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Lei e Graça: Antes da Cruz e depois da cruz



Pré-Cruz ou Pós-Cruz?

Mas - vem a objeção - Paulo não disse claramente aos romanos, que não estavam mais "debaixo da lei" mas "debaixo da graça?" Sim, disse. Mas com tais expressões queria ele acaso dizer que não necessitamos guardar os mandamentos contra o adultério, a idolatria, o homicídio, o roubo, a mentira, etc., enfim o conteúdo do Decálogo?

De modo nenhum, pois os argumentos narrados na mesma epístola são contrários a essa desastrosa conclusão. Leia por exemplo os capítulos de Romanos 3:31; 7:12 e 14; 7:22 e outras passagens. Analisaremos, com muita atenção, o verdadeiro sentido da expressão de Paulo. Qual o assunto que Paulo tinha em mente ao escrever aos crentes de Roma?


  • Estaria ele querendo diferenciar a lei do Velho Testamento e a lei do Novo Testamento? Não!
  • Queria ele estabelecer conflito ou contradição entre a lei e graça? Também não!
  • Estaria indicando várias maneiras de salvação? Não!! Romanos 3:31.
Então a que se referia o apóstolo, ao dizer "debaixo da lei" e "debaixo da graça"?


  • Referia-se à mudança do que ocorre no indivíduo por ocasião de sua conversão, mudança do "velho homem" para o "novo homem", do pecado para a santidade, da condenação fatal para a graça livradora.
Paulo está se dirigindo a homens crentes, a cristãos batizados, a homens convertidos. Não a ímpios, pagãos ou a transgressores da lei divina. Leia Romanos 6:1 a 5. E prossegue o verso 6: "sabendo isto que o nosso homem velho foi com Ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não mais sirvamos o pecado". Claro como a luz que o capítulo se refere à conversão e não à mudança de dispensações. Notemos cuidadosamente o que ele diz: "assim também considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor." (Romanos 6:11).
A respeito de quem se afirma isso? Somente a respeito do homem convertido - membros da igreja de Roma, que não mais transgrediam a Lei, pois viviam em harmonia com ela. Paulo os exorta a não mais volverem ao pecado. "Não reine, portanto o pecado, em vosso corpo mortal..." (v. 12). Pecado - como define a Palavra de Deus - é transgressão da Lei [Dez Mandamentos] (I João 3:4). Paulo está exortando os romanos a não se deixarem arrastar pelas paixões carnais, voltando assim a transgredir a Lei de Deus. E no (v. 14): "Porque o pecado não terá domínio sobre vós... Por quê? Por que a lei foi abolida? Não. Mas porque já tinham abandonado o pecado, cessaram de transgredir a Lei.
O próprio argumento de Paulo mostra, de modo inequívoco, que era precisamente isto que ele queria dizer. "...o pecado não terá domínio sobre vós, porque não estais debaixo da lei (não mais a transgredis, não estais mais sujeitos à sua condenação, não colocais debaixo dela como antes) mas debaixo da graça (do favor imerecido que Deus vos concedeu de serdes redimidos por Cristo)."
O sentido exato e completo do v.14 é este: "tendo abandonado os vossos pecado, tendo cessado de quebrar a Lei, tendo crido em Cristo e sendo batizados, vós agora não sois mais governados pelos pelo pecado ou pelas paixões, nem sois condenados pela Lei, porque achastes graça à vista de Deus, que vos concedeu este favor imerecido, e os vossos pecados foram apagados."
Claríssimo! Portanto, não estar debaixo da lei, é não está sobre a sua condenação. Não há conflito entre Lei e Graça. "Por quê? Pecaremos (isto é transgrediremos a lei) porque não estamos debaixo da lei (da sua condenação) mas debaixo da graça (do favor divino)? De modo nenhum." Portanto, a própria conclusão do apóstolo Paulo destrói inteiramente a tese de um suposto conflito entre Lei e Graça. Mesmo porque se "não estar debaixo da lei" significa que não devemos obedecer-Lhe, segue-se portanto que podemos transgredir-la à vontade. Porém Paulo destrói imediatamente esta idéia blasfema com um categórico "De modo nenhum!".
Credenciada autoridade evangélica sentenciou, com relação a Romanos 6:14: "A graça não importa em liberdade para pecar, mas numa mudança de senhores, e numa nova obediência e serviço. A graça não anula a santa Lei de Deus, mas unicamente a falsa relação do homem para com ela." 1
Outra passagem - muito ao gosto dos negadores da lei - é Gálatas 5:18: "... se sois guiados pelo Espírito não estais debaixo da lei." Também neste caso, quais os que não estão debaixo da lei? Somente os que são guiados pelo Espírito, ou seja convertidos, os fiéis, os crentes, os que não seguem as concupiscências, os que não transgridem a Lei de Deus - em suma os que não cometem pecado. Os ímpios os pecadores não são guiados pelo Espírito, por isso eles estão debaixo da lei, da sua condenação, porque as transgridem. Não há aí a mais leve alusão de abolição da Lei de Deus. Só uma interpretação obtusa conduziria a tal conclusão.
Consideremos agora a absurda interpretação de alguns. Dizem que pela expressão "não estamos debaixo da lei" Paulo quis dizer que a lei foi abolida e, portanto, não precisamos mais cumprir os seus preceitos. Passou a lei, sua época e sua função - segundo dizem. Ora, se isto é verdade, então ninguém está debaixo da lei, quer seja ou não guiado pelo Espírito. Daqui não há como fugir. Mas Paulo combate este erro, declarando explicitamente que a fim de não estarmos debaixo da lei, temos que ser guiados pelo Espírito.


