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O Gene da Espiritualidade Gene-espiritualidade


O Gene da Espiritualidade

Publicado em agosto 3, 2010 por Seventh Day




Por Rúben Aguilar dos Santos

Na atualidade os níveis alcançados pela tecnologia científica em vários campos, quase permitem desvendar mistérios da natureza jamais imaginados e que um dia seriam esclarecidos. Em relação aos avanços da Biologia, especificamente a Genética, é possível o mapeamento de genes responsáveis pela transmissão de algumas características físicas. Porém, as ambições de mais conhecimento não param, e as pesquisas nessa área são tentativas que sugerem conhecer os genes responsáveis pelas funções mentais e até identificar o gene que determina o comportamento religioso ou da espiritualidade.

O conteúdo deste estudo não é uma exposição de fatos que fundamentem afirmativamente o título que ostenta; aliás, poderia até ser enunciado em forma interrogativa: Poderá a ciência identificar o gene da espiritualidade?

O presente estudo procura descrever as diferentes idéias que surgiram no desenvolvimento científico-cultural através dos séculos, sobre a relação existente entre a estrutura física e o comportamento humano, especificamente a espiritualidade; para logo apresentar a versão bíblica sobre a manifestação da vida religiosa ou conversão.

A RELAÇÃO ENTRE A ESTRUTURA FÍSICA E O COMPORTAMENTO

No período do classicismo filosófico grego, o estudo da relação entre a estrutura física e o comportamento humano era um dos temas das elucubrações dos gigantes pensadores que ponderavam as especulações sobre realidades universais. Em sentido geral admitia-se que o comportamento era a expressão de uma parte da natureza humana unida ou não à estrutura física. Essa parte podia ser denominada de mente, embora sem uma definição precisa; para Aristóteles, por exemplo, a “mente é por onde a alma pensa e julga”; para Platão, a mente “é uma parte ou poder da alma humana”.1

Existe uma dificuldade ao tratar com a palavra mente; pois esse termo é usado como simples matéria de conveniência; ou seja, cada autor dá o significado que mais se aproxima às ponderações que deseja enunciar. Alguns autores relacionam a mente com a razão, o intelecto, o entendimento, a alma; outros procuram identificar a mente com a inteligência, a consciência, o espírito. Existe uma grande porção de autores e sistemas de estudo, científico, social e religioso que fazem referencia à mente em relação a uma entidade não bem conceituada, a “alma”. Não com pouca influência aparece no campo de estudos nesta área, a ideia de que a mente é uma propriedade universal da matéria; nessa concepção, até os animais estariam dotados de mente. Apesar dessa indefinição, em geral se admite que o comportamento é afetado pela mente, o qual tem uma relação com parte ou toda a estrutura física humana.2 Nessa obra o autor sugere a existência de cinco tipos de mente, as quais se caracterizam pelo comportamento de cada indivíduo.3

Uma das primeiras versões sobre a relação da estrutura física e o comportamento foi dada por Hipócrates (460-375 aC.) para quem o comportamento era a expressão externa da estrutura orgânica de uma pessoa. O pai da medicina definiu quatro tipos de comportamentos adjetivados como temperamentos, diretamente influenciados pela predominância de uma determinada parte do organismo. Os temperamentos são: sanguíneo, no qual predomina o sangue; o indivíduo com esse temperamento é alegre, otimista, rápido, comunicativo, sociável. Colérico, no qual predomina a bile amarela, que caracteriza o indivíduo violento, agressivo, facilmente excitado. Fleumático, no qual predomina a linfa ou fleuma, o indivíduo atua com desinteresse, indiferença, falta de decisão, lentidão. Melancólico, no qual predomina a bile negra, o indivíduo é triste, pouco ativo, vacilante, reservado, desconfiado, sentimental.4

Durante o período renascentista, René Descartes (1596 – 1650) fez diferença entre atividades propriamente corpóreas e mentais. Para ele, a grandeza, o desenvolvimento da figura física, o movimento e coordenação muscular, e a substância na qual se concretizam, ou seja, o corpo; são atividades corpóreas. As atividades do pensamento como: o entendimento, a vontade, a imaginação, o sentimento, e todas as que se relacionam com a consciência são chamadas mentais.5 Essa separação conceitual de atividades mentais e corpóreas levou a uma discussão sobre a dependência ou não do comportamento em relação a estrutura física. Para alguns pensadores o comportamento ou manifestação da mente depende do corpo, o qual leva a conceituar a materialização da mente; mas para outros a mente é independente do corpo e consideram a mente como entidade espiritual.

