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O CÁLICE DE JESUS CRISTO

O significado da palavra “Cálice”, que aparece em São João 18:11, tem sido um fator de muitos questionamentos por parte dos leitores do evangelho.

O que significa “Cálice”? Qual é a sua relação com a cruz? O “Cálice” é simplesmente um vaso para uso comum? Parece que o significado da palavra não tem sido definido com exatidão e nem havido uma real compreensão da sua relação com o evangelho.

Devido a isso, se faz necessário determinar o que a palavra “Cálice” significa. O objetivo desse estudo é identificar o significado da palavra, seu contexto e importância.

O estudo está dividido em duas partes: 1) Análise gramatical do texto, o que inclui o estudo das palavras “πίω” e “ποτήριον”, no Velho e Novo Testamento; 2) O contexto da passagem, ou seja, o contexto amplo, contexto imediato, contexto geral e contexto histórico. Após o estudo elaboram-se conclusões para encerrar o mesmo.

ANÁLISE GRAMATICAL DO TEXTO

O Texto

“τò ποτήριον οc’ δέδωкέν μοι ό πατ̀ηρ ού μ̀η πίω αύτό;” O Texto de São João 18:11 está inserido no contexto imediato da prisão de Jesus no Gestsêmani (18:1-11), aqui chamado por João de Vale do Cedron.

No original diz: “είπεν ούν ό Ιησυs τώ Пέτρώ, Βάλε τ̀ην μάχαιραν είs tʼnν θήκη̣ν. τò ποτηριον ό δέδωκέν μοι ó πατ̀ηρ ού μ̀η πίω αύτό.

A expressão “τò ποτήριον ó δέδωκέν μοτ ó πατ̀ηρ ὸυ μ̀η πίω αύτο“ vem de uma resposta de Jesus (Ìησύs) à Pedro (Пέτρω), quando este, tira sua espada e fere a orelha do servo do Sumo Sacerdote. Jesus, neste verso, repreende-o, dizendo: Mete a tua espada na bainha! (Βάλε τ̀ην μάχάιραν [Daga – Espada pequena] εís τ̀ην θήκην) e adiantando-se ante a turba que o quer prender, entregando-se, pergunta a Pedro: “Não beberei o Cálice que o Pai me deu?” (τò ποτήριον ờ δέδωκέν μοτ ό πατ̀ηρ ού μ̀η π́ıω ὰυτó). Portanto, nos deteremos em analisar o que Jesus queria dizer a Pedro nestas palavras.

Пίω

Pio – “2a pessoa do singular, aoristo 2, modo subjuntivo – verbo pino – beber” : “Uma forma prolongada de beber; embeber, literalmente ou figurativamente – como a terra absorve a água da chuva”.

Existem várias formas de beber nas escrituras. Champlin a enumera em nove maneiras:

a. A ingestão de qualquer líquido (I Cor. 10:31), o que, como todas as atividades humanas, pode redundar na Glória de Deus;

b. Como símbolo da expressão espiritual da fé de alguém em Deus (Isaías 32:6; S. Jo 6:54, 55; I Cor: 10:4);

c. Beber metaforicamente do sangue de Cristo – equivale alimentar-se espiritualmente e participar de seu ser, compartilhando de sua natureza (s. Jo 6:54). Naturalmente, há nisso uma certa alusão à Ceia do Senhor (que vide), mas o que está em pauta; é aquilo que é simbolizado pelo rito, e não o rito propriamente dito;

d. A aceitação simbólica da vontade do Pai, por parte o filho (S. Jo 18:11);

e. A participação da Ceia do Senhor (Mt 26:27; I Cor. 10:21; 11:25), que inclui as idéias de participação espiritual em suas virtudes e em sua natureza, como quem festeja em sua memória;

f. O recebimento da ira e do julgamento de Deus é como sorver uma bebida (Jo 21:20; Sl 75:8; Ap 14:10);

g. Participação simbólica em toda espécie de mal, por parte dos pecadores (Jó 15:16; Pv 4:17; 26:6);

h. Beber sangue simboliza provocar matança entre os inimigos (Ez 39:28); i. O processo mediante o qual a terra é regada pelas chuvas que caem do céu é retratado pela idéia de beber (Heb. 6:7) .

