um “poema” (55). Claus Westermann, crítico formal, chama-o de “narrativa” (56). John H. Steck, “concordista abrangente”, chama-o de “narração metafórica” (57). Gerhard von Rad, crítico da tradição, designa-o como “doutrina” (58). Outros sustentam ser um “mito” (59), uma “parábola” (60), “história”, “teologia” (61), “alegoria”, etc.
Diversas observações essenciais devem ser feitas em vista dessa pletora de opiniões correntes sobre a natureza do gênero literário do relato da criação de Gênesis.
1) O consenso óbvio é que não há consenso sobre o gênero literário de Gênesis 1. Isso faz com que a abordagem do estilo literário para uma leitura não literária de Gênesis 1 seja considerada suspeita em suas alegações.
Como não há consenso, o intérprete cuidadoso deveria ser mais cauteloso, evitando engrossar o cortejo triunfal da identificação do gênero literário com o propósito de redefinir a intenção de Gênesis 1. A intenção da descrição do estilo pela crítica formal, desde o início, dos tempos de Gunkel até hoje, tem sido fazer com que o texto de Gênesis 1 não seja considerado como histórico e factual em sua natureza (62).
2) A abordagem do “gênero literário” revela ser este outro caminho, inicialmente usado pelos não-concordistas, para evitar que o relato da criação em Gênesis seja compreendido como um texto literal, com autoridade, com implicações quanto ao relacionamento entre a ciência e a Bíblia. É sugerido corretamente que “a maneira pela qual Deus revelou a história da criação deve ser ela mesma justificada pelas Escrituras” (63), e não apelando-se à descrição do gênero literário pela crítica formal, da qual tenha sido removida a historicidade.
3) Intérpretes que adotam a abordagem do “estilo literário” com o objetivo de retirar o relato da criação do âmbito de sua intenção literal sentem-se livres, não obstante, para interpretar os “dias” da criação de uma maneira literal e gramatical.
Usar a abordagem do “estilo literário” significa restringir o significado de Gênesis 1 a uma forma de pensamento que não exige uma leitura histórica, factual, daquilo que aconteceu. A redefinição do relato da criação realizada nessa abordagem pretende suprimir para o leitor moderno a informação sobre “como” e “de que maneira” e “quando” Deus criou o mundo. Ela simplesmente deseja afirmar de maneira minimalística que Deus é Criador. E esta afirmação é feita com significado teológico, e não científico, sem qualquer relação com a maneira pela qual a Terra e o Universo tenham vindo à existência e se desenvolvido subseqüentemente.
A abordagem do “estilo literário” baseia-se em uma metodologia da crítica literária (64) que pretende atribuir ao relato da criação, como um todo, uma função distinta daquela da historicidade ou da factualidade. Nesse caso, não importa se os “dias” da criação são considerados como dias literais de 24 horas, pois esses dias, bem como o relato em seu todo, teriam outro sentido que não o histórico ou factual.

2. Gênesis 1 : literal ou figurativo?
Permanece a questão sobre se o relato da criação em Gênesis 1 é literal ou figurativo em seu todo (65). Freqüentemente Gênesis 1 é considerado como parte de uma unidade maior, que abrange os capítulos de 1 a 11, para dar resposta às questões ligadas à sua natureza, propósito e função.
É um fato reconhecido que estes capítulos iniciais do livro de Gênesis apresentam singularidades, isto é, eventos acontecidos uma só vez, não mais repetidos, e que não encontram nada análogo na nossa experiência atual.
Como o historiador moderno encara tais singularidades? A posição padrão da historiografia moderna baseia-se no princípio da analogia (cf. Ernst Troeltsch), isto é, o princípio de que nada na experiência do passado pode ser reconhecido como histórico a não ser quando corresponda à experiência atual (66). Este princípio baseia-se, por sua vez, na noção da uniformidade básica da experiência humana e dos acontecimentos históricos (67). O princípio da analogia sustenta que o passado somente é compreendido através da contribuição do presente, com sua aplicação ao passado.
A aplicação consistente deste fundamento uniformista que se manifesta no princípio da analogia leva à negação da historicidade e da factualidade da maior parte dos capítulos 1 a 11 de Gênesis, aí incluído o relato da criação de
Gênesis 1.
Poderia e deveria o princípio uniformista da analogia reinar como a suprema norma para a compreensão do passado? (68) “Surge um problema quando o uniformismo é alçado à posição de um princípio universal que torna inadmissíveis certas evidências”, declara um forte adepto do princípio da analogia e da historiografia modernista (69). Esta admissão da existência do problema exige grande cautela na aplicação do princípio uniformista da analogia.
A humanidade conhece experiências da realidade atual que são singulares e não encontram paralelo no passado. Por exemplo, há vinte e cinco anos os primeiros seres humanos caminharam sobre a superfície da Lua. Isto nunca havia acontecido antes. Outro exemplo foi o uso de bombas atômicas para a destruição de duas cidades japonesas em 1945. Este tipo de destruição jamais havia acontecido anteriormente, e permanece até hoje como singular. Muitas outras singularidades poderiam ser mencionadas.
Da mesma forma que existem singularidades hoje, que são resultado da atuação humana ou de outra causa qualquer, e que constituem eventos e situações reais que não encontram analogia no passado, podem ser citadas também singularidades verificadas no passado que não encontram analogia no presente. Por exemplo, o famoso filósofo da história britânico R. G. Collingwood observou que os antigos Romanos envolveram-se num processo de controle de população mediante o infanticídio de recém-nascidos. Foi esta uma singularidade que não encontra analogia no presente, nas tentativas de controle de população (70).
Com estas limitações do princípio da analogia em mente (71), não é sensato rejeitar o relato da criação supondo-o como não histórico e não factual, simplesmente por não conhecermos qualquer analogia sua nos dias de hoje. Gênesis 1 contém singularidades que podem ser aceitas como tão reais, históricas e factuais como as singularidades de qualquer outra espécie no presente ou no passado.
Existem boas razões para sustentar que Gênesis 1 é um relato factual da origem do mundo habitável. Este registro bíblico é preciso, autêntico e histórico.

3. Gênesis 1 e a literatura antiga congênere
A partir da abordagem puramente comparativa das estruturas literárias, Gênesis 1 não difere do resto do livro de Gênesis (72) ou do Pentateuco, quanto à configuração lingüística, à sintaxe, aos fenômenos lingüísticos, à terminologia, à apresentação seqüencial dos eventos no relato da criação.
Comparado com os hinos da Bíblia, o relato da criação não é um hino; comparado com as parábolas da Bíblia, o relato da criação não é uma parábola; comparado com a poesia bíblica, o relato da criação não é um poema; comparado com a liturgia do culto, o relato da criação não é uma liturgia. Comparado com várias espécies de formas literárias, o relato da criação não é nem metáfora, nem história, nem parábola, nem poesia, nem coisa semelhante.
Um estudo recente da forma literária dos capítulos 1 a 11 de Gênesis, feito com base na literatura contemporânea do Oriente Próximo, concluiu que “estamos lidando com gêneros de narrativa em prosa, entremeados com algumas listagens, referências, provérbios e linhas poéticas” (73). Sem dúvida é esta uma descrição bastante boa do conteúdo de Gênesis 1.
Um estudo detalhado da forma literária de Gênesis 1 concluiu que estamos em face de um gênero de “genealogia em prosa” (74). O próprio Gunkel observou, há muito tempo, que Gênesis é “prosa”. Observou, também, que Gênesis é “mais artístico em sua composição, e tem algo de construção rítmica” (75). A natureza não poética de Gênesis 1 indica que a sua intenção é exprimir o seu sentido de maneira clara e simples, como um registro acurado e direto de eventos criativos.
Olhando-se para a informação transmitida pelo primeiro capítulo de Gênesis de forma comparativa com outras literaturas antigas do Oriente Próximo, deve-se concluir que “Gênesis 1 não encontra paralelo em coisa alguma do mundo antigo externa à Bíblia” (76). Gênesis 1 constitui o registro mais coerente e profundo produzido no mundo antigo sobre “como”, “quando”, “por quem”, e “de que modo” veio o mundo à existência. Em nenhum tipo de literatura do mundo antigo encontra ele qualquer paralelo. Existem fragmentos e pedaços de textos de vários mitos cosmogônicos e especulações com os quais o relato bíblico da criação tem sido comparado, resultando sempre sua singularidade, no mundo antigo, em termos de sua abrangência e consistência (77).

4. A forma literária de Gênesis 1 no seu contexto bíblico
Seria útil analisar a forma literária como algo distinto do “estilo literário” da crítica formal que já foi discutido anteriormente.
John H. Stek sugere que o “tipo literário (de Gênesis 1), tanto quanto se saiba hoje, não encontra paralelo estrito; ele é sui generis” (78). Já foi observado que a apresentação e o conteúdo de Gênesis 1 como um todo não tem paralelo no mundo antigo (79). Significa isso, portanto, que ele é sui generis no sentido de que ele não deveria ser compreeendido como literal em sua intenção? Como a própria criação certamente é singular, da mesma forma o relato da criação é necessariamente singular. Entretanto, dificilmente poderia ele ser considerado sui generis no sentido exclusivamente literário, que retiraria dele a comunicação no nível factual, histórico e preciso.
Com base no relacionamento com o restante de Gênesis (e com a Bíblia em seu todo), o relato da criação (Gênesis 1:1 a 2:3) pode ser adequadamente designado quanto à sua forma literária. O relato é um registro histórico em prosa, escrito em estilo rítmico, registrando factualmente e acuradamente “o que” aconteceu na criação “dos céus e da terra”, retratando o tempo “em que” ela ocorreu, descrevendo os processos do “como” ela foi feita, e identificando o Ser divino que (“quem”) a executou. O resultado da semana da criação foi um mundo “muito bom”, com o mais adequado ambiente para viverem os seres humanos então criados. Este registro histórico em prosa da criação relata corretamente os eventos criativos em seqüências específicas, dentro de “dias” literais cronológicos seqüenciais. Esses “dias” instauram o processo histórico subseqüente, da ordenação do tempo em ciclos semanais nos quais se inserem os seres humanos e a natureza sob o controle último de Deus. Nesse sentido, Gênesis 1 é a história inaugural (80) das origens, que modela o fluxo da história da humanidade e do mundo a partir da semana da criação.

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Mensagem em Sex Jul 16, 2010 11:34 am por Eduardo

V. INTERPRETAÇÃO LITERAL DOS “DIAS” DA CRIAÇÃO
Consideraremos o uso da palavra “dia” (em Hebraico yôm) de conformidade com as principais linhas da erudição atual. Existem eruditos liberais e não-liberais que chegaram à conclusão de que a palavra “dia” (em Hebraico yôm) em Gênesis 1 deve ser compreendida de maneira singular no sentido literal. Faremos uma revisão crítica de algumas de suas razões e adicionaremos outras.

1. Considerações extraídas de Comentários

O influente teólogo e exegeta liberal europeu, Gerhard von Rad, especialista em Velho Testamento, declara: “Os sete dias inquestionavelmente devem ser entendidos como dias reais, e como um lapso de tempo singular, não repetitível, em nosso mundo” (81). Gordon Wenham, erudito não-concordista britânico, especialista em Velho Testamento, conclui que: “Pouca dúvida pode existir de que aqui “dia” tem o seu sentido básico de um período de 24 horas” (82). James Barr, renomado Semitista, e especialista em Velho Testamento, opõe-se com veemência aos intérpretes figurativos, observando que os “dias” da criação foram seis dias literais completando um período de 144 horas (83). Há muito tempo o crítico formal Hermann Gunkel concluiu que: “Os “dias” são de fato dias e nada mais” (84). Este elenco de citações poderia continuar com a adição de numerosas outras vozes partilhando da mesma posição não-concordista.
Victor P. Hamilton conclui, da mesma forma que outros eruditos neo-evangélicos concordistas abrangentes, que: “Quem quer que tenha escrito Gênesis 1 acreditava estar falando de dias literais” (85). John H. Stek, outro concordista abrangente, traz numerosos fatores em defesa de sua posição a favor de “dias” literais”:
“Certamente não existe sinal algum, nem siquer insinuação, dentro da narrativa (de Gênesis 1) de que o autor pensava que seus “dias” deveriam corresponder a designações não regulares de tempo - primeiro uma série de períodos indefinidos, depois uma série de dias solares - ou que os dias por ele delimitados com “tarde e manhã” pudessem possivelmente ser entendidos como longos eons de tempo. Sua linguagem é simples e direta, usando palavras simples e diretas das mais comuns nas experiências de vida da humanidade ... Ao historiar os atos criativos de Deus, o autor foi “movido” a colocá-los em seqüência como se fossem atos humanos, e a “temporalizá-los” de acordo com a configuração do tempo criado na arena da experiência humana.” (86)
Numerosos estudiosos e comentaristas, independentemente de serem concordistas ou não, têm concluido que os “dias” da criação não podem ser nada mais do que dias literais de 24 horas. Estão eles perfeitamente cientes das interpretações figurativas, não literais, da palavra “dia” em Gênesis 1, com a intenção de harmonizá-las com as extensas eras exigidas pelo modelo evolucionista das origens. Apesar disso, insistem eles, com base em cuidadosas investigações feitas sobre o uso da palavra “dia” em Gênesis 1 e em outras passagens, que o verdadeiro significado e intenção do “dia” da criação é um dia de 24 horas.

2. Considerações feitas a partir da Lexicografia
A grande maioria dos léxicos e dicionários da língua hebraica amplamente aceitos, publicados no século vinte, traz a afirmação de que a designação “dia” em Gênesis 1 significa um dia de 24 horas, a saber, um dia solar.
Um prestigioso léxico recentemente publicado refere-se a Gênesis 1:5 como a primeira entrada escriturística para a definição de “dia de 24 horas” para o vocábulo hebraico yôm (“dia”) (87). O Léxico Hebraico-Inglês de Holladay segue o exemplo do “dia de 24 horas” (88). Brown-Driver-Briggs, léxico clássico Hebraico-Inglês, também define o “dia” da criação em Gênesis 1 como “um dia regular, definido por uma tarde e uma manhã” (89).
Lexicógrafos da língua hebraica colocam-se entre os mais qualificados eruditos hebraicos. Espera-se que eles tenham o maior cuidado em suas definições, e que também usualmente indiquem significados alternativos, se houver segurança para assim procederem em certas instâncias. Nenhum lexicógrafo afastou-se do significado da palavra “dia” como um dia literal de 24 horas em Gênesis 1.

3. Considerações feitas a partir de Dicionários
Magne Saeboe escreve no elogiado “Theological Dictionary of the Old Testament” que a palavra “dia” (yôm) em Gênesis 1 tem significado literal no sentido de “um dia completo” (90). Ele não entrevê qualquer outro significado ou alternativa.
Ernst Jenni, aplaudido erudito hebreu deste século, afirma no mais amplamente utilizado dicionário teológico da língua hebraica que o significado de “dia” no relato da criação deve ser entendido na acepção literal, como “dia de 24 horas, no sentido de uma unidade de tempo astronômica ou calendarial” (91).