A idéia de se estar "livre da lei" e de sua obediência não é nova. Ela surgiu, pela primeira vez, em 608 A.C., aproximadamente, nos tempos do profeta Jeremias. Naquele tempo, este argumento indigno foi empregado pelo rebelde povo de Judá a fim de justificar a sua transgressão da lei de Deus. Consulte-se, de preferência nas versões Brasileiras ou Trinitária, a repreensão de Deus ao Seu povo, em Jeremias 7: 8 a 10: "Eis que vos confiais... furtareis, matareis, adulterareis... e direis: fomos livrados a fim de fazer todas estas coisas."


Um fato inegável: os cristãos de qualquer denominação crêem que eles não devem jurar, matar, furtar, mentir, cobiçar, etc. Em outras palavras, crêem que devem guardar os mandamentos. Os adventistas crêem o mesmo, com a diferença que o fazem em relação a todo o Decálogo, incluindo necessariamente o quarto mandamento.

Ora, se nós, os Adventistas do Sétimo Dia, estamos "debaixo da lei" porque cremos na guarda dos Dez Mandamentos, então os demais cristãos estão nove décimos (ou noventa por cento) debaixo da lei, pelo fato de guardarem nove preceitos do Decálogo. "Coerência, és uma jóia."
Outro fato de suma gravidade: costuma-se usar a expressão "não estar debaixo da lei" mas "debaixo da graça" unicamente para se "justificar" a desobediência ao quarto mandamento. Ninguém a emprega para justificar a quebra de outros mandamentos do Decálogo. Cremos honestamente que aqueles que a usam para fugir a guarda do sábado, não sentem nenhum desejo de roubar, matar ou adulterar. Certamente que essas coisas lhes causam horror. Mas, com tal atitude, apenas provam que não é o mandamento de Deus que os inibe de fazer de adulterar, matar, cobiçar, etc., mas sim a educação que receberam, a vigilância social e a opinião pública. Se a prática desses horríveis pecados fosse coisa aceita (como o eram em alguns ritos bárbaros), então não hesitariam em dizer que praticariam tais coisas porque "não estão debaixo da lei, mas debaixo da graça".
A tal extremo conduz o anominianismo, servindo-se de suas bases capciosas de argumentação. Note-se que há índios e nativos canibais que matam impiedosamente e a sua consciência não os acusa. Erro grosseiro é supor que a guarda dos mandamentos é questão de consciência. A religião cristã não se baseia na consciência, mas é uma religião revelada. Está escrito o que devemos fazer, e o que devemos evitar de fazer e isto é cumprido quando o Espírito nos toca o coração. A consciência, muita vezes, mesmo crendo estar sendo dirigida por Deus, acomoda-se. A consciência não é um guia seguro. O seguro está na revelação. Vamos cumpri-la. A Escritura tem muito a dizer sobre a consciência, como base precária e enganosa. A Bíblia fala de "consciência cauterizada" (I Timóteo 4:2), consciência "fraca" (I Coríntios 8:7). Somente a revelação divina não se cauteriza nem se enfraquece. É inalterável porque o seu elemento é só divino.



A. B. Christianini, Subtilezas do Erro, 2.ª ed., 1981, pág. 96.
1. Vincent, Word Studies, vol. 3, pág. 11.
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Lei e Graça: Antes da Cruz e depois da cruz :: Comentários

Carlstadt

Mensagem Sáb Fev 06, 2010 7:59 pm por Carlstadt

MORTOS PARA A LEI?
O que significa a expressão paulina “morreram para a lei” em Romanos 7:4?

Por Prof. Azenilto Guimarães Brito

      Assim, meus irmãos, vocês também morreram para a lei, por meio do corpo de Cristo, para pertencerem a outro, àquele que ressuscitou dos mortos, a fim de que venhamos a dar fruto para Deus. (Rm.7:4)
  Analisemos, pois, o “chavão” surrado do “mortos para a lei” (Rm.7:4). O que será que significa essa expressão paulina? Haveria, talvez, três opções para entender este verso, sendo duas ilógicas e uma somente que faz sentido:
     a) “mortos para a lei” significaria que não precisamos mais obedecer a lei 100% Todos os seus mandamentos não devem ser mais respeitados;

     b) “mortos para a lei” significaria que não se precisa obedecer apenas um de seus mandamentos (o sábado). A obediência a nove deles é ainda exigida e o mais engraçado é que obedecê-los não significa ser “mortos para a lei”; ou

     c) é claro que a declaração de Paulo deve ser entendida à luz de todo o contexto de sua discussão sobre a questão da lei versus graça, fé versus obras, justificação e santificação. Essa metodologia de tomar um texto isolado e fazer disso um “cavalo de batalha” já está mais do que desmoralizada, mas parece que alguns não conseguem perceber isso.
  Vejamos o que diz Romanos 6:11: “Assim também, vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus”. Interessante o paralelo: devemos estar “mortos para a lei”, mas também “mortos para o pecado”. Sendo que “pecado é transgressão da lei” (1Jo.3:4), como se pode entender isso? O vs. 12 esclarece tudo: “Não reine, portanto, o pecado [não diz “a lei”] em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões”. Então se há alguma coisa que não devemos obedecer não é a lei ou algum mandamento dela contra o qual resolvamos discriminar, e sim as paixões do pecado. Daí que Paulo mais adiante esclarece: “Porque o pecado não terá domínio sobre vós (o pecado, não a lei), porque não estais debaixo da lei, e, sim, da graça” (Rm.6:14).