Assim como beber é um ato da parte do que bebe, Jesus escolheu deliberadamente beber do cálice que seu Pai lhe reservara. Demonstra simbolicamente uma aceitação da vontade de Deus.

Пοτήριον
Potérion – “Genitivo Singular – copo” W.E. Vine assim a define: “Diminutivo de Poter. Denota primariamente uma vasilha de beber. Taça, copo. No Novo Testamento é usado freqüentemente para o sofrimento de Cristo .

Vallandro, em seu dicionário apresenta um outro significado para esta palavra. Além de significar uma vasilha para beber, como disse Vine, também significa “cálice da comunhão, quinhão, sorte ou destino” .

James Gilbertson assim a define: Potérion. Derivado neutro da alternativa “πινω” (pino – beber). Uma vasilha de beber; por extensão, o conteúdo disso. Uma medida de copo (trago); figurativamente, uma porção ou fatia. Na Bíblia KJV - Copo .

Nestes termos, potérion, pode ser muito bem, a luz deste texto, ser entendido como o destino que Jesus deveria tragar, reservado pelo Pai, por amor aos pecadores. O conteúdo deste cálice era o seu próprio sangue, martírio e sofrimento.

Potérion no Velho Testamento

No Velho Testamento várias palavras hebraicas poderiam ser utilizadas para expressar potérion. A palavra mais comumente usada é kos (hebraico – copo), e o contexto imediato e geral de sua tradução ocorre por trinta e duas vezes e pode ser dividida em vários grupos:

Bênção:
- Gênesis 40:11 → O Copo do Rei Faraó, possuía um significado de perdão e restituição.
- Salmos 16; 5 → Cálice da Herança de Deus. Prosperidade.
- Salmos 23:5 → Jorrar das bênçãos de Deus.

Maldição:
- Salmos 16:05 → Cálice de Tempestade.
- Salmos 75:8 → Cálice da maldição de Deus sobre os ímpios.
- Isaías 51:22 → Cálice do Furor de Deus.
- Jeremias 25:28 → Cálice da Destruição.

Salvação:
- Salmos 116:13 → Cálice da Salvação.
- Jeremias 25:17 → Cálice da Mão do Senhor.

Corrupção:
- Jeremias 51:7 → Cálice da confusão de Babilônia.
- Ezequiel 23:31 → Cálice da Corrupção.

Simples Objeto:
- I Reis 7:26; II Crônicas 4:5.

Potérion no Novo Testamento:

Encontramos a palavra potérion (cálice) no Novo Testamento, trinta vezes, e podemos dividi-la em seis grupos com diferentes significados. Porém, em sua maioria, significa o sofrimento, a agonia do Nosso Senhor Jesus Cristo. Imprimindo assim, esta conotação no Novo Testamento, apesar de existir outros significados sem nenhuma relação, como Cálice dos Demônios, ou abominação, como veremos a seguir.

São eles:
a) Objeto. Simples vasilha de beber: - Mt 10:42; 23:25, 26; Mc 7:4,8,9:41; Lc 11:39.
b) Sofrimento. Agonia de Jesus Cristo: Mt 20:22,23; 26:39, 42; Mc 10:38,39; 14:36; Lc 22;42; S.Jo 18:11.
c) Pacto da Nova Aliança. Santa Ceia. O sangue de Cristo: Mt 26:27; Mc 14:23; Lc 22:17, 20; I Cor 10:16; 11:25,26,27,28.
d) Cálice dos Demônios. Idolatria: I Cor 10:21.
e) Ira de Deus. Juízo Divino: Apc 14:10; 16:19.
f) Abominação. Atos da Babilônia: 17:4, 18:6.

Tanto no antigo quanto no novo testamento o significado de potérion é rico de significados. Porém, no texto em análise, permanece o significado que sobrepuja no Novo Testamento. A agonia de Jesus Cristo, que encontra pano de fundo em Isaías 51:22; e do capítulo 53:4, quando o Messias Sofredor retira o “Cálice do furor de Deus” de nossas mãos e o toma sobre Si mesmo. Portanto, o que Jesus disse a Pedro, é que o cálice era a ira de Deus sobre os pecados dos homens, que deveria ele tomar sobre seus ombros (beber).