4. Considerações baseadas na Semântica
O campo da semântica nos estudos lingüísticos refere-se àquilo que é chamado de significação (92). Isso cobre os problemas da “avaliação acurada do significado das expressões (palavras, frases, cláusulas, sentenças, etc.), que realmente têm sido usadas” (93).
A semântica chama atenção para a questão crucial do significado exato da palavra hebraica yôm. Poderia a designação “dia” em Gênesis 1 ter um significado figurativo nesse capítulo? Deve ela ser entendida, com base nas normas da semântica, como um “dia” literal? Essa questão de semântica é particularmente importante devido ao fato de que o vocábulo hebraico yôm, tanto no singular como no plural, apresenta uma grande variedade de significados, incluindo significados extensivos como “tempo”, “tempo de vida”, etc. É possível transpor para Gênesis 1 um significado extensivo qualquer encontrado no Velho Testamento? Não poderia isso resolver o problema do conflito entre o curto período de uma semana da criação e as longas eras necessárias para a evolução natural?
O termo hebraico yôm, na sua variedade de formas, pode significar, além de um “dia” literal, também um tempo ou período de tempo (Juízes 14:4), e em um sentido mais geral “o tempo de um mês” (Gênesis 29:14), o “tempo de dois anos” (II Samuel 13:23 e 14:28; Jeremias 28:3 e 11), o “tempo de três semanas” (Daniel 11:2 e 3). No plural pode significar “ano” (I Samuel 27:7), um “tempo de vida” (Gênesis 47:8), etc. Qualquer bom léxico poderá prover uma lista abrangente das várias possibilidades (94).
É importante ter em mente que “o conteúdo semântico das palavras pode ser visto mais claramente em suas várias combinações com outras palavras e seu campo semântico extensivo” (95).
Quais são as normas semântico-sintáticas para o sentido não literal, extensivo, do termo hebraico yôm? Os significados extensivos, não literais, do termo yôm são sempre encontrados em conexão com preposições (96), frases preposicionais com um verbo, construções compostas, fórmulas, expressões técnicas, combinações genitivas, frases construtivas, etc. (97). Em outras palavras, os significados extensivos, não literais, deste vocábulo hebraico apresentam conexões lingüísticas e contextuais especiais que indicam claramente a intenção de um sentido não literal. Se tais conexões lingüísticas especiais estiverem ausentes, o termo yôm não terá significado extensivo não literal; terá seu sentido normal de dia literal de 24 horas.
Em vista da riqueza de usos deste termo hebraico, impõe-se o estudo do uso de yôm em Gênesis 1 para a comparação com seus outros usos. Conteria este capítulo de Gênesis os indicadores necessários pelos quais yôm pudesse ser claramente reconhecido como tendo um sentido literal ou não? Como é este vocábulo usado em Gênesis 1? É ele usado juntamente com combinações de outras palavras, preposições, relações genitivas, estados construtivos, etc. como mencionado no parágrafo anterior, o que poderia indicar um sentido não literal? São exatamente essas espécies de combinações semântico-sintáticas que nos podem informar sobre a intenção do significado do termo.
Apresentemos os fatos a respeito do uso do termo yôm, “dia”, em Gênesis 1, como qualquer estudioso do Hebraico poderia fazer:
1) O termo yôm é sempre usado no singular.
2) O termo yôm está sempre justaposto a um numeral. Em Gênesis 1:5 tem-se um cardinal, e nos demais versículos, de Gênesis 1:1 a 2:3, sempre um ordinal. Isto será considerado mais abaixo.
3) O termo yôm nunca está combinado com uma preposição, combinação genitiva, estado construtivo, construção composta, ou algo semelhante. Ele sempre aparece como um simples substantivo.
4) O termo yôm é definido de forma consistente por uma frase temporal na sentença precedente - “e houve tarde e manhã”. Esta cláusula serve como função definidora para a palavra “dia”.
5) O relato complementar da criação, de Gênesis 2:4-25, contém um significado figurativo, não literal, do termo yôm, “dia”. Quando é pretendido um sentido não literal, são empregadas as convenções semântico-sintáticas observadas no restante do Velho Testamento para tal significado, e isto é exatamente o que acontece para o uso não literal em Gênesis 2:4.
Observemos como esses critérios aplicam-se a Gênesis 2:4. O substantivo yôm se justapõe à preposição be para formar beyôm. Ainda mais, ele é usado em uma relação construtiva com a forma infinitiva de ‘asah, “fazer”, lendo-se então literalmente “no dia do ... fazer”. Essa combinação do singular com uma preposição em uma construção com o infinitivo (98) faz dessa combinação uma “conjunção temporal” (99), que serve como uma “introdução geral do tempo” (100).
Gênesis 2:4, segunda parte, reza literalmente “em (o) dia do Senhor Deus fazer a terra e o céu”. A boa linguagem requer que a tradução literal “em (o) dia de”, que sintaticamente é uma conjunção temporal que serve para a introdução geral do tempo, seja substituida por “quando”. Esta sentença passa a rezar então: “Quando o Senhor Deus os criou ...”. Este claro exemplo de um uso extensivo não literal de yôm no relato da criação, em Gênesis 2:4-25, indica que o uso de yôm em Gênesis 1, sem qualquer qualificativo que possa marcar o seu uso não literal, em contraposição tem um sentido literal. O termo yôm em Gênesis 1 não se liga a qualquer preposição; não é usado em uma relação construtiva; e não tem nenhum indicador sintático que seria de esperar para um uso extensivo não literal. Assim, em Gênesis 1 yôm só pode significar um “dia” literal de 24 horas.
Em resumo, os usos semântico-sintáticos de yôm, “dia”, em Gênesis 1, quando comparados com os correspondentes usos e conexões lingüísticas do mesmo termo em outras passagens do Velho Testamento nas quais ele tem um sentido extensivo, não permitem que o seu significado seja o de um longo período de tempo, uma época, ou algo semelhante. A língua hebraica, sua gramática, sua sintaxe, suas estruturas lingüísticas, bem como o seu uso semântico, permite somente o significado literal para “dia” nos “dias” da criação de Gênesis 1.

5. Considerações baseadas no uso do singular
O termo hebraico yôm aparece no Velho Testamento em Hebraico 2304 vezes, das quais 1452 no singular (102).
Nos cinco livros de Moisés (o Pentateuco), este termo é usado 668 vezes, e no livro de Gênesis é empregado 152 vezes (103). Em Gênesis o uso do singular aparece 83 vezes.
Na enumeração dos seis “dias” da criação o termo “dia” é usado de forma consistente no singular. Há um uso do plural na frase “para dias e anos” no versículo 14, que evidentemente não se refere a um “dia” da criação. Esse uso do plural no versículo 14 dificilmente influi na discussão sobre os “dias” da criação serem longos períodos de tempo, pois o uso de “dias e anos” com relação ao calendário por si só estabelece o seu sentido literal. Não há qualquer dúvida quanto a ser literal o sentido de “dias”, com 24 horas, no versículo 14, da mesma forma que o sentido de “anos”.
Os usos adicionais de “dia”, no singular, em Gênesis 1 encontram-se nos versículos 5 e 16. “Chamou Deus à luz “Dia” (yôm)” (versículo 5) e Deus fez os luzeiros, “o maior para governar o dia” (versículo 16). O termo no versículo 5 é empregado no sentido literal de período diurno, parte clara do período de 24 horas, em contraste com o período noturno, a parte escura, a “noite” (versículo 16), do mesmo período de 24 horas (104). “Dia”, juntamente com “noite”, perfazem um “dia completo” (105).
Temos de reconhecer o fato de que o termo yôm em cada um dos seis dias apresenta as mesmas conexões:
a) Ele é usado no singular;
b) Ele se associa a um numeral; e
c) Ele é precedido pela frase “houve tarde e manhã”.
Esta tripla conexão entre o uso do singular e de um numeral, e a definição temporal de “tarde e manhã”, mantém a homogeneidade do “dia” da criação ao longo do relato todo da criação. Isto revela também que o “tempo é concebido como linear, os eventos ocorrendo dentro dele sucessivamente” (106). Afastar-se da ligação numérica consecutiva, e das fronteiras estabelecidas pela expressão “tarde e manhã” em linguagem tão direta, seria assumir extrema liberdade com o significado claro e direto da língua hebraica (107).

6. Considerações baseadas no uso dos numerais
Os seis “dias” da criação associam-se em todas as instâncias com um numeral, na seqüência de 1 a 6 (Gênesis 1:5, 8, 13, 19, 23, 31). O dia seguinte ao “sexto dia”, o “dia” em que Deus repousou, é designado como o “sétimo dia” [Gênesis 2:2 (duas vezes), e v.3].
O que parece ser significativo é a ênfase dada à seqüência dos numerais de 1 a 7, sem qualquer hiato ou interrupção temporal. Este esquema de sete dias, o esquema da semana de seis dias de trabalho seguidos por um “sétimo dia” como dia de repouso, interliga os “dias” da criação como dias normais em uma seqüência consecutiva e ininterrupta.
Quando a palavra yôm, “dia”, é empregada juntamente com um numeral, o que acontece 150 vezes no Velho Testamento, refere-se invariavelmente a um dia literal de 24 horas.
A única exceção, em números de 1 a 1000, encontra-se em um texto escatológico em Zacarias 14:7. A expressão hebraica yôm ‘echad empregada em Zacarias 14:7 tem sido traduzida de várias maneiras: “Mas será um dia singular” (Almeida revista e atualizada); “e haverá dia contínuo” (New Revised Standard Version); “será dia contínuo” (Revised English Bible); ou “o dia será um” (108). O “dia contínuo” ou o “um dia” do futuro escatológico será um dia no qual o ritmo normal de tarde e manhã, dia e noite, como conhecido hoje, será alterado de tal forma que naquele dia escatológico haverá “luz à tarde” (versículo 7). É geralmente aceito que este é um texto difícil da língua hebraica, mas que dificilmente pode ser usado para alterar o uso direto do vocábulo em Gênesis 1 (109).

7. Considerações baseadas no uso do artigo
O termo “dia” é usado em Hebraico sem o artigo, em cada passagem referente aos dias da criação, exceto nos casos do “sexto dia” (Gênesis 1:31, em Hebraico yôm hashshishî) e do “sétimo dia” (Gênesis 2:2) (110).
De tempos em tempos é destacada a observação de que o primeiro “dia” de Gênesis 1:5 em Hebraico é literalmente “um dia” (111), porque temos o numeral cardinal “um” usado com o termo “dia”.
A falta do artigo definido tem sido interpretada como significando que todos os “dias” da criação (exceto o sexto, que tem o artigo) permitem “a possibilidade tanto de ordem cronológica quanto de ordem literária ou aleatória” (112). Esta é, entretanto, uma interpretação muito duvidosa, que não pode ser apoiada mediante pontos de vista semântico-sintáticos.
Precisamos compreender a sintaxe do texto hebraico e interpretar o texto coerentemente, sem violar a estrutura interna da língua. A recente gramática para pesquisa elaborada por Bruce K. Waltke e M. O’Connor destaca que o substantivo indefinido yôm, com o numeral cardinal indefinido “um” (em Hebraico ‘echad) em Gênesis 1:5 tem “uma força enfática de contagem”, e um “sentido definido”, além de ter a força de um número ordinal que deve ser compreendido como “o primeiro dia” (113).
Com base nessa observação sintática a respeito da língua hebraica, “o primeiro dia” e “o sexto dia” da semana da criação devem ter significado definido, no sentido de terem recebido o artigo em função de regra sintática ou de ortografia (para não falar do “sétimo dia”, o qual será considerado em seguida). O primeiro e o último “dia” da criação são definidos pela sintaxe ou pela ortografia, o primeiro pela função sintática, e o último pelo uso do artigo. Cabe uma observação - esse uso definido do primeiro e do último dia da criação constitui um dispositivo literário, uma inclusão, que enquadra os seis “dias” da criação como dias definidos ou articulados. Uma das intenções desse uso parece ser levar à conclusão de que os “dias” de Gênesis 1 não permitem concluir que a ordem aleatória ou a ordem cronológica sejam assuntos encerrados (114).
Na realidade acontece o contrário. Como o primeiro e o sexto dia são definidos, estabelecendo fronteiras claras, isso significa que os dias têm sentido cronológico e seqüencial, formando um período ininterrupto de seis dias literais de 24 horas na criação. Assim, o uso definido do primeiro e do sexto dia, respectivamente, marca e enquadra a seqüência dos seis dias dentro de uma unidade de tempo coerente, seqüencial e cronológica, que será repetida em cada semana sucessiva.
“O sétimo dia” também recebe o artigo em Hebraico. Como “o primeiro dia” (versículo 5) é definido, da mesma forma que “o sexto dia” (versículo 31), forma-se uma unidade de tempo mais ampla. É a unidade de seis dias de trabalho seguidos pelo “sétimo dia” (Gênesis 2:2-3), o dia de repouso. Desta forma a seqüência de seis dias de trabalho encontra o seu fim e clímax cronologicamente e seqüencialmente no sétimo dia”, constituindo em seu conjunto o ciclo semanal, com o dia de repouso sendo o “sétimo dia” da semana.
A maior unidade de tempo literal, conseqüentemente, consiste da unidade divinamente planejada do esquema “seis mais um”, composto de “seis” dias de trabalho em seqüência ininterrupta, seguidos pelo “sétimo dia” de repouso. Esta seqüência ininterrupta é divinamente planejada e ordenada para marcar o ritmo do tempo para cada semana sucessiva.

8. Considerações baseadas na fronteira “tarde-manhã”
O relato da criação em Gênesis não somente liga cada dia a um numeral seqüencial, como também estabelece as fronteiras do tempo mediante “tarde e manhã” (versículos 5, 8, 13, 19, 23, 31). A frase rítmica “e houve tarde e manhã” provê uma definição para o “dia” da criação: o “dia” da criação define-se como consistindo de “tarde” e de “manhã”. É ele portanto um dia literal.
O termo para “tarde” (em Hebraico ‘ereb) (115) abrange a parte escura do dia, numa representação pars pro toto (significando que uma parte, neste caso a “tarde”, representa toda a parte escura do dia) (cf. “dia-noite” em Gênesis 1:14). O termo correspondente, “manhã” (em Hebraico bqer) representa, pars pro toto (significando que uma parte, neste caso a “manhã”, representa a parte clara do dia), todo o período de claridade do dia (116). Deve-se observar que a expressão “tarde-manhã” deve ser compreendida como tendo o mesmo significado em cada um dos seus seis usos no texto de
Gênesis 1 (117).
“Tarde e manhã” é uma expressão temporal que define cada “dia” da criação como um dia literal. Ela não pode significar nada mais.

9. Considerações baseadas em passagens sobre o sábado no Pentateuco
Outra espécie de evidência interna provida no Velho Testamento para o significado dos dias resulta de duas passagens sobre o sábado no Pentateuco, que se referem aos “dias” da criação. Elas informam ao leitor quanto a como os “dias” da criação foram compreendidos por Deus.
A primeira passagem faz parte do quarto mandamento expresso por Deus no Monte Sinai e registrado em Êxodo 20:9-11 - “Seis dias trabalharás ... mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus ... porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra ... e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou”.
Estas palavras são proferidas pelo próprio Jeová (versículo 1). As ligações com a criação transparecem do vocabulário (“sétimo dia”, “os céus e a terra”, “descansou”, “abençoou”, “santificou”) e no esquema “seis mais um” (ver também Deuteronômio 5:13-14), apenas para mencionar algumas (118). Evidentemente as palavras usadas nos Dez Mandamentos consideram o “dia” da criação como um “dia regular” (119) de 24 horas e demonstram que o ciclo semanal é uma ordenança temporal da criação.
Estas palavras do Senhor fornecem um balisamento interno no Pentateuco e no Velho Testamento sobre a questão de como Deus, o doador das “Dez Palavras”, compreende o “dia” na criação. A palavra divina que promulga o mandamento do sábado toma os “seis dias” da criação como seqüenciais, cronológicos e literais (120).
O argumento de que as palavras do quarto mandamento nada mais são do que uma “analogia” ou “arquétipo”, no sentido de que o repouso do ser humano no sétimo dia deveria ser semelhante ao repouso de Deus na criação (121) baseia-se num reducionismo e numa impermissível alteração de imagem literária. Terence Frotheim observou de forma incisiva que o mandamento não usa analogia nem pensamento arquetípico, mas que a sua ênfase “firma-se em termos da imitação de Deus ou em um precedente divino que deve ser seguido: Deus trabalhou durante seis dias e descansou no sétimo, e portanto nós temos que fazer o mesmo” (122).
A segunda passagem sobre o sábado no Pentateuco é Êxodo 31:15-17, que novamente são palavras do próprio Deus. Ela mantém várias ligações terminológicas com Gênesis 1, com cujo texto se relaciona conceitual e tematicamente. Esta passagem deve ser entendida como significando que o “dia” da criação foi um dia literal, e que a seqüência dos dias foi cronológica. O sábado semanal para o povo de Deus baseia-se na imitação do exemplo, pois “em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, e ao sétimo dia descansou e tomou alento” (versículo 17, versão Almeida revista e atualizada;
“... descansou e achou refrigério”, versão Brasileira).
Deus achou refrigério porque teve prazer em sua obra recém-completada. A humanidade também achará refrigério e terá prazer quando observar o sábado do sétimo dia (versículo 15).
A natureza do sábado como “sinal” no versículo 15 revela que o observador do sábado segue o exemplo divino. Deus mesmo guardou o “sétimo dia” que os seres humanos que Lhe pertencem deverão imitar. Eles assim procederão no mesmo ritmo do ciclo semanal de seis dias literais de trabalho seguidos cronológica e seqüencialmente pelo “sétimo dia” como dia de repouso e refrigério, como fez o seu Criador na semana da criação.

10. Considerações baseadas na seqüência de eventos
A criação da vegetação com plantas produzindo semente, e árvores frutíferas, ocorreu no terceiro dia (Gênesis 1:11-12). Grande parte dessa vegetação parece ter necessitado de insetos para a polinização. Os insetos, entretanto, foram criados no quinto dia (versículo 20). Se a sobrevivência desses tipos de plantas que necessitam de insetos para a polinização dependesse deles para a produção de sementes e a sua perpetuação, então haveria um sério problema se o “dia” da criação significasse “época” ou “eons”. Ainda mais, “a consistência da interpretação na “teoria do dia-época” exigiria um longo período de iluminação e outro de escuridão para cada uma das épocas supostas. Isto seria imediatamente fatal tanto para as plantas quanto para os animais” (123).
Parece que o “dia” da criação deve ser entendido como um dia literal e não como um longo período de tempo, sejam eras, épocas ou eons.
Embora esses argumentos possam não ser decisivos, entretanto eles apontam na mesma direção que os argumentos lingüísticos e semânticos decisivos encontrados no próprio texto hebraico.

VI. CONCLUSÕES
Este artigo investigou o significado dos “dias” da criação. Ele considerou argumentos-chave a favor de um significado figurativo, não literal, dos “dias” da criação, e achou-os carentes de base quanto à pesquisa do gênero literário, considerações literárias outras, estudo gramatical, usos sintáticos e conexões semânticas. As evidências cumulativas baseadas em considerações comparativas, literárias, lingüísticas e outras, convergem em todos os níveis, levando à conclusão única de que a designação yôm, “dia”, em Gênesis 1 significa consistentemente um dia literal de 24 horas.
O autor de Gênesis 1 não poderia ter usado meios mais abrangentes e todo-inclusivos para exprimir a idéia de um “dia” literal, do que aqueles que escolheu. Há uma completa falta de indicadores como preposições, expressões qualificativas, frases construtivas, conexões semântico-sintáticas, etc., com base nos quais a designação “dia” na semana da criação pudesse ser tomada como sendo algo diferente de um dia regular de 24 horas. As combinações de fatores como o uso de artigos, do número singular, das construções semântico-sintáticas, das fronteiras do tempo, etc., corroboradas pelas promulgações divinas como em Êxodo 20:8-11 e Êxodo 31:12-17, sugerem de maneira única e consistente que o “dia” da criação tem significado literal, seqüencial e cronológico.
NOTAS

1. A designação “ciência criacionista” foi definida por lei no Estado de Louisiana (Lei do Senado nº 86, 1981) da seguinte maneira: ““Ciência criacionista” significa o conjunto de evidências a favor da criação, e as inferências delas resultantes”. Um palavreado semelhante havia sido usado pouco antes no Estado de Arkansas (Lei 590 de 19 de março de 1981). Para detalhes, ver Norman L. Geisler, The Creator in the Courtroom (Milford, MI: Mott Media, 1982), 5, 224. Phillip E. Johnson [Darwin on Trial, 2ª edição (Doeners Grove, IL: Inter Varsity Press, 1993), 4 nº 1] afirma que “ciência criacionista” refere-se à criação especial de uma terra recente, em seis dias”.