  Paulo usa a ilustração da lei do casamento falando de como uma mulher casada está sujeita ao marido até que ele morra (ver Rm.7:1–6). Alguns menos avisados tomam este trecho da Bíblia e em vista de certos pressupostos arraigados não entendem nada do seu sentido, um perigo à luz do que Pedro nos diz em 2ª Pedro 3:15–17. Daí, saem-se com a esdrúxula tese de que o cristão agora, “casado” com Cristo, não tem nada mais que se preocupar quanto à lei divina.

  Mas é exatamente o contrário. O “marido” que morreu não é a lei, e sim o pecado, apontado pela lei, que cumpre exatamente tal papel (ver Rm.7:7). Agora, diz Paulo: “servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra” (Rm.7:6), o que se ajusta maravilhosamente com o que ele fala da obediência sob o Novo Concerto — não segundo a letra das frias tábuas de pedra, mas tendo a letra dessa lei das pedras escrita por Deus (completa) nos corações aquecidos pela graça divina (ver 2Cr.3:3, cf. Hb.8:6–10). A própria ilustração paulina das “tábuas de pedra” indica que ele ressalta todo o conteúdo daquelas “tábuas de pedra’’ a ser escrito no coração do crente sob o Novo Concerto. Ora, não corresponde isso ao que Davi também declarou no Salmo 40:8, “Agrada-me fazer a Tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração está a Tua lei”?

  Servimos ao que? À “justiça”, ou seja, a Deus sendo-Lhe obedientes. Daí que o mesmo Paulo que disse estar morto para a lei (“estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos” — à lei, no que condena o pecador) também proclamou essa lei como “santa, justa, boa, espiritual, prazerosa” (Rm.7:12,22,25) dizendo-se dela “escravo”. E que tal considerar nesse contexto Romanos 8:3, 4, 7, 8? O cristão que tem o Espírito de Deus o demonstrará, não arranjando desculpas esfarrapadas para livrar-se de um dos mandamentos da lei divina, mas pelo cumprimento da “justiça da lei” em sua vida renovada.

  O mesmo Paulo declarou que ‘‘a circuncisão em si não é nada; a incircuncisão também nada é, mas o que vale é guardar os mandamento de Deus.” (1Cr.7:19). Noutras duas passagens paralelas, Paulo esclarece:
      Porque em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão, tem valor algum, mas a fé que atua pelo amor. (Gl.5:6).

      Pois nem a circuncisão é cousa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura. (Gl.6:15).
  Então, vemos aqui a harmonia da tese de Paulo: a parte da lei que envolvia ritos e cerimônias não mais tem qualquer peso. Cumpriu o seu papel de apontar ao “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo.1:29). Resta ao cristão “a fé que atua pelo amor”, que é o que caracteriza quem se tornou “nova criatura”. Daí que Paulo também pergunta: “Anulamos, pois, a lei pela fé?” E ele mesmo responde: “Não, de maneira nenhuma, antes confirmamos a lei.” (Rm.3:31). Quem vive pela fé:
 —> atua pelo amor (ver Rm.13:8–10);
 —> tem uma experiência de nova criatura (2Cr.5:17);
 —> produzirá a justiça da lei em sua vida operada pelo Espírito que confirma (e não anula) a lei (Rm.8:3–4/3:31).

  Deve-se ter em mente que quando os leitores primários das epístolas paulinas (sobretudo Romanos) liam suas constantes referências à lei de Deus (ou de Cristo) sabiam que ele fala dessa lei tendo o Decálogo completo como expressão da mesma para os homens (ver Rm.7:7/13:8–10/Ef.6:1–3).

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Carlstadt

Mensagem Sáb Fev 06, 2010 7:59 pm por Carlstadt

Caros irmãos e amigos

Seria interessante ver como Martinho Lutero, o grande campeão do tema da justificação pela fé, discute esta passagem. Aliás, aproveitemos e vejamos a exegese do mesmo Lutero de outra expressão bíblica tremendamente mal compreendida pelos adeptos da teologia que eu chamo de semi-antinomista (tese da "lei abolida" e assemelhadas), o "estar debaixo da lei".

Citarei os comentários de Lutero sobre os capítulos 6 e 7 de Romanos, da sua clássica obra "Prefácio da Epístola de Paulo aos Romanos". Quem desejar o estudo completo pode solicitar-me por PM ou, melhor ainda, por meu e-mail [url=mailto://azenilto@yahoo.com.br][url=mailto://azenilto@yahoo.com.br]azenilto@yahoo.com.br[/url]:
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Capítulo 6 — A luta diária contra o pecado

No sexto capítulo, o apóstolo trata da obra particular da fé: a contenda do Espírito com a carne em matar por completo os demais pecados e desejos que restam após a justificação, e nos ensina que, através da fé, não estamos libertados dos pecados de forma tal que possamos ficar ociosos, preguiçosos e seguros, como se não mais houvesse pecado. Há pecado, mas ele não é imputado para a condenação, por causa da fé que com ele luta. Por isso temos o bastante para lidar conosco mesmos a vida inteira: Domar o corpo, matar seus desejos e obrigar seus membros a obedecerem ao Espírito e não aos desejos, a fim de que sejamos iguais a Cristo, em sua morte e ressurreição, e realizemos nosso batismo que significa também a morte dos pecados e uma nova vida na graça até que, totalmente puros dos pecados, ressuscitemos na forma corporal com Cristo e vivamos eternamente.