ANÁLISE DO CONTEXTO DA PASSAGEM

Apesar de todos os demais evangelhos narrarem este acontecimento, no evangelho de João as singularidades são marcantes. Por exemplo, João é o único evangelho que cita o nome de Pedro e Malco, no momento em que Pedro o agride quando o grupo avança para prender a Jesus. É no 4o evangelho também que encontra-se a frase de Jesus: “Não beberei Eu o cálice que o Pai Me deu?” (v.11).

Apesar de uma aparente divergência, o evangelho de João procura confirmar o que os Sinópticos relatam no Gestsêmani, que é a decisão de Jesus de beber o cálice em favor da humanidade. E deste ponto de vista consideraremos como o contexto amplo de 18:11, os versículos 1,2,4,6,7. E os demais consideraremos como o contexto imediato, sendo que o contexto geral estará relacionado com a palavra cálice.

Contexto Amplo

Até Jesus apresentar a Sua decisão de beber o cálice (v.11), alguns acontecimentos ocorreram que indicaram que tal decisão já estava tomada. Nos vv. 1 e 2 é dito que Jesus foi para um lugar que era conhecido de Judas. Um lugar onde seria facilmente encontrado. O autor do 4o evangelho procura ressaltar que Jesus estava ciente do que iria lhe acontecer. O v.4 frisa esta idéia quando diz: “Sabendo, pois Jesus todas as coisas que sobre Ele haviam de vir...”.

No entanto, muito mais do apenas saber, Jesus estava preparado para beber o cálice. Ele estava ciente do que significava aquele momento, onde a sorte de toda a humanidade estaria em jogo.
Quando Jesus adiantou-se (v.4), diante da turba que vinha com o objetivo de Lhe prender, não eram os homens que O estavam aprisionando, mas Ele que estava entregando-se por expiação aos nossos pecados e de todo o mundo. Aqui o testemunho de João Batista (1:33,34) é mais uma vez manifesto, embora o autor não o relate.

Como no início João teve a confirmação de que Jesus era o Filho de Deus, pela forma como o Pai O realçou, através da Sua glória e da descida do Espírito Santo em forma de pomba, aqui mais uma vez, tal manifestação é repetida.

Este é o nome pelo qual Jesus se deu a conhecer aos homens e que reflete todo o poder da divindade, o que o autor do 4o evangelho tem interesse em destacar através de todo relato. É o nome pelo qual o Senhor se revelou a Moisés na sarça ardente (Êxo. 3:13,14); que não está limitado ao tempo e espaço (Apoc. 1:8). O Deus Santo e Tremendo que fez com que Moisés se curvasse em profundo respeito (Êxo. 34:6-8); diante do qual Daniel caiu sem forças quando em visão (Dan. 10:7-9). Esse mesmo Deus se apresentou aos soldados naquele momento, e eles recuaram e caíram por terra.

“Os homens podem desconhecer este nome, mas a ação do poder divino não fica oculta para eles. E o efeito das palavras de Jesus foi fulminante: caíram por terra”. Ao perguntar novamente à turba a quem procuram e a resposta que dão (v.7), duas coisas são ressaltadas:

1. O controle de Jesus da situação. A Sua decisão já estava tomada, beberia o cálice (Mat. 26:42). Ao permanecer ali enquanto se recompunham, Jesus provou que estava ali por vontade própria. O Seu sofrimento foi espontâneo. Jesus morreu porque escolheu morrer, não porque foi impedido de fugir ou de evitar a morte. Jesus sofreu porque estava empenhado na obra da redenção humana. Na pergunta estava refletida a confiança e certeza do que estava ocorrendo.

2. A dureza do coração humano. Ao responderem: “A Jesus Nazareno”, refletiram a dureza do seu coração e de certa forma do coração humano, tão enraizado no pecado e tão afastado de Deus. Jesus em Sua manifestação, neste sinal, Lhes deu uma oportunidade inigualável de se convencerem da Sua divindade, mas, não O aceitaram. Tiveram a mesma prova que João, dentre as muitas que o escritor relata terem ocorrido, de que estavam diante do Filho de Deus, mas, O rejeitaram. O testemunho inicial quanto à incredulidade da época, continuou fazendo ecoar a sua voz naquele instante, dizendo: “... as trevas não compreenderam a luz”, e “Veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam”. (1:5 e 11). “Os Seus”, referem-se aos judeus. Jesus foi rejeitado pela Sua própria casa.