2. Esta designação é preferível, e defendida por Norman L. Geisler e J. Kerby Anderson, Origin Science: A Proposal for the Creation-Evolution Controversy (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1987).

3. O significativo volume de ensaios editados por J. P. Moreland [The Creation Hypothesis: Scientific Evidence for an Intelligent Designer (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1994)] utiliza a designação “ciência teísta” em oposição a “ciência naturalista”, a acepção comum da ciência que exclui a hipótese da existência de Deus desde o início. A “ciência teísta” constitui um “programa de pesquisa ... que, entre outras coisas, baseia-se em duas proposições:
a. Deus, concebido como um agente pessoal transcendente, de grande poder e inteligência, criou e projetou o mundo, através de causação primária, direta, e causação indireta, secundária, tendo um propósito, e interveio no curso de seu desenvolvimento em várias ocasiões...
b. O compromisso expresso na proposição anterior pode ser introduzido de maneira adequada na própria tessitura da prática científica, e na utilização da metodologia científica” (pp.41-42). Esta definição foi elaborada no restante do ensaio inicial de J. P. Moreland no volume citado (“Theistic Science and Metodological Naturalism”, 41-66).

4. Frederic W. Farrar, History of Interpretation (1866; reedição, Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1961), 187-203.

5. A secção final da obra de Orígenes “Sobre os Primeiros Princípios”, Livro Quarto [excerto citado in Karlfried Froehlich, trad./ed., Biblical Interpretation in the Early Church (Philadelphia: Fortress Press, 1984), 63] observou que os dias da criação não podem ser compreendidos como literais, pois é “muita tolice crer que, como um agricultor humano, Deus plantou um jardim ao ocidente do Éden, e nele criou uma árvore da vida, real e visível...” Ver também Terence E. Fretheim, “Were the Days of Creation Twenty-Four Hours Long?” in The Genesis Debate: Persistent Questions About Creation and the Flood, ed. Ronald R. Youngblood (Nashville, TN: Thomas Nelson, 1986), 12-35.

6. Agostinho, A Cidade de Deus, XI, iv, vi-vii.

7. O sentido quádruplo das Escrituras consiste do seguinte: 1) sentido literal; 2) sentido alegórico (espiritual-místico); 3) sentido anagógico (futuro), e 4) sentido tropológico (moral). Ver Farrar, 205.

8. O New Catechism of the Catholic Church, publicado em Inglês em 1994, afirma: “De acordo com uma tradição antiga, pode-se distinguir entre dois sentidos das Escrituras: o literal e o espiritual, o último sendo subdividido nos sentidos alegórico, moral (tropológico), e anagógico. A concordância profunda dos quatro sentidos garante toda a sua riqueza para a leitura viva das Escrituras na Igreja”. Em seguida, na mesma página, é afirmado que: “É tarefa dos exegetas operar, de acordo com estas regras, melhor entendimento e explicação do significado das Escrituras Sagradas...” [Catechism of the Catholic Church (Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1994), 33].

9. Ver: a) Robert M. Grant, A Short History of the Interpretation of the Bible (New York: Macmillan, 1963), 128-129; b) Emil G. Kraeling, The Old Testament since the Reformation (New York: Schocken Books, 1969), 9-32; c) John Rogerson, Christopher Rowland, e Barnabas Lindars, The Study and Use of the Bible, vol. 2 de The History of Christian Theology (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1988), 77-95.

10. Martinho Lutero (em Inglês), Lectures on Genesis: Chapters 1-5, Luther’s Works (St. Louis, MO: Concordia Publishing House, 1958), 1:5. Lutero, ao comentar a frase “tarde e manhã” afirma que o dia da criação “consiste de 24 horas” (1:42).

11. O desenvolvimento do método histórico-crítico a partir do século dezessete até atingir a sua plena maturidade no fim do século dezenove, não alterou de forma decisiva a interpretação dos “dias” da criação. A razão para isso foi que o texto bíblico passou a ser visto como um artefato do passado sem qualquer relação direta com o sistema de crenças do presente.

12. O teólogo escocês Thomas Chalmers (1780-1847) é tido como o primeiro proponente do ponto de vista de que os seis “dias” da criação são na realidade “dias de reconstrução”, dando origem à “hipótese da ruína-reconstrução” [ver W. Hanna, ed., Select Works of Thomas Chalmers (Edinburgh: T. Constable and Co., 1855), 5:146-150]. Esta hipótese encontrou fortes defensores tais como George H. Pember [Earth’s Earliest Ages, 2ª ed. (Londres: Hodder and Stoughton, 1907)] e mais recentemente A. C. Custance, Without Form and Void (Brookville, Ont: Pelo Autor, 1970). A crítica mais detalhada e erudita da “hipótese da ruína-reconstrução” foi produzida por Weston W. Fields, Unformed and Unfilled: The Gap Theory (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1978). Ver também Henri Blocher, In the Beginning: The Opening Chapters of Genesis (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1984), 41-43.

13. Embora não tenha sido o primeiro a alegar que os dias da criação são realmente seis dias de revelação, o geólogo escocês Hugh Miller (1802-1856) foi o mais proeminente autor do século dezenove a proclamar essa idéia [Francis Haber, The Age of the World: Moses to Darwin (Baltimore, MD: The Johns Hopkins University Press, 1959), 236-237]. No século vinte esse ponto de vista foi proposto por P. J. Wiseman, pai do famoso assiriologista Donald Wiseman. Mais além será apresentado mais a esse respeito.

14. A teoria do “dia-época” originou-se no século dezoito e atingiu preeminência no século dezenove com os escritos dos geólogos James D. Dana e J. W. Dawson. Ver Bernard Ramm, The Christian View of Science and Scripture, 2ª ed. (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1971), 211; e Haber, 122-123, 199-200, 255.

15. Para uma revisão crítica dessas idéias, ver Thomas A. McIver, “Creationism: Intellectual Origins, Cultural Context and Theoretical Diversity” (dissertaçao de doutorado, Universidade da Califórnia, Los Angeles, 1989), 450-495.

16. Dentre os muitos estudos que se dedicaram a esse assunto, ver Charles Coulston Gillispie, Genesis and Geology: A Study in the Relations of Scientific Thought, Natural Theology and Social Opinion in Great Britain, 1790-1850 (New York: Harper Torchbooks, 1959); R. Hooykaas, Religion and the Rise of Modern Science (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1972).

17. Algumas publicações recentes ilustrativas desta mudança incluem Richard J. Blackwell, Galileo, Bellarmine, and the Bible (Notre Dame, IN: University of Notre Dame Press, 1991); Charles E. Hummel, The Galileo Connection: Resolving Conflicts between Science and the Bible (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1986); William John Hausmann, Science and the Bible in Lutheran Theology (Washington, DC: University Press of America, 1978).

18. Vern S. Poythress, Science and Hermeneutics: Implications of Scientific Method for Biblical Interpretation (Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House, 1988), 24.

19. Ibidem.

20. Na análise final, a conclusão última a respeito da norma final quanto aos pontos de vista científicos e a fé religiosa provavelmente é tirada com base na convicção, ou pressuposição, da postura do intérprete com relação aos níveis de autoridade da ciência e da fé. Devemos também argumentar que a ciência está constantemente em transformação, e que ela não faz nenhuma alegação absoluta.

21. John C. L. Gibson, Genesis, The Daily Study Bible, vol. 1 (Edinburgh: The Saint Andrews Press, 1981), 56.


22. Ibidem, 55.

23. Ibidem.

24. Hansjörg Bräumer, Das erst Buch Mose. Wuppertaler Studienbibel, Kapitel 1-11 (Wuppertal: R. Brockhaus Verlag, 1983), 44.

25. D. Stuart Briscoe, Genesis, The Communicator’s Commentary (Waco, TX: Word Books, 1987), 37.

26. Observe a discussão bastante útil a respeito dos vários grupos e definições de concordismo feita por John T. Baldwin, em “Inspiration, the Natural Sciences, and a Window of Opportunity”, Journal of the Adventist Theological Society 5/1 (1994), 131-154, esp. 139-43; por Davis A. Young, em “The Discovery of Terrestrial History”, Portraits of Creation: Biblical and Scientific Perspectives on the World’s Formation, eds. Howard J. Van Till, Robert E. Snow, John H. Stek, e Davis A. Young (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1990), 27 nº 2; por Clark Pinnock, em “Climbing out of a Swamp: The Evangelical Struggle to Understand the Creation Texts”, Interpretation 43/2 (1989): 143-155.

27. Por exemplo, Derek Kidner, Genesis: An Introduction and a Commentary, Tyndale Old Testament Commentaries (Chicago: InterVarsity Press, 1967), 56.

28. Victor P. Hamilton, The Book of Genesis: Chapters 1-17, The New International Commmentary of the Old Testament (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1990), 54.

29. Para a crítica de outros aspectos da “teoria do dia/época”, ver Lloyd R. Bayley, Genesis, Creation, and Creationism (New York/Malwah, NJ: Paulist Press, 1993), 125-128.

30. Ibidem, 126.

31. Ver referência nº 13 acima; cf. Carl F. H. Henry, God Who Stands and Stays, vol. 6 of God, Revelation and Authority (Waco, TX: Word Books, 1983), 2:112.

32. Reimpresso em P. J. Wiseman, Clues to Creation in Genesis, ed. DOnald J. Wiseman (London: Marshall, Morgan & Scott, 1977), 109-207.

33. Kidner, 54.

34. Wiseman, 132-133.

35. William L. Holladay, Jr., A Concise Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1971), 284-285; Francis Brown, S. R. Driver, and Charles A. Briggs, A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (Oxford: Clarendon Press, 1974), 793-795; etc. Ver também Helmer Ringgren, “‘asah,” in Theologisches Wörterbuch des alten Testaments, eds. G. Johannes Botterweck and Helmer Ringgren (Stuttgart: W. Kohlhammer, 1987), 6:413-432.

36. Marcus Jastrow, Dictionary of the Targumim, the Talmud Babli and Yerushalmi, and the Midrashic Literature (New York: Pardes Publishing House, 1943), 2:1124-1125).

37. Uma exceção recente é Duane Garrett, Rethinking Genesis: the Sources and Authorship of the First Book of the Pentateuch (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1991), 192-194, que reconhece que a apresentação de Wiseman “foi, entretanto, algo confusa, e não convenceu a muitos” (193 nº 12). Garrett parece apoiar a idéia de “dias” como “sete dias de revelação divina a Moisés”, com argumentos da crítica formal, tentativa bastante problemática em si mesma.

38. Davis, 27 nº 2.

39. Hamilton, 54-55.

40. Ibidem, 55.

41. Ibidem, 55-56.

42. Hamilton, 56 nº 1, refers to C. E. Hummel, “Interpreting Genesis 1”, “Journal of the American Scientific Affiliation 38, (1986): 175-186.

43. Hummel, The Galileo Connection, 214 (itálicos inseridos)

44. Ibidem, 215.

45. Ibidem.

46. Ibidem, 213-216.

47. Ibidem, 214.

48. Ibidem, 213.

49. Ver as traduções recentes do principal estudo de Gunkel: Hermann Gunkel, The Folktale in the Old Testament, trad. Michael D. Rutter (Sheffield: Almond Press, 1987). Excelentes análises e críticas sobre a crítica formal são fornecidas por Patricia G. Kirkpatrick, The Old Testament and Folklore Study (Sheffield: JSOT Press, 1987) e especialmente por Garrett, 35-50.

50. Hermann Gunkel, The Legends of Genesis: The Biblical Saga and History (New York: Schocken Books, 1964), 1.

51. Ibidem, 7.

52. Ver a penetrante discussão de Jerome Hamer, Karl Barth (Westminster, MD: Newman Press, 1962), 119-122.

53. S. H. Hooke, Middle Eastern Mythology (Baltimore, MD: Penguin Books, 1963), 119-121.

54. Gordon J. Wenham, Genesis 1-15, Word Biblical Commentary, vol. 1: Genesis (Waco, TX: Word Books, 1987), 10.

55. Walter Brueggemann, Genesis: A Bible Commentary for Teaching and Preaching (Atlanta, GA: John Knox Press, 1982), 26.

56. Claus Westermann, Genesis 1-11: A Commentary (London: SPCK Press, 1984), 80.

57. John H. Stek, “What Says Scripture?” Portraits of Creation, 236.

58. Gerhard von Rad, Genesis: A Commentary (Philadelphia: Westminster Press, 1972), 65.
59. Atualmente Conrad Hyers, The Meaning of Creation: Genesis and Modern Science (Atlanta: John Knox Press, 1984), 93-114; Susan Niditch, Chaos to Cosmos: Studies in Biblical Patterns of Creation (Chico, CA: Scholars Press, 1985); e muitos outros. Os eruditos encontram uma dificuldade muito maior para definir o que se entende por “mito”. G. B. Caird [The Language and Imagery of the Bible (Philadelphia: Westminster Press, 1980), 219-224] identificou nove diferentes definições de “mito”, e John W. Rogerson [Myth in Old Testament Interpretation (Berlin: W. de Gruyter, 1974), 274-278] destacou doze aspectos do mito. Os capítulos 1 a 11 de Gênesis não são enquadrados no conceito de mito [ver Benedikt Otzen, Hans Gottlieb, e Knud Jeppesen, Myths in the Old Testament (Londres: SCM Press, 1980)].

60. Gibson, 55; Donald D. Evans, The Logic of Self-Involvement (London: SCM Press, 1963), 242-252.

61. J. A. Thompson, “Genesis 1-3. Science? History? Theology”. Theological Review 3(1966): 25.

62. A abordagem estilo/forma tão amplamente utilizada hoje, especialmente por eruditos da crítica, mas também aplicada por outras razões por alguns evangélicos ao capítulo 1 de Gênesis, formalmente é idêntica ou intimamente associada ao programa de desmitologização de Rudolph Bultmann. Em seu programa, ele desmitologiza o Novo Testamento onde quer que ele se afaste do ponto de vista do homem moderno. Assim, a narrativa da ressurreição é desmitologizada de forma a que a ressurreição jamais tivesse ocorrido no sentido literal. Os evangélicos devem estar alertados para o fato de que não podem desmitologizar Gênesis 1 sem fazer o mesmo, de forma extensiva, com o Novo Testamento.

63. Noel Weeks, “The Hermeneutical Problem of Genesis 1-11”, Themelios 4/1 (1978):14.

64. Ver Norman C. Habel, Literary Criticism of the Old Testament (Philadelphia: Fortress Press, 1971), 69-70.

65. Não vamos tratar da questão da interpretação estrutural de Gênesis 1 pelo método do estruturalismo que procura expor as supostas estruturas profundas do texto. O método subseqüente do desconstrutivismo na lingüística “é uma tentativa de abalar as expectativas do leitor de que um texto comunicará alguma verdade existente independentemente, mostrando que tanto o autor como o leitor são envolvidos pelo sistema de restrições imposto pelo sistema lingüístico e literário ao qual pertencem, e são capazes de comunicar ou receber somente os significados que o sistema torna possíveis”. [John Barton, “Structuralism”, Anchor Bible Dictionary, ed. David N. Freedman NY: Doubleday, 1992), 6:216; cf. Jonathan D. Culler, The Pursuit of Signs: Semiotics, Literature, Deconstruction (Ithaca: Cornell University Press, 1981)]. Da mesma forma que o desconstrucionismo nega a qualquer texto um significado fixo e estável, também na “crítica da resposta-leitor” a idéia do significado fixo de um texto é deixada de lado [Ver J. Severino Croatto, Biblical Hermeneutics: Towards a Theory of Reading as the Production of Meaning (Maryknoll, NY: Orbis Books, 1987); Edgar V. McNight, The Postmodern Use of the Bible: The Emergence of Reader-Oriented Criticism (Nashville, TN: Abingdon Press, 1988)].

66. Um acontecimento registrado em uma fonte histórica deve ter paralelos na experiência moderna) rejeitará todas as reconstruções do êxodo do Egito, ou da ressurreição de Jesus, que careçam de explicação dentro da relação de causa e efeito compreendida pela ciência moderna”.

67. Van A. Harvey, The Historian and the Beliver (New York: Macmillan, 1966), 43-64.

68. Edward H. Carr, What Is History? (Harmondsworth: Penguin Books, 1964), 87-108.

69. Edward Krentz, The Historical-Critical Method (Philadelphia Fortress Press, 1975), 57.

70. R. G. Collingwood, The Idea of History (London: Oxford University Press, 1956), 240.

71. Para uma crítica do princípio da analogia, ver T. Peters, “The Use of Analogy in Historical Method”, Catholic Biblical Quarterly, 35 (1973): 473-482; Wolfhart Pannenberg, Questions in Theology (Philadelp0hia: Westminster Press, 1970), 1:39-53.

72. Ver o estudo clássico de William Henry Green, The Unit of the Book Of Genesis (1895; reprint, Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1979).

73. Walter C. Kaiser, “The Literary Form of Genesis 1-11”, New Perspectives on the Old Testament, ed. J. Barton Payne (Waco, TX: Word Books, 1970), 61.

74. Jacques B. Douklan, The Genesis Creation Story: Its Literary Structure, Andrews University Seminary Doctoral Dissertation Series (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 1978), 5:182.

75. Gunkel, Legends, 38.

76. Garrett, 192.

77. Gerhard F. Hasel, “The Polemical Nature of the Genesis Cosmology”, Evangelical Quarterly, 46(1974), 81-102, destacou a existência de numerosas ênfases polêmicas, explícitas e implícitas, em Gênesis 1. Este fato não diminui em nada o propósito do autor bíblico em escrever um relato que tenha intento literário para prover informação factual e histórica.