E isso podemos fazer, afirma ele, porque nos encontramos na graça e não na lei, o que ele mesmo interpreta no seguinte sentido: “Ser sem lei” não é o mesmo que não ter lei alguma e que se possa fazer o que apraz a cada um, senão que “estar debaixo da lei” é quando, sem a graça, lidamos com as obras da lei. Então, com certeza, o pecado impera através da lei, uma vez que ninguém por natureza é afeito à lei, e isto é um grande pecado. A graça, porém, nos torna a lei agradável de sorte que não há mais pecado e a lei não está contra nós, mas em harmonia conosco.

Esta é a verdadeira liberdade do pecado e da lei, da qual fala até o final deste capítulo. É uma liberdade de fazer apenas o bem com vontade e de viver corretamente sem a coação da lei. Por isso tal liberdade é uma liberdade espiritual, que não anula a lei, e sim oferece aquilo que é exigido pela lei: vontade e amor, com o que a lei é aplacada e não mais fica a incitar e exigir. É como se estivesses em dívida para com um credor e não pudesses pagar. Há duas maneiras pelas quais poderias livrar-te: Uma, que ele nada lhe cobrasse e rasgasse sua nota promissória; a outra, que um homem bom pagasse por ti, e te desse o suficiente para pagar a promissória. Desta maneira, Cristo nos livrou da lei, razão por que não se trata de uma liberdade carnal e selvagem, que nada precisa fazer, mas sim de uma liberdade que faz muito e toda sorte de coisas e está livre apenas da exigência e dívida da lei.

Cap. 7 — Morto para a lei e o conflito dentro do crente

No sétimo capítulo, Paulo confirma o anterior mediante uma comparação com a vida matrimonial: Quando morre o marido, a mulher está desimpedida e um está separado e livre do outro. Não que a mulher não pudesse ou devesse tomar outro homem. Ela está apta a tomar outro, o que ela anteriormente não podia, por não estar livre daquele. Assim também nossa consciência sob a lei está vinculada ao velho homem pecaminoso; ao ser este morto pelo Espírito, a consciência está livre, e um desobrigado do outro; não que a consciência nada devesse fazer; mas sim para que agora possa ater-se tanto mais a Cristo, o outro homem, e produzir frutos para a vida.

Em seguida apresenta ainda a peculariedade dos pecados e das leis, de como pela lei o pecado fica ainda mais ativo e violento. Pois o velho homem se torna tanto mais inimigo da lei por não poder pagar o que a lei exige. Porque sua natureza é pecado, e ela de si mesma não pode fazer outra coisa, motivo por que a lei é sua morte e seu martírio. Não que a lei seja maligna, mas a natureza má é que não pode suportar o bem que a lei dela exige, assim como um doente não agüenta que se exija que corra e salte, ou pratique outros atos próprios de uma pessoa sã.

Por isso Paulo conclui: Onde a lei for adequadamente reconhecida e entendida da melhor maneira possível, ela não faz mais do que nos lembrar de nosso pecado e nos matar através do mesmo, tornando-nos culpados da ira eterna (tudo isso se percebe e experimenta muito bem na consciência, quando esta é bem atingida pela lei). De sorte que é necessário algo diferente e superior à lei para tornar a pessoa justa e salva. Aqueles, porém, que não reconhecem adequadamente a lei, são cegos, comportam-se com arrogância, acreditando poder-lhe fazer jus com obras. Pois não sabem o quanto a lei exige: um coração livre, disposto e animado; por essa razão não encaram a Moisés de frente. Para eles o véu está posto na frente, encobrindo-os (2 Coríntios 3.13ss).

Em seguida mostra como o Espírito e a carne lutam um contra o outro numa mesma pessoa; apresenta a si mesmo como exemplo para que aprendamos a reconhecer bem a obra de matar o pecado em nós mesmos. Mas a ambos ele chama de lei, tanto o Espírito como a carne, e isso pela seguinte razão: Assim como a lei divina tem a característica de impelir e exigir, igualmente a carne impele, exige e se agita com violência contra o Espírito e quer impor o seu desejo. Por outro lado, o Espírito investe contra a carne e procura impor sua vontade. Esta luta perdura dentro de nós enquanto vivemos, num mais, noutro menos, dependendo de a supremacia ficar com o Espírito ou a carne. E mesmo assim, a pessoa inteira é ela mesma ambas as coisas, Espírito e carne, lutando, portanto, consigo mesma, até que fique inteiramente espiritual.---- Sublinhado acrescentado

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Carlstadt

Mensagem Sáb Fev 06, 2010 8:00 pm por Carlstadt

Creio que neste contexto caberiam também ver os comentários de outros reputados comentaristas bíblicos cristãos protestantes:

Comentários de Matthew Henry sobre Romanos 7:1-6

Enquanto um homem continue sob a lei como um concerto, e busque justificar-se por sua própria obediência, prossegue escravo do pecado em alguma forma. Nada a não ser o Espírito de vida em Cristo Jesus pode tornar qualquer pecador livre da lei do pecado e da morte. Os crentes são livrados do poder da lei, que condena por causa dos pecados por eles cometidos. E são livrados desse poder da lei que suscita e provoca o pecado que neles habita. Entenda-se isso não da lei como regra, mas como um concerto de obras.

Em profissão e privilégio estamos sob um concerto de graça, e não sob um concerto de obras; sob o evangelho de Cristo, não sob a lei de Moisés. A diferença é tratada segundo o paralelo ou figura de casar-se com um novo marido. O segundo casamento é com Cristo. Pela morte estamos livres da obrigação da lei como um concerto, como a esposa está de seus votos a seu marido. Em nosso ato de crer poderosa e eficazmente, estamos mortos para a lei, e nada mais temos a ver com ela mais do que um servo morto é livre do jugo de seu mestre.