“A Jesus Nazareno” _ Jesus era conhecido assim pela multidão. Foi assim que o cego o chamou (Mar. 10:47). Assim O conheceu a multidão dos aflitos, desesperançados, o povo (Luc. 4:34; 24:19; Mc. 16:16; Atos 2:22). Mas os líderes do templo, os governantes, não O conheceram.

No entanto, isso não foi suficiente para impedir que Jesus levasse avante o Seu compromisso, a sua missão. No v.11, ao repreender a Pedro pelo ato da violência, Jesus confirma a Sua decisão: “Não beberei Eu o cálice que o Pai Me deu?”. Aqui, o evangelista chega ao clímax da Sua narrativa. Apesar de só no evangelho de João esta frase aparecer, ela deve ser lida em conformidade com o relato dos sinópticos, onde duas frases se tornam muito importantes para se compreender o que está sendo dito neste relato por Jesus. “Pai, se possível passe de Mim este cálice”, e “... se este cálice não pode passar de Mim sem que Eu beba, faça-se a Tua vontade”. (Mat. 26:39 e 42; Mar. 14:36; Luc. 22:42).

Novamente aqui é visto a situação do Gestsêmani. Isso mostra que apesar de não entrar em detalhes do que ocorreu ali, o autor do 4o evangelho demonstra estar muito familiarizado com o que aconteceu. Na verdade, todo o relato desta primeira parte do capítulo, (vv. 1-11), estão voltados para este momento, que é o momento crucial onde Jesus confirma a Sua decisão de morrer pela humanidade.

Ao repreender a Pedro, o Senhor Jesus estava afirmando que o que estava acontecendo não era por vontade humana. Tanto Ele como o Pai e o Espírito Santo estavam empenhados. Era a consumação de um plano, o plano da redenção que já estava proposto “desde a fundação do mundo”. Era necessário que isso acontecesse. Jesus precisava e estava disposto a tomar o cálice, suportando tudo o que Lhe haveria de vir, para pagar o preço do pecado (Rom. 6:23). Ele estava confiante e decidido. Sabia que dessa decisão dependia toda a humanidade. E tinha certeza que o destino determinado pelo Pai teria o melhor resultado possível, no que estava acontecendo, e principalmente na vida dos homens, que sem dúvida, seriam os maiores beneficiados. Até mesmo alguns dos que O estavam prendendo, conforme o caso do Centurião, relatado em Mateus, onde afirma que ele juntamente com os que estavam consigo guardando o local reconheceram que Jesus era o Filho de Deus (Mat. 27:54). E todos os homens das gerações futuras que reconhecessem e aceitassem a Ele como o Salvador.

Estas palavras de Jesus, no v. 11, portanto, ressaltava a submissão de Jesus à vontade de Deus, Pai. E de certa forma foi de grande importância para a Igreja primitiva, que procurava mostrar aos judeus e ao mundo em geral, que Jesus não morreu segundo a vontade dos homens, mas de Deus, em cumprimento a Sua missão.

Contexto Imediato

Nos vv. 8 e 9 vemos um aspecto muito peculiar do Messias que é a Sua característica protetora, como o Bom Pastor, que dá a vida pelas Suas ovelhas. E nesse contexto, literalmente, o Mestre coloca-se à frente dos Seus discípulos intercedendo pela sua segurança.

No entanto, muitos tem tido sérias dificuldades em entender este versículo, pois, acham que ao comparar o ato de Jesus rogar que deixem os discípulos irem embora com a oração relatada no capítulo 17, está havendo uma má colocação da passagem, pois, neste relato de João 18, Ele está preocupado com a segurança temporal dos Seus discípulos, ao passo que na oração do capítulo 17:12, onde refere-se ao texto citado, Jesus está fazendo referência à vida eterna.

Mas, isso não deve trazer dificuldades à compreensão do versículo. O Ver. Ryle, comentando sobre este verso diz: “... a vigilância do Senhor pelos Seus discípulos, atendendo ao fim, atende também aos meios. E um dos meios de impedir que naufragassem na fé, era preservá-los de tentações superiores à suas forças”.