78. Stek, 241.

79. Hummel, The Galileo Connection, 216: “Gênesis 1 está em franco contraste com as descrições da criação feitas pelos vizinhos pagãos de Israel, cíclicas e recorrentes.

80. Ela não é nem “meta-história”, removida da história real, nem “história-salvação” que nunca ocorreu da forma em que se encontra escrita no Velho Testamento. Cf. Robert Gnuse, Heilsgeschichte as a Model for Biblical Theology (Lanham, MD: University Press of America, 1989).

81. von Rad, 65.

82. Wenham, 19.

83. James Barr, Fundamentalism (Philadelphia: Westminster Press, 1978), 40-43.

84. Hermann Gunkel, Genesis übersetzt und erklärt (Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1901), 97.

85. Hamilton, 53.

86. Stek, 237-238.

87. Benedickt Hartmann, Philippe Reymond, and Johann Jakob Stamm, Hebräisches und Aramäisches Wörterbuch der Hebräischen Sprache (Leiden: E. J. Brill, 1990), 382, daqui para diante designado pela sigla HAL. O seu predecessor, Ludwig Koehler and Walter Baumgartner, Lexikon in Veteris Testamenti Libros (Leiden: E. J. Brill, 1958), 372, reza “dia (de 24 horas)” para o dia da criação.

88. William H. Holladay, A Concise Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1971), 130.

89. Brown, Driver and Briggs, 398.

90. Magne Saeboe, “yôm”, in Theological Dictionary of the Old Testament, eds. G. Johannes Botterweck and Helmer Ringgren (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1990), 6:23.

91. Ernst Jenni, “jom Tag”, Theologisches Handwörterbuch zum Alten Testament, eds. Ernst Jenni and Claus Westermann (Zurich/Munich: Theologischer Verlag, 1971) 1:709.

92. James Barr, The Semantics of Biblical Language, 3rd ed. (London: SCM Press, 1991), 1.

93. Ibidem

94. HAL, 382-384; Brown, Driver and Briggs, 398-401.

95. Saeboe, 14.

96. Ibidem, 15 : “... no Hebraico do Velho Testamento , 1057 (45,9%) envolve uma preposição (especialmente com o singular)”.

97. Ibidem, 14-20.

98. E. Kautzsch and A. E. Cowley, eds., Gesenius’ Hebrew Grammar, 2º ed. (Oxford: Clarendon Press, 1910), 347 #114e: “Este uso da construção infinitiva é especialmente freqüente em conexão com be ou ke para exprimir determinações temporais (em Inglês resumido a uma cláusula temporal...)...”

99. Westermann, 198.

100. Saeboe, 15.

101. Ibid., 13; Jenni, 708.

102. Jenni, 707, notes that there are only four nouns used more often in the Old Testament.

103. Ibid., 708.

104. Stek, 237, está certo em observar que cada “dia” da criação tem de ser o mesmo, pois a expressão temporal “tarde e manhã” e o numeral respectivo são idênticos em todos os casos. Em outras palavras, cada “dia” da criação tem igual duração. A partir disto, mostra ele que não é defensável argumentar que os primeiros três “dias” foram longos períodos de tempo, enquanto que os restantes “dias” foram de 24 horas. Esta última posição foi discutida por Edward J. Young, Studies in Genesis One (Philadelphia: Presbyterian and Reformed Publishing House, 1964), 104, e encontrou um recente defensor em R. Clyde McCone, “Were the Days of Creation Twenty-four Hours Long?” The Genesis Debate, 24. Young e adeptos inclinam-se a separar a duração dos dias da criação alegando que o sol e a lua não tinham sido criados ainda até o quarto dia. A questão realmente é quanto a ser realmente este o caso. Parece provável que no quarto dia Deus designou o sol e a lua para governar respectivamente o dia e a noite. Esta designação das funções não se contrapõe à existência anterior do sol e da lua. É possível que eles não estivessem visíveis à vista humana antes do quarto dia. Por esta razão muitos sugerem que poderia ter existido uma cobertura de núvens ou de vapor anterormente ao quarto dia.


105. Saeboe, 22-23.

106. Bruce K. Waltke, “yôm, day, time, year”, Theological Wordbook of the Old Testament, ed. R. Laird Harris (Chicago: Moody Press, 1980), 371.

107. Hamilton, 54.

108. Ralph L. Smith, Micah-Malachi, Word Biblical Commentary (Waco, TX: Word Books, 1984), 277.

109. A outra exceção é com números acima de 1000 no texto apocalíptico de Daniel 12:11-12 com referência aos 1290 “dias” e aos 1335 “dias”. Existem algumas diferenças com relação a Gênesis 1. Nas duas passagens de Daniel 12 a forma plural de “dias” é empregada em contraste com Gênesis 1. Em Gênesis 1 o “dia” refere-se ao que aconteceu no passado; em Daniel 12 “dias” referem-se a um tempo profético no futuro. O contexto de todas as outras predições proféticas no livro de Daniel torna claro que na perspectiva profética cada elemento de tempo, sejam “tempos” (4:16, 23, 25, 32), “tempo, tempos e metade de um tempo” (7:25), “tardes e manhãs” (8:14), “semanas” (9:24), e “dias” (12:11-12), representa uma outra realidade no tempo histórico real. Em outras palavras, em Daniel o princípio do dia/ano está presente todas as vezes que se apresenta uma profecia temporal. O contexto apocalíptico de Daniel é diferente do contexto da criação de Gênesis 1. O tempo no início, na criação, não é idêntico ao tempo preditivo que encontra o seu cumprimento no futuro histórico. Em Gênesis 1 nada há de preditivo. Este texto é um registro em prosa do passado, e não profecia apocalíptica do futuro. Essas perspectivas de conteúdo e de contexto não garantem o afastamento do significado direto no relato da criação em Gênesis.

110. Em Gênesis 1:31 o Hebraico tem um artigo tanto antes de yôm quanto do numeral. Em Gênesis 2:3 o artigo está somente antes do numeral que segue o substantivo yôm. De acordo com a sintaxe hebraica, o artigo no último caso torna articular a palavra que o numeral qualifica.

111. Ronald F. Youngblood, The Book of Genesis, 2ª ed. (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1991), 26. Westermann, 76, de fato traduz “um dia”.

112. Youngblood, Genesis, 26.

113. Bruce. K. Waltke and M. O’Connor, An Introduction to Biblical Hebrew Syntax (Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1990), 274. A tradução “dia um” não está sintaticamente correta, mesmo que seja usado aqui o cardinal. Em cláusulas do tipo de Gênesis 1:5 o cardinal serve efetivamente como um número ordinal (Nahum M. Sarna, Genesis, The JPS Torah Commentary [Philadelphia: Jewish Publication Society, 1989], 8, 353).

114. Youngblood, Genesis, 26.

115. Ver Herbert Niehr, “‘ereb”, Theologisches Wörterbuch zum Alten Testament, 6:359-366.

116. M. Barth, “boqer”, Theological Dictionary of the Old Testament, 2:225.

117. Werner H. Schmidt, Die Schöpfungsgeschichte der Priesterschrift, 2d ed. (Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag, 1967), 68.

118. Ver Niels-Erik A. Andreasen, The Old Testament Sabbath: A Tradition-Historical Interpretation, SBL Dissertation Series Nº 7 (Missoula, MT: Society of Biblical Literature, 1972), 174-202; Gerhard F. Hasel, “The Sabbath in the Pentateuch”, The Sabbath in Scripture and History, ed. Kenneth A. Strand (Washington, DC: Review and Herald Publishing Association, 1982), 21-43; idem, “Sabbath”, The Anchor Bible Dictionary, 849-856; Gnana Robinson. The Origin and Development of the Old Testament Sabbath: A Comprehensive Exegetical Approach (Frankfurt: Peter Lang, 1988), 139-142, 296-301.

119. Schmidt, 68 nº 5.

120. Ver também Weeks, 18: “O mandamento perde completamente sua força convincente se eles (os “dias”) não forem tomados literalmente.

121. Blocher, 48; ver também Henricus Renckens, Israel’s Concept of the Beginning: The Theology of Genesis 1-3 (New York: Herder & Herder, 1964), 98-100.

122. Fretheim, 20.

123. Bailey, 126.

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Mensagem em Sex Jul 16, 2010 11:34 am por Eduardo


A PALAVRA “TERRA” EM GÊNESIS 1:1

Niels-Erik Andreasen - professor de Antigo Testamento na Universidade de Loma Linda, Califórnia, U.S.A.

Afirma Gênesis 1:1 que tanto a vida como a matéria inorgânica foram criadas simultaneamente, ou que, embora a vida seja bastante recente, a matéria inorgânica poderia ter existido muito tempo antes da semana da criação? O autor examina as dificuldades envolvidas na tradução da palavra terra a partir do texto hebraico.
A frase inicial do Velho Testamento é bela em sua simplicidade - “No princípio criou Deus os céus e a terra”. Até mesmo uma criança pode entendê-la, mas apesar disso cada uma das palavras dessa frase tem sido objeto de interpretação discordante (1). A palavra “terra”, ora em discussão, não constitui exceção. A questão consiste em saber se ela se refere:
a - À matéria que fisicamente compõe a terra (2),
b - Ao planeta Terra como parte do sistema solar (3), ou
c - À terra no sentido do solo sobre o qual a vida pode existir (4).
Abordaremos a questão de forma sucinta, analisando quatro problemas. Primeiro, examinaremos o significado e o uso da palavra “terra” (em Hebraico ‘erets). Em segundo lugar, consideraremos a palavra no contexto de Gênesis 1:1. Em terceiro lugar, examinaremos o problema de Gênesis 1:2. Finalmente, procuraremos verificar qual é a concepção bíblica do mundo físico que este versículo exprime.
A Palavra “terra”

A palavra hebraica da qual nossa palavra portuguesa “terra” é traduzida em Gênesis 1:1 (“No princípio criou Deus os céus e a terra”) é ‘erets, entendida de maneira geral como terra no sentido de solo, mundo, ou algo semelhante. Poderemos ser mais específicos quanto ao seu significado? Para responder uma questão como esta, o intérprete comumente começa a procurar o significado da raíz da palavra, examinando-a no seu contexto geográfico, no caso, o Oriente Próximo.
A palavra egípcia mais comum para “terra”, no sentido de mundo ou terreno, tem vários significados, abrangendo desde “mundo”, “poeira”, “sujeira”, e “solo”, até “terreno”, “nação”, e “país”(5). Ela ocorre também com a palavra que designa “céu”, formando assim um par de palavras que indica o cosmos deificado. Infelizmente não é possível determinar qual dos significados é o original (6).
A língua acádica da antiga Mesopotâmia empregava diversas palavras para “terra”, das quais uma, eresetu, claramente se relaciona com o hebraico ‘erets (7). Ela é usada em conjunto com a palavra samu (“céu”) para formar a dupla usual “céu e terra” significando o mundo todo, ou mesmo o universo. De maneira bastante interessante ela também se refere ao mundo inferior, a terra da qual não há retorno, e menos freqüentemente à terra ou território de um governador. Finalmente, ela significa “solo”, a matéria que pode ser arada, encharcada de sangue, e usada para sepultura.
Os dialetos semíticos de Canaan e da Fenícia relacionam-se intimamente com a língua hebraica. Em ugarítico ‘rs significa “terra” (8), e novamente se coloca em antítese a céu e núvens, indicando a esfera da vida humana. Em diversas ocasiões esta palavra especifica o chão sobre o qual se cai, sobre o qual chove, e do qual procedem as colheitas (9). Finalmente, a palavra aparece na inscrição de Mesa (a Pedra Moabita) significando “terra” (“Chemosh está irado com a sua terra”) (10).
Estas ilustrações poderiam multiplicar-se, sem que o quadro final se alterasse significativamente - a palavra “terra”, relacionada com o hebraico ‘erets, era usada comumente no Oriente Próximo com os significados de “mundo”, “solo” e “terra”. Somente o contexto indicará se a referência é feita ao mundo todo (que chamamos de “planeta”), à superfície do planeta, na qual se manifesta a vida, ou a uma porção de terreno nessa superfície.
O hebraico ‘erets (“terra”) ocorre mais de 2500 vezes em hebraico (ou aramaico) no Velho Testamento. O exame de todas essas passagens, ou mesmo de uma boa parte delas, foge ao escopo deste ensaio. Não obstante, mesmo uma olhadela rápida mostrará que o seu significado varia no Velho Testamento da mesma forma que fora dele, e que ela inclui a idéia de “planeta terra”, “superfície da terra”, e “porção de terra”.
Desta forma, ‘erets refere-se a toda a terra (ou ao planeta, como diríamos), por exemplo em expressões tais como “o Deus do céu e da terra” (Gênesis 24:3), “Criador dos céus e da terra” (Gênesis 14:19, 22, traduzido na versão Almeida nova como “Deus altíssimo que possui os céus e a terra” ), e “o céu é Meu trono e a terra o estrado de Meus pés” (Isaias 66:1). Isto não significa que a terra sempre tenha sido entendida como sendo uma esfera, como hoje. Da mesma forma, ela é descrita (poeticamente) como tendo quatro cantos (Isaias 11:12, na versão Almeida nova “quatro confins da terra”) e extremidades ou fins (Isaias 40:28). É dito também que ela tem um centro, literalmente um umbigo (Ezequiel 38:12), e que ela pode tremer e abalar-se (Salmo 18:7), e cambalear como um bêbedo (Isaias 24:19 e versos seguintes).
Em segundo lugar, além da divisão do mundo em duas partes, o céu e a terra (planeta), aparece também na Bíblia uma divisão em três partes. O céu está acima, a terra abaixo, e entre eles a porção de terra seca (Êxodo 20:4, Salmo 135:6). Nestes casos ‘erets (“terra”) refere-se somente à superfície seca, ou a terra onde vivem os seres (“terra dos viventes” - Salmo 52:5; Isaias 38:11). Na realidade ela provê também a sepultura para os mortos (Isaias 26:19 - “a terra dará à luz os seus mortos”; Ezequiel 31:14 - “... estão entregues à morte, e se abismarão às profundezas da terra, no meio dos filhos dos homens, com os que descem à cova”). Além disso, o pó e a cinza fazem parte dela, bem como as regiões desérticas (Deuteronômio 28:23-24 - “a terra debaixo de ti ... pó e cinza”; 32:10 - “terra deserta”; Salmo 107:34 - “deserto salgado”; Jeremias 2:6 - “terra de ermos ... e sequidão”). Desta forma, não só a superfície da terra que mantém a vida, mas várias partes específicas suas são indicadas pela palavra ‘erets. Uma pessoa pode ser encravada nela (I Samuel 26:8 - “encravá-lp com a lança ao chão”), e o sangue pode ser nela derramado (I Samuel 26:20 - “não se derrame o meu sangue longe desta terra”). Neste ponto ‘erets recebe uma acepção afim à de ‘adama (“chão”, “solo”, “terra”) (11), sendo porém precipuamente o chão sobre o qual pode se manifestar a vida (Gênesis 1:11 e seguintes - “...produza a terra relva ... ervas que dêem semente ... e árvores ...”; 27:28 - “Deus te dê da exuberância da terra...”; Deuteronômio 1:25 - “tomaram do fruto da terra ... É terra boa que nos dá o Senhor...”).
Finalmente, ‘erets significa “terra” no sentido de um território delimitado. Encontramos assim “a terra do norte” (Jeremias 3:18), a “terra da campina” (Jeremias 48:21), a “terra de teus pais” (Gênesis 31:3), a “terra do seu cativeiro” (I Reis 8:47), a “terra dos Cananeus” (Êxodo 13:5), a “terra de Israel” (I Samuel 13:19), a “terra de Benjamim” (Jeremias 1:1), e a “terra do Senhor” (Oséias 9:3).
Permanecemos assim ainda sem uma definição clara do termo. Terra, chão seco, solo, terreno ou território, todas estas palavras são traduções adequadas e comuns da palavra ‘erets do Velho Testamento. Somente o contexto pode nos guiar para a escolha de uma tradução adequada.