O dia de nossa decisão em crer é o dia de estar unido ao Senhor Jesus. Entramos para uma vida de dependência Dele, e de dever a Ele. As boas obras são derivadas da união com Cristo: como a videira frutífera é produto de estar unida a suas raízes; não há fruto para Deus até que estejamos unidos a Cristo. A lei, e os melhores esforços de alguém sob a lei, ainda na carne, sob o poder de princípios corruptos, não pode colocar o coração em ordem com respeito ao amor de Deus. . . . Nada mais do que a obediência formal à letra exterior de qualquer preceito pode ser realizado por nós, sem a graça renovada e criadora do novo concerto.

[Perfeitamente em harmonia com as “superiores promessas” do novo concerto—é Deus quem escreve as Suas leis nos corações e mentes de quem aceitou a Cristo, segundo as provisões desse novo concerto (Novo Testamento)—Hebreus 8:6-10].

Comentando vs. 22: “Pois ao estar o crente sob a graça, e sua vontade no caminho da santidade, ele sinceramente se deleita na lei de Deus, e na santidade que esta requer, segundo o homem interior; esse novo homem nele, que após Deus é criado em verdadeira santidade.

Comentário sb Rom. 7:23-25.

Assim, diz ele, eu próprio, com a minha mente, meu julgamento, afeições e propósitos, como um homem regenerado, pela graça divina, sirvo e obedeço a lei de Deus, mas com a carne, a natureza carnal, o remanescente de depravação, sirvo à lei do pecado, que guerreia contra a lei de minha mente. Não a servindo de modo a viver nele, ou dar-lhe permissão, mas incapaz de livrar-se dele mesmo em seu melhor estado, e carecendo de buscar ajuda e livramento fora de si mesmo. É evidente que ele agradece a Deus por Cristo, como nosso libertador, como nossa expiação e justiça em si mesmo . . . . Ele dispunha-se a agir em todos os pontos no agrado da lei, em sua mente e consciência, mas era impedido pelo pecado que nele habitava, e nunca alcançava a perfeição que a lei requer. Que libertação pode ser para um homem sempre pecador a não ser a livre graça de Deus, como oferecida em Cristo Jesus? O poder da divina graça e do Espírito Santo pode desarraigar o pecado de nossos corações mesmo nesta vida, se a divina sabedoria assim julgasse acertado. Mas esta permitiu que os cristãos constantemente sentissem e entendessem plenamente o miserável estado do qual a graça divina o livra; devendo ser impedidos de confiar sempre em si mesmos para que pudessem sempre conservar toda a sua consolação e esperança na rica e livre graça de Deus em Cristo.

Comentário Sobre Romanos 8:4, por John Wesley:

Para que a justiça da lei— A santidade que ela [a lei] requeria, descrita em Romanos 8:11.

Se cumpra em nós que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito -- Que somos guiados em todos os nossos pensamentos, palavras e ações, não pela natureza corrupta, mas pelo Espírito de Deus. A partir deste ponto Paulo descreve primariamente o estado dos crentes, e a dos descrentes somente para ilustrar isto.

SDABC Sobre Romanos 8:4:

4.

A justiça.

A palavra para “justiça” no original grego é dikáioma. O termo que Paulo usa com freqüência nesta epístola para “justiça” é dikaiusún' (cap. 1: 17; 3: 5; 4: 3; etc.). Dikáioma expressa o pensamento daquilo que é estabelecido como correto (ver Rom. 1: 32; 2: 26; 5: 16, 18; cf. Luc. 1: 6; Heb. 9: 1, onde dikáioma foi traduzido como “juízo”, “ordenanças” [em três vers.], “justificação” e “justiça”). Portanto, Paulo aqui está se referindo às justas exigências da lei ou à obediência de seus justos requisitos.

Neste contexto Paulo continua falando da lei que ele aprovava (cap. 7: 16) e na qual se deleitava (vers. 22); mas descobriu que era incapaz de obedecê-la sem Cristo (vers. 15-25).

Comentário Bíblico de Adam Clarke

Verso 13 [de Romanos 7]. Acaso o bom se me tornou em morte?

Esta é a pergunta do judeu, com quem o apóstolo parece estar disputando. “Você admite que a lei seja boa, e contudo declara ser a causa de nossa morte? O apóstolo responde: “De modo nenhum! γενοιτο, pelo contrário: não é a lei que é a causa de sua morte, mas o pecado; foi o pecado que nos sujeitou à morte pela lei, com justiça ameaçando o pecado com a morte; pelo que a lei foi dada para que o pecado pudesse aparecer em suas verdadeiras cores; quando o vimos nos sujeitando à morte por uma lei santa, justa, e boa; para que o pecado, pela lei, pudesse ser representado no que é realmente: καθυπερβοληναμαρτωλος, uma ENORMEMENTE GRANDE e mortal malignidade.

Destarte, parece que o homem não pode ter uma verdadeira noção de pecado a não ser por meio da lei de Deus. Disso eu já dei suficientes razões nas notas precedentes. E um dos desígnios da lei era mostrar a natureza abominável e destrutiva do pecado, bem como ser uma regra de vida. Seria quase impossível para um homem ter essa simples noção do demérito do pecado de modo a produzir arrependimento, ou ver a natureza e necessidade da morte de Cristo, se a lei não fosse aplicada a sua consciência pela luz do Espírito Santo; é somente então que ele se vê como carnal e vendido sob o pecado; e que a lei e o mandamento são santos, justos e bons. E seja observado que a lei não responde por essa finalidade só entre os judeus nos dias do apóstolo; é exatamente tão necessária aos gentios no tempo presente. Nem verificamos que genuíno arrependimento tem lugar onde a lei moral não seja pregada e imposta. Os que pregam somente o evangelho aos pecadores, no melhor das hipóteses apenas curam o ferimento da filha de meu povo ligeiramente. A lei, portanto, é o grande instrumento nas mãos de um ministro fiel, para alarmar e despertar pecadores; e ele pode seguramente mostrar que cada pecador está debaixo da lei, e conseqüentemente sob maldição, quando não fugiu em busca de refúgio para a esperança propiciada pelo evangelho: pois, neste sentido somente, Jesus Cristo é o FIM da LEI para justificação todo aquele que crê.-- Destaques em itálico exatamente como no original.