O Dr. Mário Veloso, também faz uma observação muito interessante: Nos discursos de despedida, Cristo havia estabelecido que Seu imperativo era a proteção aos crentes. E isto não inclui apenas os aspectos espirituais de sua vida, mas também os fatos comuns da vida diária. E nesta frase, Jesus demonstra esta intenção de protegê-los. E ao fazer isso, Suas palavras... cumprem o que Ele disse em Jo. 17:12: ‘Dos que me deste, nenhum deles perdi’. Cumpre assim, Sua função de Bom Pastor.

Contexto Geral

O termo “cálice” é um termo muito usado na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento. No hebraico a palavra usada é “kos”, que significa “copo”. E no Antigo Testamento é feito pelo menos 31 referências a essa palavra (Gên. 40:11,13,21; Sal. 116:13; Isa. 51:17, etc...). No grego a palavra usada é “potérion”, que significa “vaso de beber”, e é usada pelos menos 30 vezes no Novo Testamento (Mat. 10:42; I Co. 10:16,21; Apo. 14:10; etc...).

O termo cálice reserva em si vários significados na Bíblia, tais como:
a) Cálice ou Copo da Consolação – (Jer. 16:7). Um costume oriental que após o enterro de alguém, uma refeição funerária era oferecida e o cálice da consolação era passado entre os que estavam de luto, ou em período de lamentação.
b) Cálice da Ira do Senhor – (Isa. 51:17-23). Indicando a retribuição indignada do Senhor aos que frontalmente Lhe desobedecem.
c) Cálice da Salvação – (Sal. 116:13). Nos sacrifícios de Ações de Graça, freqüentemente eram usados como um símbolo da redenção efetuada por Deus.
d) Cálice da Bênção – (I Cor. 10:16). Ou Cálice do Senhor (I Cor. 10:21). Cálice de vinho sobre o qual era proferida uma bênção, consagrado para uso sacro.

O vocábulo “cálice” era muito usado no concerto rabínico e indicava um grande sofrimento, comparando o beber todo um cálice até o fim com o suportar o sofrimento até o fim. No próprio judaísmo, em suas literaturas, era comum ver a expressão cálice sendo usada referido-se ao sofrimento.

Ao Jesus dizer, portanto: “Não beberei Eu o Cálice que o Pai Me deu?”, o escritor traz aqui um símbolo da morte expiatória de Cristo, que foi definida e predita pela Sua agonia no Jardim do Gestsêmani. A agonia no jardim, juntamente com a cruz do calvário, formaram o grande cálice que Jesus teria que beber.

Contexto Histórico

Jesus saiu da cidade e cruzou o ribeiro de Cedron com seus discípulos (Jo 18:1). O vale estava entre a cidade de Jerusalém e o monte das Oliveiras e geralmente encontava-se seco, exceto, após chuvas abundantes. Acredita-se que o evangelista ao citar o ribeiro de Cedron “haja querido recordar que também Davi, quando fugia de seu filho Absalão, junto com seus amigos, teve que atravessar este ribeiro, (II Sm, 15:23)”.

Quanto ao lugar chamado Gestsêmani, sua localização ficava situada à leste de Jerusalém, sendo, ainda, um jardim particular.

Não parece que Jesus para ir ao monte das Oliveiras haja tomado o caminho que passava pela esplanada do Templo, senão que atravessava a chamada Cidade de Davi, ao sul da mesma esplanada, saindo da cidade perto da fonte de Gibon, atual fonte de Maria.

Segundo alguns críticos, a avaliação da prisão de Jesus, no Monte das Oliveiras, um pouco antes da Sua crucifixão e trazido para a cidade para ser julgado, é visto com muitas reservas. Este fato básico tem resistido a interpretação teológica em todos os Evangelhos. “A orientação Joanina é diferente dos sinóticos e encaixa no peculiar interesse teológico achado no quarto Evangelho”.

Se deixarmos a parte por um momento a questão teológica da cena, notamos que os dois maiores pontos de diferença do relato requer atenção, a saber, que João omite a cena da agonia no Gestsêmani e atribui um papel importante para as tropas romanas na prisão de Jesus.