Terra no contexto de Gênesis 1:1

Uma pesquisa contextual é difícil de ser considerada em um espaço tão limitado, pois o contexto de um versículo ou de uma palavra pode bem ser comparado com as ondas concêntricas produzidas por uma pedra atirada em um lago. O problema se estende cada vez mais à medida que nos aprofundamos nele. Conseqüentemente, podemos tão somente fazer observações sucintas.
O contexto imediato encontramos no próprio versículo 1, especialmente na expressão “os céus e a terra”(12). É esta uma expressão familiar (13) que em geral é tomada como referindo-se a tudo - o mundo todo - com base em que os céus e a terra constituem os limites extremos de tudo que entre eles existe, isto é, o mundo todo (14). Na realidade poder-se-ia também ler a expressão como fazendo referência aos locais de habitação de Deus e dos homens, ou os seus âmbitos respectivos (Eclesiastes 5:2 - “Deus está nos céus e tu na terra”). Neste caso, a abóboda celeste e a superfície da terra exprimiriam o sentido desejado. Entretanto, no contexto da Criação divina, existe no Velho Testamento algum apoio para entendermos esses termos como se referindo mais à totalidade (de todas as coisas) do que à especificação daqueles âmbitos respectivos (Salmo 136:1-9, Isaias 40:21-23 e 45:11 e versículos seguintes).
A tradução toda de Gênesis 1:1 é deveras difícil, como recentes traduções da Bíblia deixam claro (15). Não há como aprofundarmos esse assunto aqui, a não ser dizermos que o versículo 1 provavelmente é uma introdução geral a todo o relato da Criação (Gênesis 1:1 - “No princípio criou Deus os céus e a terra”; 2:4 - “ Esta é a gênese dos céus e da terra quando foram criados, quando o Senhor Deus os criou”) (16), e deveria ser traduzido como “no princípio criou Deus os céus e a terra”. Céu e terra, então, é tudo o que vem em seguida no relato, a partir do primeiro ato de Deus - a criação da luz (versículo 3). Subseqüentemente, o segundo dia testemunha a formação do céu (versículo 8), e o terceiro dia fala do aparecimento da terra (versículo 10), seguidos da criação de seus respectivos conteúdos (do versículo 11 até 2:1).
A terra emergente (versículo 9), yabassa (“porção seca”) é chamada de ‘erets (“terra”) em oposição às águas que são chamadas de mares. Isso nos poderia levar a simplesmente identificar ‘erets como a terra firme física (solo, rochas, etc.), não fosse o fato de que a palavra ‘erets (“terra”) é também usada no versículo 2 para descrever aquilo que ainda não havia sido separado em terra seca e mar. Conseqüentemente, podem alguns concluir que ‘erets (“terra”) no capítulo inicial da Bíblia apresenta pelo menos dois significados distintos. Obviamente ela se refere à terra seca (versículo 10), mas também àquilo sem forma e vazio que a precedeu (versículo 2).
Parece claro que o primeiro desses dois significados, “terra seca”, é dominante no resto do capítulo (versículos 11, 12, 20, 22, 24, 26, 29, 30). Em um caso (versículo 25 - “... répteis da terra”), a terra (‘erets) é identificada especificamente com o solo (‘adama), como para ressaltar esse ponto. Entretanto, em alguns outros lugares pode ser preferível um entendimento mais global para ‘erets. Assim, os versículos 14 a 19 falam do sol, da lua e das estrelas e sua relação com a terra. São eles colocados no firmamento não somente para dar luz, mas também para medir estações (festivais), dias e anos. Pareceria que o sistema solar e os seus movimentos (como então concebidos) estão aí em consideração. Gênesis 2:1-4, de igual modo, fala dos céus e da terra e seus exércitos, indicando presumivelmente todo o sistema, e assim completando o relato iniciado no versículo 1 (17).
Podemos assim tirar as seguintes conclusões preliminares. Em geral a palavra ‘erets (“terra”) em Gênesis 1:1 a 2:4 refere-se à terra seca, em contraposição ao ar e ao mar, na qual podem viver o homem, as plantas e os animais. Em outras palavras, ‘erets significa a superfície da terra. Em segundo lugar, o relato também implica que esta terra é parte de um sistema maior, que inclui o sol, a lua e as estrelas (18), e portanto tem um significado mais amplo do que meramente o chão seco sobre o qual pisamos. Ela constitui, também, pelo menos uma região, algo que caracterizamos pelo adjetivo “terrestre”. Desta forma ela inclui o mar para os peixes e o ar para as aves, ambos criados juntamente no quinto dia, antes dos animais terrestres. Em terceiro lugar, na expressão “céu e terra”, ‘erets é parte de um todo que abrange tudo que Deus criou, desde o âmbito terrestre até o celeste. Portanto aqui ‘erets é menos significativo para nossas indagações, pois não se relaciona nem com a matéria nem com o território terrestre, mas simplesmente com a extremidade inferior do espectro que descreve toda a Criação divina. Portanto, ao indagarmos o que é o céu e a terra que Deus criou, no relato de Gênesis 1:1 provavelmente a resposta seria que é tudo que se segue em Gênesis 1:2 a 2:4, dando-se, porém, especial atenção à superfície frutífera que pode sustentar e manter a vida.

O problema de Gênesis 1:2

Isto nos deixa com o espinhoso problema de Gênesis 1:2 (“A terra, porém, era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas”), um versículo que freqüentemente é usado para descrever a condição da terra em seu estado primordial. Porém, o que significa a palavra “terra” aqui? O globo, a matéria física, ou o solo coberto pela água? Poderemos, de alguma maneira, penetrar o véu que vela a obra criativa de Deus, e saber como Ele operou realmente no início? Algumas propostas têm sido consideradas, nesse propósito:
1) O versículo descreve a existência da terra no intervalo entre a criação original da matéria e a criação da vida. A “terra” ou deveria ser vista como a matéria prima a ser modelada para dar origem a uma terra organizada (19), ou, de acordo com a chamada hipótese da restituição (20), descreveria um mundo caído de sua glória anterior, à semelhança de Lúcifer (versículo 1).
2) O versículo descreve a primeira obra criadora de Deus, uma terra escura e aquosa, no primeiro dia da semana da criação. Este ponto de vista pode trazer alguma dúvida sobre a seqüência das obras de Deus na criação, começando com a luz e terminando com o homem, e poderia levar à sugestão impossível de que o primeiro ato criativo de Deus não tivesse sido bom (21). Young, entretanto, argumentou que essa primeira terra, criada por Deus, era de fato boa, embora ainda não apropriada para a vida (22). ‘Erets, aqui, teria sentidos diferentes nos versículos 2 e 10. O último versículo indicaria um desenvolvimento posterior ao do primeiro.
3) O versículo descreve um caos que permanece não muito antes da criação, em oposição à criação, exprimindo uma sempre presente ameaçadora possibilidade de julgamento divino (23). Aqui, então, a “terra” do versículo 2 é a mesma “terra” do versículo 10, como seria ou deveria ser sem o poder criativo de Deus.
4) O versículo descreve a terra antes da criação, e a caracteriza como sendo um “nada”, isto é, como nada mais do que uma condição na qual a criação da terra poderia ocorrer. De acordo com esta sugestão, bastante comum, ‘erets (“terra”) no versículo 2 não apresenta, em absoluto, qualquer significado especial (da mesma maneira que um aposento vazio não apresenta conteúdo) (24). Aqui, o versículo 2 reitera o tema do versículo 1, porém em um sentido negativo, isto é, que Deus criou tudo no princípio.
Isto significa que ‘erets (“terra”) no versículo 2 não nos ajuda muito para a solução de nosso problema, a menos que, de fato, aceitemos um hiato entre os versículos 1 e 2, de tal forma que o versículo 1 se torne uma cláusula temporal e o versículo 2 uma descrição da matéria pre-existente, o que, entretanto, se contrapõe a alguns estudos cuidadosos que têm sido feitos sobre o problema (25). Alternativamente, o versículo 2 não contribui para a descrição de uma terra criada, a menos que aceitemos o ponto de vista de Young, o que, entretanto, acarreta sérias dificuldades, em particular que a criação divina da terra sugerida no versículo 2 não segue o esquema das outras obras de Deus na criação. Assim, se eliminarmos as proposições 1 e 2, ficamos com as proposições 3 e 4, nenhuma das quais traz qualquer outra contribuição para o nosso conceito da terra primordial a não ser que Deus a tenha criado.
Conseqüentemente, somos de novo levados a Gênesis 1:1, que anuncia de forma sucinta que Deus criou os céus e a terra, seguindo-se uma descrição deste evento. Parece que a terra (‘erets) seria a terra seca sobre a qual pode existir a vida, embora se reconheça que ela faça parte de um sistema mais amplo (sol, lua, estrelas) que provê luz e comanda as estações em seu ciclo.

A terra no pensamento bíblico (26)

Disto resulta uma última questão. Que conclusões podemos tirar das considerações anteriores com relação às perguntas de ordem geofísica que fizemos no início? Gênesis 1:1 refere-se à criação da matéria que fisicamente compõe a terra, ao planeta terra, ou ao solo da superfície da terra? Para responder essa questão devemos primeiramente investigar o sentido da palavra “terra”. Verificamos que geralmente esta palavra significa chão (certamente em Gênesis, do capítulo 1 ao capítulo 2, versículo 4), embora tenhamos de estar alertardos para o fato de que algo mais além do solo esteja associado a ela (versículos 14-19). Entretanto, ao apresentarmos nossas questões contemporâneas perante o texto bíblico, deveríamos também investigar se o próprio texto permite a aceitação das distinções que fazemos, e das nossas razões para fazê-las.
Por exemplo, fazemos distinção entre terra e o planeta terra porque a ciência atual tem-nos apresentado uma cronologia de bilhões de anos para o planeta, enquanto que o texto bíblico apresenta uma cronologia curta para a terra. Entretanto, não existem evidências de que o texto bíblico tivesse manifestado qualquer preocupação com relação a esse tipo de problema. Pelo contrário, o texto bíblico só faz distinção entre terra, entendida como chão ou terra seca, e mundo, no sentido de planeta, porque o primeiro significado tem a ver com o âmbito da vida humana e seu domínio, enquanto que o segundo tem a ver com o âmbito mais amplo das obras de Deus. Assim, Deus criou os céus e a terra (o mundo todo), enquanto que a terra (terra seca) foi feita para a vida e a humanidade. A distinção baseia-se numa perspectiva de função, e não de cronologia, e conseqüentemente não se pode esperar qualquer distinção temporal explícita entre ambas, o que na realidade não existe.
O melhor que podemos afirmar com relação à criação da terra em Gênesis 1:1 é que ela tem que ver com nosso mundo, a terra, e que ela envolve o sistema ecológico no qual vivemos. Muito mais precisaria ser dito sobre questões geofísicas levantadas em nossa época, porém a Bíblia em geral silencia a seu respeito.
Assim, nossa conclusão de que a palavra ‘erets (“terra”) refere-se precipuamente à superfície seca de nosso planeta e à vida nela existente, não permite concluirmos que Gênesis 1 retrate um segundo estágio de uma criação em dois estágios, primeiro a matéria do planeta, e depois a terra, com um intervalo de tempo intercalado. Permite, sim, fazer uma distinção de perspectiva entre o mundo, como sistema céu e terra, e a terra como a porção de terra seca, com seu solo e sua vida. Qualquer distinção temporal entre ambas as acepções correrá por nossa conta, e não com o apoio do texto bíblico.
Não é desprovido de significado, aparentemente, que a Bíblia e o relato da criação iniciam-se com a simples palavra bere’shit, significando “no princípio” (e não com a palavra “Deus”, como se poderia pensar). Conclui-se que a Bíblia nos indica que quem quer que deseje compreender o seu relato da criação não deve ser levado a inquirir sobre o que poderia ter acontecido antes desse princípio, pois no início permanece somente Deus, e nada mais. Somos levados, pela Bíblia, a inquirir sobre o que aconteceu posteriormente ao início da obra criadora de Deus, porém ela na verdade não responde a todas as nossas questões!

Referências
(1) A literatura é abrangente e variada. Ver por exemplo W. Eichrodt, 1962, In the Beginning, pp. 1-10, in “Israel’s Prophetic Heritage” (New York); G. F. Hasel, 1972, Recent Translations of Genesis 1:1 : A Critical Look, “The Bible Translator” 22:154-167; E. J. Young, 1964, Studies in Genesis One (Philadelphia); N. H. Ridderbos, 1958, Genesis 1:1 und 2, “Oudtestamentische Studiën” 12:214-260; W. H. Schmidt, 1967, Die Scöpfungsgeschichte (Neukirchen); C. Westermann, 1967, Genesis BK 1/2 (Neukirchen), pp. 130-141.
(2) Esta posição incomum é considerada somente esporadicamente, e provavelmente é influenciada pelas palavras tohu wabohu (“sem forma e vazia”) no versículo 2. Ver J. Calvin, 1847, Genesis (Edinburgh), p. 70; Clarke’s Commentary, 1830, vol. 1 (New York), p. 30.
(3) Este é o ponto de vista mais comum. Ele considera “o céu e a terra” (versículo 1) como a expressão do mundo todo, o universo, ou algo semelhante. H. Gunkel, 1922, Genesis (5ª Edição, Göttingen), p. 102; J. Skinner, 1910, Genesis (New York), p. 14; Westermann, Genesis, pp. 140s.
(4) Um ponto de vista menos freqüentemente expresso, que questiona ter o Velho Testamento uma perspectiva universal, e sim uma perspectiva limitada à abóboda celeste com a terra abaixo dela. Ver Young, Studies in Genesis One. pp. 9s; U. Cassuto, 1978, A Commentary on the Book of Genesis, vol. I (Jerusalém), p. 26; B. Vawter, 1977, On Genesis : A New Reading (New York), p. 38.
(5) W. Helck e E. Otto, eds., 1975, Lexikon der Ägyptologie (Wiesbaden), pp. 1263s.
(6) Ver S. Morenz, 1973, Egyptian Religion (Londres), pp. 29s.
(7) The Assyrian Dictionary, 1958, vol. IV (Chicago), pp. 311-313.
(8) Ugaritic Textbook (Roma, 1965), pp. 366s.
(9) Ver G. Johannes Botterweck e Helemer Ringgren, eds., 1978, Theological Dictionary of the Old Testament, vol. I (Grand Rapids), p. 392.
(10) J. C. L. Gibson, 1971, Textbook of Syrian Semitic Inscriptions, vol. I (Oxford), p. 74.
(11) Recentemente, P. D. Miller, 1978, Genesis 1-11, “Journal for the Study of the Old Testament Supplement” 8:37s.
(12) A palavra hebraica “céus” (shamayim) é dual (e não simplesmente plural), indicando talvez duas regiões celestes. Ver L. I. J. Stadelmann, S. J., 1970, The Hebrew Conception of the World, “Analecta Biblica” 39:37-41 (Roma).
(13) Ver N. C. Habel, 1972, Yaweh, Maker of Heaven and Earth; A Study in Tradition Criticisms, “Journal of Biblical Literature” 71:16.
(14) Ver A. M. Honeyman, 1952, Merismus in Biblical Hebrew, “Journal of Biblical Literature” 71:16.
(15) Ver The New English Bible, The New American Bible, The New Jewish Version, Anchor Bible, versões que abandonaram a tradução tradicional “No princípio criou Deus os céus e a terra”.
(16) Ver Hasel, Recent Translations of Genesis 1:1.
(17) Ver Schmidt, Die Schöpfungsgeschichte, p. 76.
(18) O hebraico cocavim (estrelas) são corpos celestes outros que não o sol e a lua. Com base somente na palavra é possível, mas não necessária, uma distinção entre estrelas fixas e planetas. A referência feita aqui às estrelas é incidental, quase parentética, para completar o quadro. Ver Westermann, Genesis, p. 182.
(19) Este ponto de vista pressupõe uma criação anterior do universo material, e é encarada favoravelmente por cientistas que aceitam uma cronologia extensa para a matéria e uma cronologia resumida para a vida na terra.
(20) Também designada como “Teoria da Ruína e Reconstrução, de Gênesis 1:2” em W. E. Lammerts, ed., 1971, Scientific Studies in Special Creation (Philadelphia), pp. 32-40.
(21) B. Childs, 1962, Myth and Reality in the Old Testament (New York), pp. 31-43.
(22) C. D. Simpson, 1952, Genesis, “Interpreter’s Bible”, vol. I (New York), p. 468.
(23) Young, Studies in Genesis One, p. 23.
(24) Os argumentos a favor desta interpretação são tirados de relatos da criação antigos do Oriente Próximo, e de Gênesis 2:5 que usa a expressão “quando... não havia ainda nenhuma planta do campo ...etc . na terra”. Ver Westermann, Genesis, pp.141s; Ridderbos, Genesis 1:1 und 2, pp. 224-227, et al.
(25) Ver nota (1) acima.
(26) Para um acompanhamento mais completo deste assunto, ver Stadelmann, The Hebrew Conception of the World, pp. 126-154.

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Folha Criacionista 53

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Mensagem em Sex Jul 16, 2010 11:35 am por Eduardo

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NO PRINCÍPIO: COMO INTERPRETAR GÊNESIS 1

Richard M. Davidson

“No princípio criou Deus os céus e a Terra.” Gênesis 1:1.
Com tal beleza, majestade e simplicidade começa o relato da Criação em Gênesis. Porém, uma análise do capítulo 1 de Gênesis não é tão simples e direta como uma leitura casual do texto bíblico poderia sugerir. A interpretação moderna da cosmogonia (estudo das origens) bíblica em Gênesis 1 é extremamente complicada, dividida entre a interpretação não-literal e a literal. Vamos brevemente descrever sete destas interpretações e avaliar cada uma à luz dos dados bíblicos.

Interpretações principais de Gênesis 1
Estudiosos que apoiam uma interpretação não-literal de Gênesis abordam a questão de diferentes modos. Alguns consideram Gênesis 1 como mitologia (1); outros consideram-no poesia (2); alguns tomam-no como teologia (3); ainda outros o consideram como simbolismo. (4) Comum a todas estas interpretações não-literais é a suposição de que o relato em Gênesis não é um relato literal e histórico da Criação.

Interpretações literais
Aqueles que aceitam literalmente o relato da Criação também diferem em sua abordagem da cosmogonia bíblica de Gênesis 1. Vamos indicar três pontos de vista.
Teoria de um intervalo ativo
Esta opinião é também conhecida como a teoria de ruína-restauração. Segundo esta opinião, (5) Gênesis 1:1 descreve uma criação originalmente perfeita a um tempo desconhecido (milhões ou bilhões de anos atrás). Satanás era o regente deste mundo, mas por causa de sua rebelião (Isaías 14:12-17), o pecado entrou no Universo. Deus condenou a rebelião e reduziu o mundo ao estado arruinado e caótico descrito em Gênesis 1:2. Os que mantêm esta opinião traduzem Gênesis 1:2 como “a terra tornou-se sem forma e vazia”.
Gênesis 1:3 e os versos seguintes apresentam então o relato de uma criação posterior na qual Deus restaura o que tinha sido arruinado. A coluna geológica é usualmente inserida no período da primeira criação (Gênesis 1:1) e do caos subseqüente, e não em conexão com o Dilúvio bíblico.