Eis o link que conduz ao original: http://www.studylight.org/com/acc/view.cgi?book=ro&chapter=007

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Carlstadt

Mensagem Sáb Fev 06, 2010 8:01 pm por Carlstadt

Mais alguns respeitáveis comentaristas bíblicos analisando o tema da lei no princípio de Romanos 7:


Jamieson, Fausset and Brown:

Comentário de Rom. 7:6

. . . a morte referida, como temos visto, não é da lei, mas a nossa, mediante a união com o Salvador crucificado. . . .

servir em novidade do espírito . . . e não na velhice da letra -- não segundo nossa antiga maneira de obediência literal, mecânica à lei divina, como um conjunto de regras exteriores de conduta, e sem qualquer referência ao estado de nossos corações; mas nessa nova obediência espiritual que, mediante a união com o Salvador ressurreto, temos aprendido a prestar (comparar com [os comentários de]
Rom_2:29; 2Co_3:6).


The People's New Testament:

Pois quando na carne. Quando estávamos numa condição inconversa, sob a influência de nossa natureza carnal. A insuficiência da lei para livrar-nos de seu poder é agora demonstrada. . . .


A fim de que sirvamos em novidade de espírito. Este servir a Cristo é o novo serviço dos que vivem novas vidas. É um serviço espiritual: “[Importa que] Deus seja adorado em espírito e em verdade.” A lei de Deus, sob o novo concerto, é “escrita nos corações” (Heb_8:10); daí que não é um serviço de escravidão, mas livre e de boa vontade.

Fonte: Ver seção de comentaristas bíblicos no site
[url=http://www.e-Sword.com]www.e-Sword.com[/url]


João Calvino:

. . . a palavra lei não é mencionada aqui em toda parte com o mesmo sentido: pois num lugar significa a união do matrimônio; em outro, a autoridade de um marido sobre sua esposa; e noutro, a lei de Moisés: mas devemos recordar que Paulo aqui se refere somente àquela função da lei que era peculiar à dispensação de Moisés; pois na medida em que Deus nos dez mandamentos ensinou o que é justo e correto, dando diretrizes para dirigir nossa vida, nenhuma ab-rogação da lei é para ser imaginada; pois a vontade de Deus deve permanecer a mesma para sempre. Devemos cuidadosamente recordar que esta não é uma libertação da justiça que é ensinada na lei, mas de seus rígidos requisitos, e da maldição que disso resulta. A lei, pois, como regra de vida, não é ab-rogada; mas o que pertence a ela, em oposição à liberdade obtida mediante Cristo, ou seja, no que requer absoluta perfeição: pois na medida em que não atingimos essa perfeição, ela nos prende sob uma sentença de morte eterna.

Fonte: [url=http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom38.xi.i.html]http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom38.xi.i.html[/url]

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Carlstadt

Mensagem Sáb Fev 06, 2010 8:03 pm por Carlstadt

EM NOME DA LEI!

Como foi que o tema da lei se tornou tão controvertido?

Por Roberto Badenas, Th.D.

  De todas as discussões sobre a Bíblia, nenhuma é mais polêmica do que a lei. Talvez nem todos saibam, mas as melhores legislações na História tiveram suas raízes no conceito bíblico de lei. O inverso também é verdade: em nome da lei, têm ocorrido muitos abusos, guerras santas foram travadas, a escravatura foi justificada, o planejamento familiar é condenado, mulheres têm sido mantidas em submissão, artes plásticas têm sido excluídas e transfusões de sangue proibidas. Como foi, então, que o tema sobre a lei — um elemento fundamental na ordem de Deus para a vida — se tornou tão controvertido entre os cristãos?


—> O Uso Ilegítimo da Lei

  Nossas dificuldades com a lei de Deus vêm não somente de nossas transgressões de suas ordenanças, mas também de nossos erros de perspectiva acerca de suas unções. Muitos desses problemas podem ser derivados daquilo que George Knight chama “nossos usos ilegítimos da lei”. [1]

  Apesar do fato de que ela é santa, justa e boa (Rm.7:12), a lei de Deus pode ser usada de modo mau, ímpio e injusto. Pode ser empregada para fins a que ela não visava. Com efeito, uma das tentações constantes dos crentes é usar a lei de Deus de modo errôneo. Em nome da lei, por exemplo, um grupo de homens trouxe a Jesus uma mulher apanhada em adultério — não tanto para defender a lei, mas para apanhar Jesus num emaranhado teológico e legal (Jo.8:1–11). “Se absolvesse a mulher, seria acusado e desprezar a lei de Moisés. Declarasse-a Ele digna de morte, e seria denunciado aos romanos como assumindo autoridade que só a eles pertencia”. [2] O apelo rabínico à lei, esse caso, foi mero pretexto para condenar duas pessoas. Mas Jesus tomou o incidente e usou-o para expor a hipocrisia dos rabinos, para enfatizar a necessidade que o pecador em do perdão da graça divina, e para apontar a direção de uma vida nova.