O ESTIGMA DA FRENOLOGIA

O Gene da Espiritualidade Frenologia

Na segunda metade do século XVII os cientistas começavam a definir que os processos mentais que determinam o comportamento eram elaborados no órgão superior do corpo físico, ou seja, no cérebro. Parece que o primeiro a definir a localização de certas funções mentais como a inteligência, imaginação e sensibilidade no cérebro de uma pessoa; foi o médico e místico Robert Fludd, no final do século XVII. Um desenho possivelmente de algum tempo posterior, mostra as atividades mentais divididas em mundos, como: o mundo da sensibilidade localizado no lóbulo frontal do cérebro, o mundo da imaginação na parte anterior do lóbulo temporal, o mundo da intelectualidade como o raciocínio e a abstração sobre Deus, no lóbulo parietal.6

O interesse por conhecer a relativa relação entre o volume do cérebro com a capacidade intelectual já havia chegado aos extremos da alienação. Entre muitos dos que se dedicavam a esses estudos de caráter especulativo, sobressai Franz Joseph Gall (1758-1828) quem valorizou o tamanho das diversas partes do cérebro em relação às funções mentais. Gall considerava que o cérebro estava composto por várias partes ou órgãos que serviam a uma determinada função mental que ele chamava de “talento”; supunha, ele, que eram em número de 26 ou 27. O maior tamanho relativo de cada parte do cérebro se manifestava com uma maior capacidade da respectiva função mental atribuída. Um mapa cerebral desenhado na base das conclusões de Gall mostra, por exemplo: a simpatia, a jovialidade, a ordem, no lóbulo frontal; a criatividade, a prudência, o ideal, no lóbulo temporal; a benevolência, a reverência, a espiritualidade, no lóbulo parietal; o amor próprio, o amor familiar, no lóbulo occipital.7

O trabalho de Gall foi conhecido com o nome de Frenologia o qual teve ressonância no campo da psicologia e medicina, afetando a orientação de pesquisas nesse sentido, por mais de um século. Foram várias as extirpações de cérebros de eminentes personalidades falecidas, consideradas gênios, para evidenciar a relação do tamanho da parte cerebral com a aptidão primordial do gênio; mas os resultados foram frustrantes ao ponto de a frenologia ser considerada um estigma. Mesmo assim, na atualidade existem muitos pesquisadores, embora não se considerem seguidores de Gall, que continuam a elaborar mapas cerebrais para localizar a fonte ou órgão que determina cada uma das funções mentais ou “talentos”, cujo número tem aumentado até 41, com claras perspectivas de alcançar quantidade maior.

A Psicologia ou, melhor, alguns expoentes desse ramo de estudos, também tem contribuído nessa linha para fundamentar a dependência do comportamento humano da estrutura física. Sigmund Freud (1856 – 1939) demonstrou com vários relatos que todo comportamento mesmo os irracionais e patológicos são dependentes dos esforços relativos aos propósitos e objetivos da estrutura física, que ele denominava de “instintos”.8 Assim, o instinto sexual masculino determina um comportamento diferente daquele promovido pelo instinto sexual feminino, devido à diferença da estrutura física. Com certa antecedência, segundo afirma Keith Oatley, o biólogo inglês Charles Darwin (1809 – 1882) afirmava que os animais desenvolvem seus organismos com um fim determinado e se comportam intencionalmente em relação ao meio, seguindo padrões naturais ou “instintos”.9

O LÓBULO FRONTAL E A ESPIRITUALIDADE

O Gene da Espiritualidade Lobulo-frontal

A maioria dos tratados de Psicologia expõe seus conteúdos sobre o fundamento da relação binária da natureza humana, ou seja: corpo e mente.10 Por outro lado existe uma definição mais genérica da questão no sentido de considerar a centralização das funções do intelecto no córtex cerebral. A capacidade superior de uma função intelectual depende do tamanho ou espessura do córtex. Para os pesquisadores desse ramo de estudos, existem áreas do córtex cerebral que mostram estarem diretamente relacionados com habilidades mentais como: pensar, imaginar, raciocinar, capacidade de solucionar problemas, etc.11

Uma das mais impressionantes e também das mais polêmicas afirmações relativas ao tema é a ideia de que a função mental da espiritualidade está localizada no lóbulo frontal do cérebro. Andrew Newberg, que usa o epíteto de “neuro-cientista”, afirma que a estrutura cerebral pode mudar em longo prazo, principalmente o lóbulo frontal, lugar onde estão centralizadas as emoções. Essas alterações podem ser evidenciadas observando imagens do cérebro de uma mesma pessoa, em diferentes etapas da sua vida. Newberg recomenda a meditação, oração, jejum para estimular a transformação física do lóbulo frontal; práticas que podem inclusive alterar a química cerebral, estimulando o aumento dos níveis de serotonina e dopamina; embora que conscientemente afirme que não há provas disso. As concepções de Newberg entram em conflito quando afirma que o crescimento do lóbulo frontal que determina o grau de espiritualidade, independe do tipo de religião que a pessoa pratica. Outra afirmação constrangedora é de que nunca se saberá se as mudanças do lóbulo frontal são o resultado da conversão da pessoa ou se ela já nasceu com essa estrutura.12