Teoria de uma criação prévia “sem forma e vazia”
Segundo esta interpretação os termos hebraicos tohu (“sem forma”) e bohu (“vazia”) em Gênesis 1:2 descrevem o estado sem forma e sem conteúdo da Terra. O texto se refere a um estado anterior à Criação mencionada na Bíblia. Esta opinião tem duas variantes principais baseadas em duas análises gramaticais diferentes.
A primeira variante considera Gênesis 1:1 como uma cláusula dependente, em paralelo com os relatos da Criação extra-bíblicos do Oriente Próximo. (6) Daí a tradução proposta: “Quando Deus começou a criar os céus e a terra”. Portanto, Gênesis 1:2 equivale a um parênteses, que descreve o estado da Terra quando Deus começou a criar (“a Terra estando ...”) e Gênesis 1:3 em diante descreve a obra criadora efetiva (“E Deus disse ...”).
As outras variantes principais consideram Gênesis 1:1 como uma cláusula independente, e como um sumário ou introdução formal, ou título, que é então ampliado no resto da narrativa. (7) Gênesis 1:2 é visto como uma cláusula circunstancial ligada com o verso 3: “A Terra, porém, era sem forma e vazia ... Disse Deus: ‘Haja luz’.”
Deste ponto de vista, apoiado por qualquer das análises gramaticais mencionadas acima, Gênesis não oferece um começo absoluto de tempo para o cosmos. Criação a partir do nada não é implicada, e não há indicação da existência de Deus antes da matéria. Nada é dito da criação da matéria original descrita no verso 2. Trevas, abismo e águas de Gênesis 1:2 já existiam no começo da atividade criadora de Deus.
Podíamos mencionar de passagem uma outra opinião pré-Criação; esta toma o verso 2 como uma cláusula dependente “quando ...”, mas difere da primeira variante na interpretação dos termos tohu e bohu, e os termos para “trevas” e “abismo” - todos significando “nada”. Assim o verso 1 é visto como um sumário; o verso 2 diz que inicialmente não havia “nada”; e o verso 3 descreve o começo do processo criador. (8)

Teoria de um estado inicial “sem forma e vazio”.
Uma terceira interpretação literal da cosmogonia bíblica é a de um estado inicialmente “sem forma e vazio”. Esta é a opinião tradicional, tendo o apoio da maioria dos intérpretes judeus e cristãos através da história. (9) Segundo esta interpretação, Gênesis 1:1 declara que Deus criou do nada a matéria original chamada céus e Terra no ponto de seu começo absoluto. O verso 2 esclarece que quando a Terra foi primeiro criada ela estava num estado de tohu e bohu - sem forma e vazia. O verso 3 e os versos seguintes então descrevem o processo divino de dar forma ao informe e de encher o vazio.
Esta interpretação tem duas variantes. Alguns consideram os versos 1 e 2 como partes do primeiro dia de uma semana de sete dias. Podemos chamá-la a interpretação “sem intervalo”. (10) Outros vêem os versos 1 e 2 como uma unidade cronológica separada por um intervalo de tempo do primeiro dia da Criação descrito no verso 3. Esta opinião é usualmente chamada a do “intervalo passivo.” (11)

AVALIAÇÃO
O espaço não permite uma avaliação pormenorizada de todos os prós e contras de cada opinião aqui resumida, mas apresentaremos o esboço dos dados bíblicos que se referem às teorias sobre a origem da matéria e da vida e sua existência primitiva.

Interpretações não-literais
Ao considerar todas as interpretações não-literais e não-históricas, precisamos levar em conta dois fatos bíblicos significativos:

1. O gênero literário de Gênesis 1-11 indica a natureza intencionalmente literal da narrativa. (12) O livro de Gênesis é estruturado pelo termo gerações (hebraico toledoth) em relação com cada seção do livro (13 vezes). Este é um termo usado alhures em conexão com genealogias que têm que ver com um relato exato de tempo e história. O uso de toledoth em Gênesis 2:4 mostra que o autor pretendia que a narrativa da Criação fosse tão literal como o resto das narrativas de Gênesis. (13) Outros escritores bíblicos tomam Gênesis 1-11 como literal. Com efeito, todos os escritores do Novo Testamento se referem a Gênesis 1-11 como história literal. (14)

2. Evidência interna também indica que o relato da Criação não deve ser tomado simbolicamente como sete longos períodos segundo o modelo evolucionista - como é sugerido por críticos eruditos, bem como por evangélicos. Os termos tarde e manhã significam um dia literal de 24 horas. Alhures nas Escrituras, o termo dia com um número ordinal é sempre literal. Se os dias da Criação são simbólicos, Êxodo 20:8-11 que comemora um Sábado literal não tem sentido. Referências à função do Sol e da Lua para sinais, estações, dias e anos (Gênesis 1:4), também indicam tempo literal e não simbólico. Portanto, devemos concluir que Gênesis 1:1 a 2:4 indica sete dias literais, consecutivos, de 24 horas. (15)
Embora as interpretações não-literais devam ser rejeitadas no que negam (a saber, a natureza literal e histórica do relato de Gênesis), não obstante possuem um elemento de verdade no que afirmam.
Gênesis 1-2 tem que ver com mitologia - não para afirmar uma interpretação mitológica, mas como polêmica contra a antiga mitologia do Oriente Próximo. (16) Os versículos de Gênesis 1:1 a 2:4 provavelmente são estruturados de um modo semelhante à poesia hebraica (paralelismo sintético), (17) mas poesia não nega historicidade (ver por exemplo, Êxodo 15, Daniel 7 e aproximadamente 40 por cento do Antigo Testamento, que são poesia.) Escritores bíblicos freqüentemente escrevem em poesia para afirmar historicidade.
Os versículos de Gênesis 1-2 apresentam uma teologia profunda: doutrinas de Deus, Criação, humanidade, Sábado, etc. Mas nas Escrituras teologia não se opõe à história. Com efeito, a teologia bíblica tem sua raiz na história. De igual modo há um simbolismo profundo em Gênesis 1. Por exemplo, a linguagem do Jardim do Éden e a ocupação de Adão e Eva claramente aludem ao simbolismo do santuário e ao trabalho dos levitas (ver Êxodo 25-40). (18) Assim o santuário do Éden é um símbolo ou tipo do santuário celestial. Mas porque aponta para algo diferente não diminui sua realidade literal.
Gerhard von Rad, um erudito crítico que não aceita o que Gênesis 1 afirma, ainda assim confessa honestamente: “O que é dito aqui ( Gênesis 1) é para ser tomado inteiramente e exatamente como está” (19).
Portanto, nós afirmamos a natureza literal e histórica do relato de Gênesis. Mas qual interpretação literal é correta?

Interpretações literais
Primeiro, precisamos de início rejeitar a teoria de ruína-restauração ou “intervalo ativo” puramente por razões de gramática. Gênesis 1:2 claramente encerra três cláusulas nominais e o sentido fundamental de cláusulas nominais em hebraico é algo fixo, um estado; (20) não uma seqüência ou ação. Segundo as regras da gramática hebraica, precisamos traduzir “a Terra era sem forma e vazia”, e não “a Terra tornou-se sem forma e vazia”. Assim a gramática hebraica não deixa lugar para a teoria de um intervalo ativo.
Que dizer da interpretação de uma criação prévia “sem forma e vazia” na qual o estado de tohu-bohu de Gênesis 1:2 precede a criação divina? Alguns apoiam essa teoria traduzindo o verso 1 como uma cláusula dependente. Mas a melhor evidência favorece a leitura tradicional de Gênesis 1:1 como uma cláusula independente: “No princípio criou Deus os céus e a Terra.” Isto inclui a evidência dos acentos no hebraico, todas as antigas versões, considerações léxico-gramaticais, sintáticas e estilísticas, e comparação com antigas lendas do Oriente Próximo. (21) O peso da evidência me leva a reter a leitura tradicional.
Outros suportam a teoria de uma criação prévia “sem forma e vazia” interpretando Gênesis 1:1 como um sumário do capítulo todo (o ato da criação só começando no verso 3). Mas se Gênesis 1 começa apenas com um título ou sumário, então o verso 2 contradiz o verso 1. Deus cria a Terra (verso 1), mas a Terra existe antes da Criação (verso 2). Esta interpretação não pode explicar a referência à existência da Terra já no verso 2. Rompe a continuidade entre os versos 1 e 2 no uso do termo terra. (22) Concluo, portanto, que Gênesis 1:1 não é simplesmente um sumário ou título do capítulo todo.
Contra a sugestão de que todas as palavras em Gênesis 1:2 simplesmente implicam “nada”, deve ser dito que o verso 3 e os versos seguintes não descrevem a criação da água, mas assumem sua existência prévia. O termo tehon - “abismo”- combinado com tohu e bohu (como em Jeremias 4:34) não parecem referir-se ao nada, mas à Terra num estado sem forma e vazia, coberta de água.
Isto nos leva à teoria de um estado inicialmente sem forma e vazio. A seqüência do pensamento em Gênesis 1:1-3 tem levado a maioria dos intérpretes cristãos e judeus a esta opinião, que por conseguinte é chamada de opinião tradicional.

A seqüência natural de Gênesis 1-2
Concordo com esta opinião, porque acho que só esta interpretação obedece à seqüência natural destes versos, sem contradição ou omissão de qualquer elemento no texto.
A seqüência do pensamento em Gênesis 1-2 é como segue:

a. Deus antecede a criação (verso 1).
b. Há um princípio absoluto do tempo com relação a este mundo e às esferas celestes que o cercam (verso 1).
c. Deus cria os céus e a Terra (verso 1), mas para começar eles são diferentes do que agora, são “sem forma” e “vazios” (tohu e bohu; verso 2).
d. No primeiro dia da semana de sete dias da Criação, Deus começa a formar e encher o tohu e bohu (verso 3 e os versos seguintes).
e. A atividade divina de “formar e criar” é efetuada em seis dias sucessivos de 24 horas cada.
f. No final da semana da Criação, os céus e a Terra estão terminados (Gênesis 2:1). O que Deus começou no verso 1 está agora finalizado.
g. Deus descansa no sétimo dia, abençoando-o e santificando-o como um memorial da Criação (2:1-4).

A ambigüidade do “quando”
Os pontos acima estão claros na seqüência do pensamento de Gênesis 1-2. Não obstante, há um aspecto crucial neste processo da Criação que o texto deixa aberto e ambíguo: Quando ocorreu o princípio absoluto dos céus e da Terra no verso 1? Foi no começo dos sete dias da Criação ou algum tempo antes? É possível que a matéria bruta dos céus e da Terra em seu estado informe fosse criada muito tempo antes dos sete dias da semana da Criação. Esta é a teoria do “intervalo passivo”. Também é possível que a matéria bruta descrita em Gênesis 1:1-2 esteja incluída no primeiro dia da semana da Criação. Esta se chama a teoria da “ausência de intervalo”.
Esta ambigüidade no texto hebraico tem implicações na interpretação do Pré-cambriano da coluna geológica, si se equacionar o Pré-cambriano com a “matéria bruta” descrita em Gênesis 1:1-2 (naturalmente este equacionamento está sujeito a debate). Há a possibilidade de um Pré-cambriano recente, criado como parte da semana da Criação (talvez com a aparência de idade alta). Há também a possibilidade de que a “matéria bruta” fosse criada no princípio absoluto da Terra e das esferas celestes circundantes, talvez milhões ou bilhões de anos atrás. Este estado inicial informe e vazio é descrito no verso 2. O verso 3 e os versos seguintes então descrevem o processo de formar e encher durante a semana da Criação.
Concluo que o texto bíblico de Gênesis 1 deixa margem tanto para (a) um Pré-cambriano recente (criado como parte dos sete dias da criação) ou (b) rochas muito mais antigas e sem fósseis, com um longo intervalo entre a criação da “matéria bruta” descrita em Gênesis 1:1-2 e os sete dias da semana da Criação descrita no verso 3 e nos versos seguintes. Mas tanto num caso como no outro, o texto bíblico requer uma cronologia breve para a vida na Terra. Não há margem para um intervalo de tempo na criação da vida na Terra: ela surgiu do terceiro ao sexto dias literais e consecutivos da semana da Criação.

Referências

(1) Ver Hermann Gunkel, Schöpfung und Chaos (Gottingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1985); B. S. Childs, Myth and Reality in the Old Testament, Studies in Biblical Theology, 27 (London: SCM Press, 1962), págs. 31-50.
(2) Ver D. F. Payne, Genesis One Reconsidered (London: Tyndala, 1964); Henri Blocher, In the Beginning: The Opening Chapters of Genesis (Downers Grove, III.: Inter-Varsity Press, 1984), págs. 49-59.
(3) Ver Conrad Hyers, The Meaning of Creation: Genesis and Modern Science (Atlanta: John Knox, 1984): Davis Young, Creation and the Flood: An Alternative to Flood Geology and Theistic Evolution (Grand Rapids, Mich.: Baker, 1974), págs. 86-89.
(4) Ver Derek Kidner, Genesis: An Introduction and Commentary, Tyndale Old Testament (Downers Grove, III.: Inter-Varsity Press, 1967), págs. 54-58; P. J. Wiseman, Creation Revealed in Six Days (London: Marshall, Morgan, e Scott, 1948), págs. 33-34.; Robert C. Newman e Herman J. Eckelmann, Jr., Genesis One and the Origin of the Earth (Downers Grove, III.: Inter-Varsity Press, 1977), págs. 64-65.
(5) Ver Arthur Custance, Without Form and Void (Brockville, Canada: pelo autor, 1970); e a Scofield Reference Bible (1917, 1967).
(6) Ver as seguintes traduções modernas de Gênesis 1:1-3: The New Jewish Version (NJV), New American Bible (NAB) católica, New English Bible; ver também E. A. Speiser, Anchor Bible: Genesis (Garden City, N. Y.: Doubleday, 1964), pp. 3, 8-13.
(7) Ver Gerhard von Rad, Genesis: A Commentary, Biblioteca do Antigo Testamento (Philadelphia: Westminster, 1972), pág. 49; Bruce Waltke, “The Creation Account in Genesis 1:1-3; Parte III: The Initial Chaos Theory”, Bibliotheca Sacra 132 (1975), pp. 225-228.
(8) Ver Jacques Doukhan, The Genesis Creation Story: Its Literary Structure, Série de Teses Doutorais apresentadas no Seminário da Andrews University, 5 (Berrien Springs, Mich.: Andrews University Press, 1978), pp. 63-73.
(9) Uma lista dos principais adeptos e uma defesa detalhada desta posição se encontra em Gerhard Hasel, “Recent Translations of Genesis 1:1”, The Bible Translator, 22 (1971), pp. 154-167; e idem, “The Meaning of Genesis 1:1”, Ministry (janeiro de 1976), pp. 21-24.
(10) Ver Henry Morris, The Biblical Basis for Modern Science (Grand Rapids, Mich.: Baker, 1984); e Idem, The Genesis Record (Grand Rapids, Mich.: Baker, 1976), pp. 17-104.
(11) Ver Harold G. Coffin, Origin by Design (Hagerstown, Md.: Review and Herald, 1983), pp. 292-293, que concorda com esta possibilidade. Além disto, Clyde L. Webster, Jr., “Gênesis e Cronologia: O Que a Datação Radiométrica nos Informa”, Diálogo 5:1 (1993), pp. 5-8.
(12) Ver Walker Kaiser, “The Literary Form of Genesis 1-111”, em The New Perspectives on the New Testament, J. Barton Payne, ed. (Waco, Texas:World, 1970), pp. 48-65.
(13) Dukhan, pp. 167-220.
(14) Ver Mateus 19:4-5; 24:37-39; Marcos 10:6; Lucas 3:38; 17:26-27; Romanos 5:12; I Coríntios 6:16; 11:8-9, 12; 15:21-22, 45; II Coríntios 11:3; Éfesios 5:31; I Timóteo 2:13-14; Hebreus 11:7; I Pedro 3:20; II Pedro 2:5; 3:4-6; Tiago 3:9; I João 3:12; Judas 11, 14: Apocalipse 14:7.
(15) Para mais evidências ver Terrance Fretheim, “Were the Days of Creation twenty-four Hours Long? YES”, em The Genesis Debate: The Persistent Questions About Creation and the Flood, Ronald F. Youngblood, ed. (Grand Rapids, Mich.: Baker, 1990), pp. 12-35.
(17) Ver Gordon J. Wenham, World Biblical Commentary: Gen 1-15 (Waco, Texas: World, 1987), pp. 6-7, para um diagrama da combinação simétrica dos dias da Criação.
(18) Ver Gordon J. Wenham, “Sanctuary Symbolism in the Garden of Eden Story”, Proceedings of the World Congress of Jewish Studies, 9 (1986), pp. 19-25.
(19) Von Rad, pp. 47.
(20) Ver Gesenius’ Hebrew Grammar, E. Kautzsch e A. E. Cowley, eds. (Oxford: Clarendon Press, 1910, 1974). pág. 454 (par. 141 i); R. L. Reymond, “Does Genesis 1:1-3 Teach Creation Out of Nothing?” Scientific Studies in Special Creation W. E. Lammerts, ed. (Grand Rapids, Mich.: Baker, 1971), pp. 14-17.
(21) Ver Hasel, “Recent Translations” e “The Meaning of Genesis 1:1”.
(22) Genesius’ Hebrew Grammar, pág. 455 (par. 142 c), que identifica o verso 2 como uma cláusula circunstancial contemporânea com a cláusula principal do verso 1 (não do verso 3).

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Mensagem em Sex Jul 16, 2010 11:36 am por Eduardo


O HEXAMERON

Guilherme Stein Jr.

A instituição do sábado ou do repouso do sétimo dia tem sua justificação no hexameron ou na obra de seis dias da criação. Assim rezam as Escrituras: “O sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus ... porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra ... e ao sétimo dia descansou ... por isso abençoou o Senhor o dia sétimo e o santificou” (2). É isto, do ponto de vista bíblico, um fato que não admite nenhuma contestação. A dificuldade, porém, que modernamente contra ele se tem suscitado, é que, segundo os resultados de investigações científicas e de descobertas modernas, feitas mormente no domínio da geologia, esses dias não podem ser interpretados como dias literais, devendo representar períodos mais ou menos longos.