  Para Jesus, apegar-se à letra da lei não bastava (Mt.5:20). O verdadeiro respeito pela lei requer o respeito pelo espírito atrás de todo preceito. Assim o mandamento “não atarás” requer também não ferir ou atacar, mesmo verbalmente (Mt.5:27–28). O que isso sugere é que a única maneira certa de compreender a lei é procurar o princípio por trás dos preceitos.

  Outro uso ilegítimo da lei é achar na obediência a ela o meio de salvação. Muitos fariseus eram culpados disso. A heresia dos gálatas tinha que ver com essa interpretação da lei. Paulo bem conhecia o problema. Tendo vivido como fariseu até seu encontro no caminho de Damasco, ele se orgulhava do legalismo — sem culpa com respeito à guarda da lei (Fp.3:4–6). Mas quando aceitou as boas-novas de Jesus, Paulo compreendeu que o legalismo não pode salvar uma pessoa, e que a salvação só é possível mediante a fé em Jesus (Rm.1:16–17/Ef.2:8). A lei em si mesma não tem poder para salvar, e atribuir-lhe tal poder é uma farsa teológica que faz grande dano à nossa compreensão do modo designado por Deus para redimir.

  Mas então, não tem a lei um papel na vida da pessoa salva pela graça de Deus? Uma das confusões mais comuns e mais sérias na história da salvação “é o erro de não fazer uma distinção entre o que se precisa fazer para ser moral e o que se precisa fazer para ser salvo”. [3] Esse foi o erro dos fariseus. Sua opinião otimista sobre a natureza humana levou-os a uma percepção errônea do pecado. Pensavam que qualquer pessoa podia vencer o pecado na mesma base que Adão antes da queda. Criam que todos podiam ainda viver de acordo com a vontade de Deus guardando fielmente a lei. Essa opinião limitada do poder do pecado (Rm.3:9) afetava a compreensão farisaica do propósito da lei, advogando que a obediência à lei era o meio designado por Deus para obter justiça.

  Embora Paulo e os reformadores protestantes demonstrassem a falácia desta crença, essa opinião otimista do ser humano e essa opinião distorcida da lei ainda é corrente entre cristãos de todas as denominações, inclusive os adventistas do sétimo dia.

  Precisamos reconhecer, como Ellen White escreveu, que “era possível a Adão, antes da queda, formar um caráter justo pela obediência à lei de Deus. Mas deixou de o fazer e, devido ao seu pecado, nossa natureza se acha decaída”. [4]


—> O Uso Legítimo da Lei

  Se nossa natureza pecaminosa já não é capaz de cumprir as exigências divinas, qual, então, é o propósito da lei? Paulo menciona diversos.

  A primeira função é jurídica. Como muitos outros códigos legais, a lei de Deus tem um papel “civil”. Paulo diz que a lei foi dada “por causa das transgressões” (Gl.3:19). O primeiro alvo da lei escrita é de limitar, evitar ou prevenir transgressões tanto quanto possível, a fim de restringir o mal. Nesse sentido, “a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados” (1Tm.1:9).

  A segunda função da lei é teológica. “Pela lei vem o conhecimento do pecado”, escreveu Paulo (Rm.3:20). Mais adiante ele argumentou que se não fosse pela lei, ele não teria sabido que era pecador (Rm.7:7). Uma das realidades mais humilhantes da vida é que nem sempre estamos conscientes de nossas faltas. Nesse contexto, a lei funciona como um espelho (Tg.1:23) revelando-nos como realmente somos. O espelho revela nossas manchas, mas é incapaz de removê-las. Assim é com a lei de Deus. Revela nossos problemas, diz-nos que somos pecadores, mas não pode fazer nenhuma mudança. Realiza um papel importante — o de revelar o pecado — mas não pode remediar a situação. Para o remédio, precisamos volver-nos a Jesus.

  Os luteranos tradicionalmente tendem a negar à lei qualquer outro papel além do civil e do teológico. Se a lei tem uma terceira função, tem sido muito discutido entre os protestantes. A terceira função é espiritual. Se a lei vem de Deus e se é a transcrição de Seu caráter, deve necessariamente revelar a vontade de Deus para nós. Se Deus ordena amor e condena a injustiça, é porque Ele mesmo é amante e justo. Paulo observa que “a lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom” (Rm.7:12,14). A lei mostra que o ideal de Deus para todo ser humano é refletir-Lhe o caráter. E como Ele não muda, os princípios de Sua lei são também as normas permanentes de julgamento, desde o Éden até ao fim do tempo (Rm.2:12–16/Ap.14:6–12).

  Não admira que o Novo Testamento afirme que os crentes guiados pelo Espírito são aqueles que respeitam a vontade de Deus (Ap.14:12). Segundo João Calvino, esse “terceiro uso” é “o uso principal da lei entre crentes em cujos corações o Espírito já vive e reina… Eis o melhor instrumento para que aprendam mais perfeitamente cada dia a natureza da vontade do Senhor à qual aspiram”. [5]

Lei e Graça: Antes da Cruz e depois da cruz Conceitos_sobre_a_lei

  Nenhum destes três usos da lei tem algo a ver com nossa justificação. Embora a lei não proporcione salvação, oferece orientação ética e espiritual para o crente. “A lei nos envia a Cristo para sermos justificados, e Cristo nos envia à lei para sermos regulados”. [6]

  Por um lado, a lei sempre aponta ao evangelho para segurança de salvação, e por outro, o evangelho sempre nos convida a um maior respeito à lei. Por isso Paulo podia afirmar que a fé estabelece a lei (Rm.3:31).