Analisando a ausência da cena da agonia, percebemos um óbvio efeito da teologia Joanina, “omitindo-a porque Jesus já tinha sido descrito como glorificado”, mas notamos que após Jesus ter proclamado que Sua glorificação havia chegado, (v. 23), “Ele, Jesus, foi direto para uma turbulência de alma” Não existe nenhuma similaridade entre glória e angústia. Contudo, alguém pode teorizar que na fluência do pensamento joanino, a nota de angústia foi colocada como um prelúdio para a hora da glorificação.

A maioria dos críticos acredita que a cena da agonia, no Gestsêmani, estava ausente desde os relatos primitivos da paixão. Portanto sua ausência em João pode não ser o resultado de uma omissão editorial, mas pode partir do fato que nestes detalhes a tradição do pré-Evangelho joanino era similar às origens.

Em segundo lugar, a presença dos soldados romanos no jardim, tem sido um motivo de muita discussão, objeções, mas todas são refutáveis. O real problema se concentra na probabilidade do envolvimento de Pilatos com o Sinédrio. Tal cooperação poderia ter sido mutuamente benéfico, se Pilatos quisesse Jesus temporariamente fora do caminho, e se o Sinédrio quisesse a ajuda dos romanos, naturalmente causaria um tumulto na prisão de Jesus. Não existe clara evidência nos Sinóticos, de um envolvimento de Pilatos na prisão de Jesus.

Conzelman acha que “em At 3:14; 4:27; 13:28, temos evidências da participação de Pilatos na morte de Jesus” . Os críticos sugerem que João introduziu os soldados romanos na cena do jardim para propósitos teológicos, isto segundo Loisy, Bultaman e Barret. Para esses, a presença dos soldados romanos ao lado da polícia judaica, pode ser simbólica a todo “mundo” estando contra Jesus. Barret, por exemplo, lembra-nos da oposição entre Roma e a cristandade no livro do Apocalipse. Alguns sugerem que a participação das autoridades romanas na prisão de Jesus é significativa para preparar o caminho do dramático confronto entre Jesus e Pilatos, o qual domina o relato da paixão em João.

Porém, alguém pode admitir, contudo, que o Evangelho não chama atenção para o valor simbólico dos soldados romanos como representantes do mundo. De fato, a presença dos soldados não enfatiza a presença dos romanos. Somente por dedução podemos imaginar.
Por exemplo, a informação que Pilatos tinha alguma participação na prisão de Jesus é contrária à figura dele no julgamento, onde o mesmo é simpático com Cristo e pensa que o caso dos judeus contra Jesus não é convincente. Brown diz o seguinte:

Não é fácil escrever sobre a figura do envolvimento dos romanos na prisão de Jesus como invenção dos evangelistas; e Goguel, Cullman, Winter e outros podem estar certos que aqui João tem preservado um detalhe histórico suprida nos outros relatos evangélicos.

Segundo o autor Brown, nos dois maiores pontos onde João difere dos Evangelhos sinóticos na prisão de Jesus é a informação do evangelista e a sua maneira de abordar. Por exemplo, ele partilha com os sinóticos no caso da orelha cortada de Malco, porém, lhe é peculiar aos seus detalhes, e mesmo que achem que é sua invenção. Segundo algumas teorias, não são totalmente convincentes. Existem similaridades, “por exemplo, Mc 14:49 com Jo 18:20”.

João partilha com Marcos só o incidente do corte da orelha do servo; e exceto pelas palavras “golpe” e “orelha cortada” os dois relatos não estão de tudo fechados, ou seja, relacionados em tudo, embora saibamos por fontes fidedignas que João usou os sinóticos como complemento do seu relatório.

É importante notar, contudo como João difere dos três. A descrição do aprisionamento é diferente; ele inclui o detalhe das lanternas e tochas, mas omite o beijo de Judas, não menciona o monte das Oliveiras e descreve o local diferentemente. Diferenças como estão favorecem a teoria da independência joanina.

O Significado da Cena no Pensamento de João

Num recente artigo Ritcher argumentou que o relato Joanino é simplesmente uma elaboração teológica dos sinóticos. Porém todas estas teorias nos levam cada vez mais, apesar da complexidade dos relatos Joaninos, a resistir e acima de tudo a ter uma alta elaboração teológica.