Não é aqui o lugar para entrarmos na apreciação das teorias que levaram a esta conclusão, muitas das quais, seja isto dito de passagem, exigem um maior esforço de fé para ser acreditadas ou tomadas a sério do que a narração genesíaca dos seis dias literais. Elas têm sido de sobra discutidas e ventiladas em todos os seus aspectos, quer os mais graves e mais ou menos aceitáveis, como os absurdos e cômicos. Excusado é nos referirmos também aos múltiplos erros, reconhecidos ou não, a que essas teorias têm dado lugar, e às profundas divergências por elas determinadas entre os próprios cientistas, com relação aos chamados períodos geológicos, alguns dos quais, de concessão em concessão, têm chegado a estabelecer para o mundo uma idade bastante aproximada da que lhe assina a Bíblia (3).
A este respeito seja-nos permitido citar aqui um significativo exemplo. Como é sabido, a ciência geológica se serve para tais cálculos de diversos cronômetros, entre os quais também o da erosão praticada pelas águas dos rios nos leitos rochosos que percorrem (4).
Transferido esse cronômetro para o Niágara, Desor, geólogo suíço, calculou em doze polegadas de profundidade, cada século, a erosão praticada pelas águas no boqueirão desse rio, fazendo remontar assim o seu começo a três milhões e quinhentos mil anos! (5) Lyell, ajudado pelo mesmo cronômetro, entendeu dever fazer uma concessão bastante razoável: calculou o máximo da erosão em doze polegadas por ano, de sorte a estabelecer para esse rio a idade de trinta e cinco mil anos, o que já não é pouco (6).
Bakewell e outros geólogos de nomeada, por sua vez, acharam melhor aumentar mais um pouco a potência erosiva das águas ou diminuir a resistência do seu alvéolo rochoso, acelerando assim a marcha do seu cronômetro: elevaram ao triplo a marcha da erosão e reduziram a dez ou quinze mil anos a idade desse rio (7). Ultimamente L. K. Gilbert do “U. S. Geological Survey” e R. S. Woodward, de Washington, depois de mais acuradas observações e estudos, fixaram a proporção média da erosão em sessenta polegadas por ano; e agora Mr. Gilbert, cuja competência ninguém contesta, afirma que o máximo de tempo decorrido desde a formação dessa catarata não excede de sete mil anos, e que mesmo essa medida pode merecer ainda considerável redução! (8) Dawson chegava ultimamente quase à mesma conclusão(9). É de esperar, pois, que, com o tempo, também os demais cronômetros venham a experimentar idêntica retificação, e finalmente os nossos cálculos estarão com a Bíblia.

Figura 1 - Cataratas do Niágara - Vista do desfiladeiro a jusante, até Queenstown. Ilustração constante do livro de Lyell, “Principles of Geology”, op. cit. p. 215. (constante da versão impressa)
Um fato recente merece ser ainda aqui citado como prova da falácia dessas teorias, mediante as quais se quer exigir de nós uma retificação da Bíblia. É de todos conhecida a teoria das nebulosas, que tem servido também para explicar a origem da Terra e os longos períodos reclamados, segundo essa teoria, para a formação de nosso globo (10).
Não há muito tempo, a estrela Nova em Perseu veio dar aos adeptos dessa teoria uma lição de mestre, invertendo-lhes por completo a mesma à vista de seus olhos com transformar-se de estrela simples que era numa verdadeira nebulosa!(11) E, em vez de reclamar para esse processo involutivo, se é permitido assim chamar-lhe, milhões de anos, como era de mister, a ser verdadeira a dita teoria, a transformação operou-se dentro de poucas semanas, com grande espanto dos que lhe observaram a marcha. O processo mesmo é aos olhos do mundo científico um perfeito enigma. O professor Garret Seviss, notável escritor sobre astronomia, assim se exprime a propósito desse fenômeno no Examiner, de São Francisco, de 29 de dezembro de 1901:
“Isto (a nebulosa em Perseu) é um dos fatos até aqui observados que mais se aproxima de uma nova criação nos espaços ... Se pudéssemos imaginar que o processo, que esses movimentos revelam, constitui realmente a formação de qualquer coisa análoga ao nosso sistema solar, teríamos de admitir, com efeito, que a criação do mundo se houvesse efetuado no limitado espaço de meses ou de anos em vez de longos períodos de tempo, e a imaginação seria naturalmente transportada para a narração genesíaca da criação do mundo em seis dias”. E acham que seria mais difícil admitir isto do que aceitar tantas outras teorias que nenhuma certeza oferecem?
O fato é que o caso da Nova em Perseu veio ainda uma vez zombar de nossas teorias científicas, provando quão pouco nos é dado saber acerca das leis que presidiram à criação do mundo. Quanto ao que ensina a Bíblia, é esta uma questão, como muito bem se exprimiu o professor Nicholson (12), de energia versus tempo, acrescentando que podemos tão bem supor esses fenômenos geológicos o resultado de uma causa muito poderosa atuando num período de tempo relativamente curto, como supô-los produzidos por uma força muito menos enérgica exercendo-se num espaço de tempo mais ou menos longo. A tendência pronunciada de nossos cientistas, porém, é dar sempre à atuação dessa força a maior latitude possível no tempo, de sorte a sair ganhando este toda vez que houver de ser confrontado com aquela. Ora, pretender por esse processo limitar o poder de Deus na formação do mundo, baseado unicamente nos fatos incertos observados e nos minguados conhecimentos que possuímos das leis naturais, é a coisa mais curiosa e ridícula que imaginar se pode.
Não há nada, pois, que nos obrigue a prescindir de nossa interpretação ordinária dos seis dias da criação, mas manda a sinceridade que aceitemos os fatos como eles são. A palavra hebraica iom, que é invariavelmente traduzida “dia”, em todas as relações, significa primeiramente o dia considerado em oposição à noite, isto é, o tempo alumiado pelo Sol (13). É nesse sentido que está empregada no versículo 16 do Gênesis, primeiro capítulo, onde se diz que o Sol devia presidir ao dia, e a Lua à noite. Designa além disso o dia civil, isto é, um dia ordinário de vinte e quatro horas, compreendendo uma sucessão regular de luz e trevas, chamadas no versículo 5, respectivamente, dia e noite. À parte essas acepções estritas, a palavra iom é empregada também no sentido translato de “tempo” mais particularmente no plural, mas também no singular, podendo expressar um espaço de tempo indefinido. Assim por exemplo “nos dias de Noé”, quer dizer “no tempo em que Noé vivia”; “no fim dos dias”, devemos entender “ao cabo de um certo lapso de tempo”; kol ha-iom significa não só “todo o dia”, como também “todo o tempo, sempre” (14); be-iom podemos traduzir “no dia”, e também “quando, em qualquer tempo” (15), como nesta passagem: “No dia em que dele comeres, etc.” (16), quer dizer, “quando, em qualquer tempo que dele comeres, etc.” No caso vertente, porém, uma tal hipótese está absolutamente excluída, a não ser que quiséssemos interpretar metaforicamente também as expressões ereb e boqer, (“tarde” e “manhã”) (17) que evidentemente restringem o sentido da palavra iom, não permitindo outra interpretação que a de um dia literal, um espaço de vinte e quatro horas. Ora ereb e boqer não têm ao que consta outro sentido no hebraico que aquele que também nós emprestamos a essas palavras, e mesmo que tivessem não se poderia admitir outro na presente conjunção, porque depois do aparecimento da luz e feita a distinção entre a luz e as trevas, chamando Deus à luz dia e às trevas noite, o relator diz que veio a tarde, depois a manhã, que é o reaparecimento da luz, e que isto perfez um dia (18).
Finalmente é excusado insistir mais sobre este ponto, porque seria curioso que o poder criador, ilimitado como é, exigisse para cada uma das diferentes criações um espaço de tempo mesmo limitado como esse, e de mais a mais, uniforme para todas elas. “Deus falou e foi feito, mandou e logo apareceu”, é como noutro lugar descreve a Bíblia o processo da criação (19). A ação do poder criador prescinde em última análise do fator a que chamamos tempo; mas se a Bíblia, não obstante, assina aos diversos atos criadores intervalos de tempo uniformes e regulares, não é porque eles tomassem justamente esse tempo, mas porque essa ordem e uniformidade obedecem ao intuito de uma instituição religiosa, que o mesmo relatório claramente revela e cujo estudo é o objeto do presente livro (20). O fim do relatório do Gênesis não é, pois, como muitos erradamente pretendem, fazer uma exposição científica da criação do mundo, nem dar-nos um sistema de geologia, botânica, astronomia ou zoologia, e sim dar-nos juntamente com um conhecimento geral da origem das coisas, as bases e a justificação de uma das mais importantes instituições da religião, que é o repouso do sétimo dia.
Muita prevenção tem sido no entanto criada ao relatório do Gênesis com atribuirem-se-lhe idéias que ele absolutamente não inculca e com interpretarem-se erroneamente algumas de suas passagens. A Bíblia, tendo por fim instruir-nos para a salvação, não se ocupa de ciências naturais e, quando aparentemente entra nesse domínio, não é com o fim de enriquecer os nossos conhecimentos a tal respeito, e sim visando algum fim espiritual ou religioso, falando então sempre a linguagem comum dos mortais e tratando as coisas do ponto de vista exclusivo destes. “A Astronomia”, disse Kepler (21), “ensina a conhecer as causas que atuam sobre a natureza, e retifica ‘ex professo’ as ilusões da ótica. A Sagrada Escritura, que ensina as verdades mais sublimes, serve-se das locuções usuais a fim de ser compreendida; não é senão por incidente que ela fala dos fenômenos da natureza, e então emprega os termos de que se serve o comum dos homens. E a Escritura não se teria exprimido de outro modo, ainda quando todos os homens conhecessem perfeitamente a causa das ilusões da ótica; porque nós, os astrônomos, não aperfeiçoamos a ciência astronômica com intenção de modificar o uso da língua, mas queremos abrir as portas à verdade, conservando a mesma terminologia. Nós dizemos com o povo: Os planetas param, voltam ... o sol nasce e põe-se, sobe para o meio do céu, etc. ... Falamos com o povo, exprimimos o que parece passar-se diante de nossos olhos, posto que nada de tudo isto seja verdadeiro, entretanto todos os astrônomos estão de acordo. Devemos tanto menos exigir da Escritura sobre este ponto, quanto é certo que ela, se abandonasse a linguagem ordinária para tomar a da ciência e falar em termos obscuros, que não seriam compreendidos daqueles que ela quer instruir, confundiria os simples fiéis, e não conseguiria o fim sublime que se propõe”.
O que Kepler aí disse é tão intuitivo, que custa a compreender como é que homens de notável saber pudessem exigir outra coisa à Bíblia. Ora, se o relatório do Gênesis, divertindo o grande fim que tem em vista, falasse a linguagem divina, descrevendo os atos da criação do ponto de vista do seu grande Autor, nem ainda o século XX com toda a sua alardeada sabedoria seria capaz de compreendê-lo, e correria o risco de ser ainda uma vez votado ao desprezo pela simples ignorância deste.
Nem mesmo como objeto de revelação o hexameron poderia ser concebido numa linguagem diversa daquela em que nos é apresentado. O relator, se não assiste em pessoa à criação, tem pelo menos uma revelação desta, e descreve-a, como qualquer vidente, do seu ponto de vista exclusivo, consoante as impressões que tem das coisas que se desenrolam ante os seus olhos, e a própria linguagem atribuida a Deus tem por sua vez de amoldar-se ao que o relator vidente é capaz de perceber e compreender de tudo quanto se passa.
Passando em revista o hexameron, devemos ter presente que há aí coisas que são criadas ou formadas, e outras que simplesmente aparecem, e que, portanto, já existem: Deus falou e foi feito, mandou e logo apareceu (22). Quando o relatório diz que “no princípio criou Deus os céus e a terra” (23), devemos não confundir estes termos. A terra a que se refere não é o nosso planeta como um corpo celeste. Este já existe. O relatório menciona claramente os céus em primeiro lugar, depois a terra, e isto através de toda a Bíblia. É uma circunstância que não devemos desprezar. Os céus foram, portanto, a primeira coisa a ser feita, em seguida a terra. A luz, cujo aparecimento é o ato do primeiro dia, não foi feita; ela já existe, como também já existem o Sol e a Lua, e todo o nosso sistema planetário; ela apenas aparece: “Disse Deus: Haja luz, e houve luz” (24). O hexameron refere-se pois exclusivamente ao que é criado e feito aparecer sobre o nosso planeta.
Como vimos, os céus são a primeira coisa da qual se diz que ela foi feita. A palavra šamajim, traduzida “céus”(25), significa porém literalmente as “águas opostas ou superiores”, as “águas de cima”, a “atmosfera”. Esta é a obra do segundo dia, quando Deus diz: “Faça-se um firmamento no meio das águas (referindo-se à água líqüida que cobre o nosso planeta e à água gasosa ou aos vapores d’água suspensos sobre a mesma), e haja separação entre águas e águas. Fez pois Deus uma expansão no meio das águas e dividiu as águas que estavam debaixo da expansão das águas que estavam por cima da expansão; e assim se fez. Chamou Deus à expansão céus (šamajim, “águas opostas, superiores ou de cima”)” (26).
A terra, que vem em segundo lugar, é o elemento seco que aparece depois de criados os céus, e é a obra do terceiro dia, quando Deus diz: “Ajuntem-se num só lugar as águas que estão debaixo dos céus (šamajim), e apareça o elemento seco. E chamou Deus ao elemento seco terra (éréts) (27) e ao ajuntamento das águas mares (iammim)” (28),(29). Temos pois em primeiro lugar a criação dos céus (šamajim), depois a da terra (éréts), finalmente a reunião das águas, mares (iammim, plural de iam, mar (30)), concordando isto com a ordem mencionada também no preceito do sábado: “Em seis dias fez o Senhor os céus (šamajim), e a terra (éréts) e o mar (iam)” (31), donde se evidencia que a palavra terra (éréts) no primeiro versículo do Gênesis se refere exclusivamente ao elemento seco que Deus fez aparecer no terceiro dia e não ao nosso globo terrestre. Isto é também corroborado pela seguinte declaração do apóstolo Pedro em sua segunda epístola: “Isto de propósito esquecem, que eram já dantes os céus e a terra que da água e no meio da água subsiste pela palavra de Deus” (32).
Esta terra, antes do ato do terceiro dia, conquanto subsista já dentro da água que cobre o planeta, não apresenta aos olhos do observador forma apreciável: está sem forma e nua (vazia), isto é, despida do ornamento de que se reveste do terceiro dia em diante. Cobrem-na por completo as águas e as trevas. Ao mando de Deus a luz penetra as densas camadas de vapores e com ela o calor; os vapores se expandem e se elevam, ato do segundo dia, criando-se os céus, as águas superiores, que é como Deus chama à expansão. Deus faz então separação entre a luz e as trevas, isto é, opera-se a rotação da Terra e a luz caminha para o seu limite (33): veio a tarde, diz o relator, depois a manhã - a rotação completa-se - reaparece a luz - um dia!(34)
Segue-se a operação do segundo dia, por sua vez intimamente ligada à do terceiro. Os vapores continuando a expandir-se e a elevar-se formam aos olhos do observador o firmamento azul que ele descreve como a expansão separadora entre as águas que vira subir e as águas cá debaixo (35). É o que Deus denomina as águas superiores ou os céus, e que na mitologia egípcia era considerado o mar ou o oceano celeste (36). O volume d’água cá debaixo continua diminuindo até finalmente aparecer o elemento seco, operação que aos olhos do observador se afigura como a reunião das águas num só lugar, pelo que a linguagem divina deve por sua vez amoldar-se inteiramente ao ponto de vista deste. Já que não se trata de dar-nos uma cosmogonia real (37), que não é o fim da Bíblia e que nós nem sequer compreenderíamos, é suficiente um conhecimento dos seus contornos gerais, satisfazendo isto plenamente ao fim que a Bíblia tem em vista. Está quase completa a operação do terceiro dia e criados estão os céus (águas superiores), a terra (o elemento seco) e o mar (a reunião das águas), mas a terra continua vazia.
Os vapores d’água suspensos nos ares, posto que já bastante rarefeitos, apresentam todavia ainda densidade suficiente para ocultar aos olhos do observador o disco do Sol, da Lua e das estrelas. A luz do Sol, coando-se através desses vapores, desenvolve sobre a terra úmida condições propícias à vegetação, mas não ao reino animal. O relatório é perfeitamente coerente. Segue-se a criação do reino vegetal e completa-se a obra do segundo dia, que deixara a terra já com forma, mas ainda núa. A terra recebe agora a sua vestimenta (38). É só então que o observador diz que Deus “Viu que era bom” (39), frase que ele repete depois da obra de cada dia, mas que propositalmente omitira com relação à do segundo, por estar aquela obra ainda incompleta.
Raia o quarto dia. O firmamento já bastante transparente deixa entrever o astro do dia, e depois a Lua e as estrelas. “E disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite, e sejam eles para sinais, e para tempos determinados, e para dias e anos. E sejam para luminares na expansão dos céus, para alumiar a terra, e assim foi” (40).
A linguagem está de perfeito acordo com as impressões que tem o relator ao contemplar o aparecimento desses astros, e considerar do seu ponto de vista as suas aparentes funções respectivas. São luminares, um maior outro menor. Não têm ainda designações especiais, mas alumiam a terra, um de dia outro de noite, fazendo separação entre a luz e as trevas. Da operação mesmo, que deu lugar ao seu aparecimento, o relator nada percebe, ele só descreve o que vê, que um é maior e outro é menor (é o relator quem o diz) e acrescenta o que sabe de certo, a saber: que Deus criou esses luminares, e também as estrelas, e os colocou ali na expansão dos céus (é este o seu ponto de vista) para alumiar a terra, para governar o dia e a noite, e fazer separação entre aquele e esta, repetindo com estas últimas palavras tudo o que Deus disse, menos que deviam servir de sinais para tempos determinados (meses) e anos, por estarem estas coisas ainda fora do raio de suas observações de momento (41). A linguagem extremamente concisa não omite particularidade alguma essencial, como também não acrescenta coisas descabidas. Completa-se assim a operação do quarto dia, a qual é descrita somente quanto aos seus efeitos visíveis. Com ela, porém, estão criadas as condições indispensáveis à vida animal, que é a obra do quinto e sexto dias, começando pelas ordens inferiores e rematando pelas superiores. Digo superiores com respeito ao homem. Exceptuado este, o reino animal não obedece a nenhuma classificação especial e tanto assim que onde o mandamento de Deus coloca em primeiro lugar os animais domésticos, em segundo os répteis e por último as feras, o relator mesmo tudo inverte, mencionando em primeiro lugar as feras, em segundo os animais domésticos e por último os répteis (42), mostrando com isto que uma classificação como nós a entendemos não é absolutamente o objeto da revelação. A única distribuição feita é por ordem de habitações, isto é, dos meios em que esses animais estão destinados a viver: primeiro são criados os habitantes das águas, e os voláteis, os animais que voam na expansão dos céus ou das águas superiores; depois os animais da terra, que devem povoar o elemento seco, inclusive o homem, de sorte a ficar tudo compreendido nesta só expressão: “E fez o Senhor os céus, a terra e o mar, e tudo o que neles há” (43). O relator só distingue animais, cujo elemento é a água, animais que voam no espaço, e animais que andam ou se rojam sobre a terra. A ordem em que eles, respectivamente, são criados deve ser-lhe indiferente (44).
A obra do quinto dia, em que são criados os habitantes das águas e do ar, é uma obra em si completa, fechando por isso o relatório com a declaração: “E viu Deus que isso era bom” (45), que o relator, como já o fizemos notar, omitiu com relação à obra do segundo dia, que só ficou completa no terceiro, criando-se os três meios: os céus, a terra e o mar.