—> A Insuficiência da Lei

  A própria lei indica suas limitações. Todo o sistema do santuário da dispensação israelita nos ensina isso. A lei mostra a transgressão e convence o pecador dessa transgressão. Mas a lei nada pode fazer para expiar a transgressão. Antes da vinda de Jesus, o pecador precisava volver aos serviços do santuário. Em nome da lei, o pecador era convidado a buscar salvação fora da lei (Rm.3:21). Expiação do pecado é atribuição de Deus (Lv. 16). O sangue provido para a expiação devia ser dado por Deus (Lv. 17:11). É Deus quem justifica. É Deus quem santifica (Lv. 20:8;1Ts.5:23, 24).

  O Novo testamento mostra que toda a obra da redenção, prefigurada no santuário terrestre, era cumprida por Cristo (Rm.3:27-31). Assim “Cristo é o fim da lei” (Rm.10:4). NEle a lei como revelação encontra seu clímax, e por Ele tudo o que a lei requer torna-se uma realidade.

  Como Ellen White afirma: “Pela justiça imputada de Cristo, o pecador pode sentir que foi perdoado e pode saber que a lei não mais o condena, porque ele está em harmonia com todos os seus preceitos. (…) Pela fé, assegura-se da justiça de Cristo e responde em amor e gratidão ao grande amor de Deus em dar Seu Filho unigênito, que morreu a fim de trazer à luz, vida e imortalidade pelo evangelho. Sabendo que é pecador, transgressor da santa lei de Deus, ele olha para a perfeita obediência de Cristo, para Sua morte no Calvário pelos pecados do mundo; e tem a segurança de que é justificado pela fé nos méritos e no sacrifício de Cristo. Reconhece que a lei foi obedecida a seu favor pelo Filho de Deus, e que a penalidade da transgressão não pode recair sobre o pecador que crê. A obediência ativa de Cristo cobre o pecador crente com a justiça que satisfaz os reclamos da lei”. [7]


—> A Resistência Humana à Lei

  A despeito do fato de que os princípios da lei revelam a vontade de Deus para nós, tendemos a ver a lei principalmente como um obstáculo à liberdade. Apesar de reconhecermos a vantagem de respeitar uma certa ordem, nossa natureza carnal resiste a qualquer restrição. Esperamos que outros respeitem a lei, mas achamos difícil nós mesmos nos submetermos à sua disciplina.

  A necessidade de lei é clara e lógica, mas tendemos a minimizar-lhe as obrigações. A natureza requer a presença da lei, e a natureza humana sabe que necessita dela. Mas saber é uma coisa e fazer é outra. A felicidade humana é o objetivo da lei divina. O papel da lei é enfocar o que é bom, mostrar a diferença entre o bem e o mal, respeito e violência, justiça e injustiça. O modo imperativo da lei é simplesmente a expressão de amor de Deus.


—> A Função Didática da Lei

  Paulo compara a função da lei à tarefa de um pedagogo que prepara a criança para seguir as instruções de um professor qualificado. Ele diz que a lei foi “para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados” (Gl.3:24).

  Na Bíblia, freqüentemente as proibições precedem ordens. Por exemplo, o mandamento “não matarás” vem antes de qualquer comentário sobre o amor para com nosso próximo. Não reconheceríamos o valor da vida se uma proibição prévia não nos obrigasse a refrear nossas paixões violentas. A proibição de matar detém nossos impulsos agressivos e nos obriga a meditar sobre as conseqüências de nossa decisão.

  Enquanto a vida nos obrigar a escolher, a lei nos ajuda a bem escolher. Ensina-nos que deixar de escolher é uma opção perigosa e que pedir a direção de Deus significa mais e não menos liberdade. Essa é a razão por que a Bíblia chama a lei de “a lei perfeita da liberdade” (Tg.1:25).

  Em sua função didática, a lei nos ensina onde estão nossos valores. Cada proibição e cada mandamento afirmam um valor específico: não mentir lembra-nos do valor da verdade, não cometer adultério sublinha a importância do amor fiel, não usar de violência destaca a preciosidade da vida, etc. A lei nos diz que a vida e os sentimentos de nosso próximo são tão preciosos como nossa própria vida e sentimentos. A missão da lei de Deus é, neste sentido, mais reveladora que legislativa.

  Reconhecer os profundos valores da lei, mas também seus limites definidos, ajuda-nos a vê-la não mais como um obstáculo à nossa liberdade, mas como um auxiliar precioso em nossa jornada. Guia-nos, como um mapa, mas o caminho não é outro senão Jesus. Ele mesmo declarou que nestes tempos atribulados da história, os verdadeiros crentes permanecerão fiéis, tanto aos mandamentos de Deus como em sua confiança em Jesus (Ap.14:12).

_______________

Notas e Referências:

  1. George Knight, “The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness” (Boise, Idaho: Pacific Press Publ. Assn., 1992), p. 59–60.
  2. Ellen G. White, “O Desejado de Todas as Nações” (Sto. André, S. Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 1979), p. 444.
  3. G. Knight, Op. cit., p.65.
  4. Ellen G. White, “Caminho a Cristo” (Sto. André, S. Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 1984), p. 62.
  5. João Calvino, “Institutes of the Christian Religion”, 2:7,12.
  6. B. W. Ball, “The English Connection” (Cambridge: James Clarke, 1981), p. 133.
  7. Ellen G. White, “The Youth’s Instructor”, 29 de novembro, 1894, p. 201.

Fonte: Revista “Diálogo” (1999), 11(1), p. 17–19, 28. Esse artigo pode ser visualizado no seguinte website: http://dialogue.adventist.org/articles/11_1_badenas_p.htm

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