Para os sinóticos o verso 2 do capítulo 18, implica que a traição de Judas consistiu em dizer às autoridades onde Jesus podia ser preso secretamente, na noite sem perigo de tumulto. Porém, João pode estar mais interessado no valor simbólico da presença de Judas. No capítulo 13:27 e 30 Judas aparece sendo já a ferramenta de satanás. Este era o mal da noite do qual tinha advertido nos capítulos 11:10 e 12:35, à noite no qual homens tropeçariam por não terem a luz. Talvez seja por isso o porquê de Judas e seus companheiros virem portando lanternas e tochas. Eles não aceitaram a Luz do mundo, e por isso precisavam da luz artificial. Este momento de escuridão pode ser contrastado com o final triunfante de Jesus no céu (Apoc. 22:5), onde os fiéis não precisarão de lâmpadas porque o Senhor Deus será a sua luz.

A direta confrontação de Jesus e as forças das trevas são narradas com instinto dramático. Jesus sabia que iria acontecer o encontro com os Seus oponentes, e disse “Ninguém tem tomado a minha vida, antes Eu a dou, Eu a coloco de acordo com o Meu próprio querer” . Jesus havia permitido a Judas sair na última Páscoa para traí-Lo (cap. 13:27), agora Ele permitia que Judas e suas forças O prendesse.

Para João a paixão não é um inevitável fato que surpreenda a Jesus. Ele é Mestre do Seu próprio destino, no caso, da Sua morte. As cenas Joaninas ilustram que Jesus tem poder sobre as forças das trevas. Isto reforça a impressão que Jesus não podia ter sido preso a menos que Ele o permitisse.

Desta vez Jesus não deixa Seus inimigos saírem impotentes. Na cena da agonia, nos sinóticos, está claro que Jesus não deseja resistir ao desejo de Seu Pai; em João, Jesus permite ser preso, permitindo que Seus seguidores não fossem ofendidos.

Jesus termina usando Seu poder, mas para proteger aqueles a quem ama, não a Si próprio.

CONCLUSÃO

O significado da palavra “Cálice” na Bíblia é amplo e apresenta muitas facetas. Entende-se que “Cálice” não é simplesmente um vaso para uso comum ou um objeto de enfeite ou de adorno. As palavras “Пιω” e “Пοτηιον” no Velho e Novo Testamento esclarecem juntamente com o contexto de São João 18:1-11, que “Cálice” aqui está ligado diretamente ao plano de redenção em favor da raça humana.

O sofrimento de Cristo está implícito, e o beber o “Cálice” para Jesus Cristo é fazer a vontade do Pai em dar a vida em resgate do pecador arrependido, o que também representa a ira de Deus sobre o pecado dos homens, que deveria tomar sobre os Seus ombros.

Com esta visão, o leitor do evangelho descobrirá a importância de Jesus ter tomado o “Cálice”. O mundo não está mais sujeito à condenação do pecado. Jesus se fez pecado por nós.

Pr. Érico Tadeu Xavier
Pastor Distrital e Doutor em Ministério pela Faculdade Teológica Sul Americana – Londrina - PR.

BIBLIOGRAFIA:

- Salvo indicação contrária, todas as referências neste estudo são da versão de João Ferreira de Almeida (Brasília, DF: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969).
- The Greek New Testament, 3a ed. (Stuttgart: Unitedes Bible Societies) 1975, é usado em todas as referências gregas.
- The analytical greek lexicon (New York: Harper & Brothers Publisher, s.d.), 326.
- Strong’s, 4095, citado em James Gilbertson, PC study bible, Version 2.0 (Seatle, WA: Biblesoft, 1990).
- Russel Norman Champlin, Encicoplédia de Bíblia, teologia e filosofia, 4 vols (São Paulo: Candeia, 1991), 1:479.
- The analytical greek lexicon, 38.
- M. A. Vine. Expository Dictionary of the New Testament Words (Londres: Olyphant’s, 1975), 261.
- Leonel Vallandro, Dicionário Inglês – Português. 9.ed. (Porto Alegre: Globo, 1979), 274.
- Gilbertson, Strong’s, 4221.
- Mário Veloso, Comentário do Evangelho de João (Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1984), 335.
- R. N. Champlin, Novo Testamento interpretado versículo por versículo, 6 Vols (Guaratinguetá: Voz Bíblica Brasileira, s.d.), 2:593.
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- Veloso, 336.
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- Brown, 817-818
- Brown, 818.
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