Figura 2 - Classificação Bíblica dos Seres Viventes
Tentativa de sistematização, a partir dos textos de Gênesis, Levítico e Deuteronômio, feita pelos Editores
(constante da versão impressa).

A obra do sexto dia, porém, que compreende a criação dos animais terrestres destinados a povoar o elemento seco é dividida em dois atos distintos. Criados que são os animais domésticos, as feras, etc., o relator encerra o primeiro ato da criação desse dia, declarando que “Deus viu que isso era bom” (46), passando a descrever então o segundo ato, que compreende a criação do homem. Posto que o homem seja, como os demais seres terrestres que o precederam, um ente animal, terreno - sendo por isso mesmo criado juntamente com aqueles num mesmo dia, e devendo com aqueles habitar e povoar o elemento seco, a terra - a revelação contudo não o confunde com os primeiros. Separa claramente a sua criação da dos outros animais. Ao passo que todo o resto da criação se opera prontamente a um simples fiat, a do homem é precedida de deliberação e de cálculo. O ser que agora vai ser criado deve ser de algum modo distinto dos demais, ele deve assemelhar-se nalguma coisa ao próprio Criador. “Façamos o homem à nossa semelhança”, disse Deus. Como? - “Domine ele ... sobre toda a terra!” (47) Em vez de ser ele uma criatura sujeita como a restante, seja ele, à semelhança de Deus, livre, e domine sobre toda ela! É a representação desta verdade moral, de excepcional alcance, mais um dos grandes objetivos do hexameron.
A dignidade de senhor do mundo visível, recebida de Deus, explica também a razão por que o homem foi criado por último. Devendo ser criado para ser constituído senhor de toda a criatura, era mister que esta o precedesse na existência, como muito bem se exprimiu Gregorio de Nissa: “Não era conveniente que o senhor existisse antes daqueles a quem devia mandar. Só depois que tudo estava preparado para receber o rei é que este devia aparecer. Eis a razão por que o homem foi criado depois de todas as outras coisas; não foi colocado no fim por ser mais insignificante, mas porque, apenas criado, devia ser o rei de todos os seus súditos” (48).
A criação do homem, obedecendo ao plano premeditado de ser este constituído o dominador da Terra, naturalmente se afasta da dos outros animais, para se tornar um ato especial e distinto que torna o homem um ser moral responsável, feição esta pela qual absolutamente não se deve confundir com aqueles. Como tal ele deve naturalmente ser dotado de todas as prerrogativas inerentes às suas funções: deve ser um ente livre, com capacidade suficiente para assumir a responsabilidade de seus atos, e de tudo isto forçosamente se deduz a sua organização superior.
Feita a entrega ao homem, em termos formais, do domínio desta terra, necessário se tornava prevenir também, por uma medida liberal, que ele exorbitasse de suas legítimas funções. Dominando sobre todas as criaturas, não devia estender esse domínio sobre seus semelhantes. Deus, entregando-lhe o domínio de tudo, reservava para Si o domínio daqueles que havia feito à Sua semelhança. O homem devia pois reconhecer sobre si a legítima soberania d’Aquele que o fizera livre, para servir a Deus inteligentemente, conforme os ditames de sua consciência, de modo a não exceder as suas legítimas atribuições exaltando-se a si próprio e sujeitando os seus semelhantes, que é a egolatria e a equiparação de si próprio com Deus, que foi justamente a origem do pecado. Este reconhecimento devia ser um ato de sua própria vontade; fornecendo-lhe Deus apenas o meio de manifestá-lo e de praticá-lo na instituição do sábado.

Artigo publicado na

Folha Criacionista 52

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Mensagem em Sab Jul 17, 2010 12:18 pm por Eduardo

EXEGESE DE GÊNESIS 1.1,2

Texto Hebraico Massorético:
`#r,a'h' taew> ~yIm;V'h; tae ~yhil{a/ ar'B' tyviareB.
~Aht. ynEP.-l[; %v,xow> Whbow" Whto ht'y>h' #r,a'h'w> 2
`~yIM'h; ynEP.-l[; tp,x,r;m. ~yhil{a/ x;Wrw>


Versículo 1

tyviareB. (bereshit), B. (be), “em”, “com”, “quando” + tyviare (reshit) “começo”, “princípio”. Tradução: “em princípio”. Literalmente, para a tradução clássica “no princípio”, deveria estar vocalizado tyviareB; (bareshit), conforme sugerido por Orígenes. Por estar sem o patach que indica a presença do artigo, alguns sugerem que aqui reshit está no construto com a palavra arb, fazendo com que a expressão arb tyvarb fosse traduzida “quando começou a criar”. A palavra reshit fala de um princípio longínquo na história, em contraposição com a palavra mais genérica para começo, hL'xiT. (techilah), esta podendo ser traduzida “em primeiro lugar”, como em Pv 9.10.

ar'B' (bara), forma da 3a. pessoa masculina do singular do completo paal da raiz arb, significando “criar”. No texto bíblico, este verbo é de uso exclusivo de Deus, algo que somente Ele como Ser Onipotente pode realizar. Tradução: “criou”.

~yhil{a/ (elohim), “Deus”, “deuses”. Somente o verbo define uma ou a outra tradução. Como o verbo está no singular, aqui o significado é “Deus”.

tae (eth), partícula que apenas marca o objeto direto na oração, e portanto não traduzida.

~yIm;V''h; (ha-shamayim), h , artigo definido + ~yIm;V' (shamayim) “céus” . Tradução: “os céus”.

taew> (veth), w conjunção “e” (esta conjunção também pode significar “mas”) + tae , partícula demarcativa do objeto direto .

#r,a'h' (ha-aretz), h , artigo definido + #r,a, (eretz), “terra” (no sentido de território, em contraposição a hm'd'a], adamah, que refere-se à terra cultivável, Gn 2.7). Tradução “a terra”.

Versículo 2

#r,a'h'w> (veha-aretz), w conjunção “e” + h , artigo definido + #r,a, (eretz), “terra”. Tradução: “e a terra”, ou “mas a terra”.

ht'y>h' (haytah), forma da 3a. pessoa feminina do singular do completo paal da raiz hyh, “ser”, “estar”, “tornar-se”. Traduções: “era”, “estava”, “tornou-se”.

Whto (tohu), palavra de difícil tradução, que aparece em dezenove versículos (Gn 1:2; Dt 32:10; 1 Sm 12:21; Jó 6:18; 12:24; 26:7; Sl 107:40; Is 24:10; 29:21; 34:11; 40:17,23; 41:29; 44:9; 45:18,19; 49:4; 59:4; Jr 4:23). Sugere em todos estes contextos confusão, área desértica, cidade destruída, confusão moral, irrealidade, inexistência, carregando um sentido pejorativo e negativo. A Septuaginta aqui traduziu por avo,ratoj (aoratos), “invisível”. Alguns dizem que aqui é uma corruptela da palavra hebraica tehom (veja abaixo).

Whbow" (va-vohu), w conjunção “e” + WhBo (bohu). A palavra bohu comparece apenas três vezes no texto bíblico (Gn 1.2; Is 34.11; Jr 4.23), e sempre acompanhada da palavra tohu. A tradução costumeira parece ser confirmada por comparação com o árabe بَهِىَ (bahyia), “vazio”. A Septuaginta traduziu por avkataskeu,astoj (akataskeuastos), “desmobiliado”. A expressão tohu va-vohu poderia ser entendida “um deserto informe”. Mas a tradução tradicional, “sem forma e vazia”, parece ser a chave de entendimento para o contexto dos versículos seguintes: nos três primeiros dias da criação os céus e a terra recebem a sua “forma”, enquanto nos últimos três o “vazio” é “preenchido”. Há quem diga que esta palavra seria uma corruptela da palavra hebraica tAmheB. (behemot), o monstro descrito em Jó 40.15ss. Veja abaixo a palavra tehom.

%v,xow> (ve-chosher), w conjunção “e” + %v,xo (chosher), “escuridão”, “trevas”. Tradução: “e escuridão”, “e trevas”.

ynEP.-l[; (al-pney), l[; (al), “sobre” + ynEP. (pney), construto plural de hn

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Mensagem em Sab Jul 17, 2010 12:37 pm por Eduardo

"Tohu em Gênesis 1:2 ea causa da escuridão."

Na palavra hebraica Tohu (descrevendo a terra em Gênesis 1:2) não tem "ruína" nos significados indicados na medida em que eu possa encontrar. Strong perde lista, informe, a vaidade, o lugar do caos e tal, mas não arruinar . Eu olhei para a ruína e tenho 11 entradas fortes. Fiquei me perguntando por que você escolheu "ruína" em seu trabalho. Eu não estou tão certo de que não iria funcionar deserto também. Eu ainda não terminaram seus trabalhos, no entanto, eu comecei este fim de semana passado, e não tenho uma opinião firme ainda, mas posso dizer-lhe que o que você diz, nesta fase inicial, pelo menos, faz um monte de sentido. Eu só tenho até a parte onde "Quem não criá-la em vão (um desperdício) (ruína)" Is 45:18 Muito interessante.
Resposta # 1:

Eu não sou o único a utilizar esta opção para tohu. A VNI tem a seguinte tradução para um versículo em Isaías, capítulo 24 em que tohu ocorre quando o contexto é que vem tribulational Senhor devastação da terra (ou seja, o resultado de uma destruição ativa em oposição a um caos passiva):

O arruinado [cidade] tohu está desolado, Isaías 24:10 NVI um
O hebraico aqui é tohu qiriyath nishberah, que podemos render para os nossos propósitos aqui "a cidade [agora caracterizado por tohu] foi quebrado". Driver Brown Briggs diz sobre tohu "significado primário de difícil apreensão", eo vocabulário teológico do Antigo Testamento, do mesmo modo salienta que a falta de cognatos semitas torna a interpretação dessa palavra depende exclusivamente nossa análise da sua utilização no contexto da OT Na minha análise, sugere tohu geralmente o resultado de um processo ativo de destruição, e essa é a principal conotação de "arruinada" (uma conotação que é perdido quando um torna como um "resíduo, sem forma, a vaidade, ou no lugar do caos") .

"Edição de Tregelles" léxico Gesenius sugere como definição de Toú, entre outras coisas, "o que é desperdiçado", "destruição", e para o Is.24: 10 passagem acima citada, a tradução "da cidade desolada". Na minha opinião, destruída, devastada, desolada, em ruínas são todos tão intimamente como sinônimo de deixar pouco para escolher entre elas. O ponto é que tohu em Gênesis 1:2 representa o resultado de um evento destrutivo ao invés de alguns primordial, o caos "original". Para ter certeza, na mitologia grega e romana (e na cosmologia científica moderna), esta é a maneira como o mundo é compreendido para ter começado (ou seja, em um informe e disforme massa caótica, cf.'s Metamorphoses livro Ovídio I, e The Big Bang " teoria ", respectivamente). Portanto, nossa compreensão da frase tohu ve bhohu Gênesis 1:02 é realmente crítico para a nossa interpretação de Gênesis (assim como a rebelião de Satanás e muitas outras coisas). Se se vê nesta frase um caos original, pode-se Genesis quadrado com a mitologia ea ciência. No entanto, se vemos que estas palavras se referem aos resultados do do julgamento de Deus ao invés de alguma confusão primordial, chega a conclusões completamente diferentes, as conclusões que permitem tanto uma criação original perfeito, e para a rebelião satânica que constitui o tema do série que você está lendo.

Finalmente, para retornar à passagem de Isaías 45:18, é coerente com a minha compreensão da Escritura e do caráter do nosso Deus, que Ele criou tudo perfeito, em primeiro lugar - cada ato e ação de Deus do qual somos informados nas escrituras (ou vimos com nossos próprios olhos) confirma isso. Se a situação em Gênesis 1:02 eram realmente para descrever o "primeiro esforço de Deus" da criação como resultante apenas de um informe, o caos incompleta, isto seria completamente original na Escritura e, em minha opinião, algo completamente incompreensível e incoerente com Sua divina personagem.

Génesis fala em seis dias normais



Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou: portanto, abençoou o Senhor o dia do sábado, e o santificou.
Êxodo 20:11



A linguagem dos capítulos 1 e 2 de Génesis é tecnicamente precisa e linguisticamente clara. Qualquer leitor pode entender que o Autor de Génesis tencionava reportar uma criação que durou seis dias normais, envolvendo a intervenção Sobrenatural de Deus em criar ex-nihilo, e em fazer e moldar alguma coisa básica em outra mais complexa.


Três dos dias (Dia 1, Dia 5, Dia 6) envolvem criação. Os outros três dias (Dia 2, Dia 3, Dia 4) envolvem organização, integração e estruturação do material criado no Dia 1.

A vida foi criada no Dia 5, vida essa partilhada pelo Homem e pelos animais. Um imagem especial de Deus foi criada no Dia 6 que só o Homem tem. A progressão de "simples para complexo" pode parecer seguir a mitologia evolutiva, mas a ordem específica (água >> terra >> plantas >> corpos estrelares e celestiais >> áves e peixes >> animais terrestres >> Homem) contradiz essa posição.

A palavra hebraica para dia (yom) é usada cerca de 3,000 vezes na Bíblia Hebraica e quase sempre tem o significado de um dia normal (24 horas). Nas poucas ocasiões em que a palavra é usada para classificar um período de tempo indefinido, o contexto claramente mostra que o significado da palavra não é um dia normal ("dia da tribulação", "dia do Senhor", "dia da batalha", etc). Sempre que a palavra dia é usada com um número ordinal (1, 2, 1º, 2º, etc) o seu significado é sempre o de um dia normal de 24 horas.

A linguagem de Génesis aparenta ter sido construída de modo a que o leitor não tenha dificuldades em entender que a palavra "dia" nada mais é o de um dia normal. A parte iluminada do dia é chamada de "Dia" e a porção não iluminada é chamada de "Noite". Depois disso, a "tarde e a manhã" são o Dia 1, Dia 2, etc. A fórmula linguística é repetida em cada um dos seis dias, situação curiosa se os dias tem que ser entendidos como "alegóricos" ou análogos a outra coisa que não ao ciclo dia-noite.

Quando o Criador escreveu os Dez Mandamentos com o Seu Próprio Dedo (sem dúvida a acção mais enfática feita por Deus em Nome da Sua Palavra), Ele especificamente designou o sétimo dia como sendo o dia do "Sabbath" (descanso) em memória e em honra do Seu próprio trabalho durante a Criação (seis dias de criação e ao sétimo dia "descansou" - Êxodo 20:11).

Naquele contexto, falado e escrito Pelo Próprio Deus, a Semana da Criação só pode significar uma semana de 7 dias, sendo que um dos dias é separado como dia Santo.
Conclusão:

Provavelmente ti és daqueles cristãos que acredita nos mitológicos milhões de anos mesmo sendo totalmente anti-evolucionista. A questão é a seguinte: se Deus tivesse criado o universo em seis dias, como é que Ele te poderia demonstrar isso por palavras?


Dito de outra forma: imagina que tu estás no lugar de Deus e queres que a Humanidade saiba que o universo tinha sido feito em 6 dias. Como é que deixarias isso por escrito?

Se fores honesto contigo próprio, vais ver que a forma como tu o revelarias ao Homem é muito parecida (senão idêntica) com a forma como Deus a declarou em Génesis.

Assumindo que o universo tem os mitológicos "milhões de anos", se Deus é Omnisciente, de certo que Ele saberia que mais tarde ou mais cedo haveriam de aparecer pessoas (criacionistas) a afirmar que Génesis demonstra um universo recente e que Deus criou em seis dias normais. Porque é que Ele não revelou que os dias de criação tinham sido "numerosos como a areia do mar" ou "como as estrelas do céu"?



"Que deveras Te abençoarei, e grandissimamente multiplicarei a tua semente, como as estrelas dos céus, e como a areia que está na praia do mar" Génesis 22:17




A razão mais lógica é que...Deus não falou em numerosos dias de criação porque Ele não demorou mais do que 6 dias para criar o Universo. Isto é um problema grave para a teoria da evolução (que desesperadamente precisa dos mitológicos "milhões de anos") mas nada que afecte a ciência ou a História.

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