A concepção de que o lóbulo frontal do cérebro determina a espiritualidade é admitida por vasto grupo de pessoas relacionadas com as práticas mediúnicas. Tratada como uma atividade espiritual, para os seus praticantes, a mediunidade é uma função senso percepção, ou seja, para sua realização, é necessário a presença de um órgão que capte e outro que interprete. No caso o órgão receptor ou sensorial é a glândula Pineal ou Epífise que capta as ondas do espectro eletro-magnético que provém da dimensão espiritual; e o órgão da percepção é o lóbulo frontal que faz o juízo crítico da mensagem espiritual.13 Considerada dessa maneira, a espiritualidade além de estar ligada a estruturas físicas (glândula Pineal e lóbulo frontal), é uma atividade induzida que atua externamente e afeta o comportamento humano.

Seguindo essa linha de convicções, os palingenesistas (esotéricos, iogues, kardecistas, reencarnacionistas, etc.), qualificam a glândula Pineal como o órgão da vida espiritual e, sua atividade é estimulada por forças estranhas que procedem do espaço sideral. Assim, a glândula Pituitária é regida por Urano e, a glândula Pineal é regida por Netuno, relacionadas com o lóbulo frontal, constituem o lado espiritual da natureza humana.14

Uma das evidências que demonstra a relação do lóbulo frontal com a espiritualidade é a transformação regressiva de pessoas que sofreram um traumatismo no lóbulo frontal; embora que aplicando a lei das probabilidades, essas ocorrências sejam quase insignificantes. Mesmo assim, existe uma discrepância entre estudiosos que usam tal método para alcançar os indicados alvos do conhecimento. Edson Amâncio ao identificar com o adjetivo de “localizacionistas” os que procuram localizar a parte do cérebro que atua sobre a espiritualidade; afirma que tal grupo, sustenta a convicção de que as redes neurais que codificam a crença ou fé, e afetam a prática religiosa ou espiritualidade, residem no lóbulo temporal. A prova para enunciar tal asseveração está no relato da transformação de pessoas que sofreram lesão nessa área do cérebro, como é o caso de Vincent van Gogh.15

O REGISTRO GENÉTICO DAS CARACTERÍSTICAS HUMANAS

O Gene da Espiritualidade Projeto-genoma

A certeza de que a identidade da descendência de seres animais e vegetais depende de características hereditárias é tão remota como a organização social do primeiro grupo de pessoas sobre a terra. A compreensão desse fato encontra-se em qualquer nível de instrução, como o atesta o adágio popular: “filho de peixe, peixinho é”. Mas, como ocorre essa transmissão de caracteres hereditários e, como atua nas peculiaridades da seguinte geração? A humanidade teve que aguardar longos períodos de história e de observação até que no século XIX um monge agostiniano de origem austríaca, Gregor Mendel (1822–1884), enunciou as primeiras leis da Genética, em 1865, depois de 10 anos de observação em culturas de ervilhas.

Nas décadas da tecnologia promissora do século XX, e baseado nas leis enunciadas por Mendel, a Genética alcançou as alturas proeminentes de uma verdadeira revelação dos mistérios da herança, assim mesmo, fundamentou a teoria cromossômica da transmissão dos caracteres hereditários. O estudo dos cromossomas e principalmente dos genes, elucidou a compreensão das manifestações físicas ou fenotípicas no ser humano. Ninguém mais duvida que a manifestação das características físicas de uma pessoa depende da ação dos tipos de genes com o aporte das condições ambientais. Já é possível identificar o par de cromossomas responsável por determinada formação física e o gene que determina uma referida característica estrutural.

A ambição e os sonhos de muitos cientistas é identificar todos os genes responsáveis pela transmissão de caracteres hereditários. No campo da estrutura física e com a ajuda da engenharia genética, um determinado gene que provoca uma anomalia estrutural ou funcional do corpo físico de uma pessoa, poderia ser reparado ou removido, seguindo uma conclusão analítica do caso. No campo das funções mentais, a identificação do gene da memória, da atenção, da imaginação, da criatividade, e até da espiritualidade, poderiam passar por igual tratamento. Os passos alargados neste sentido estão sendo dados, principalmente com o projeto Genoma. Com tal tecnologia, poderá a ciência genética identificar o gene da espiritualidade?

O projeto Genoma teve seu inicio em 1990 com o auspicio de grandes potências internacionais que logo congregou pesquisadores de 18 países. A sigla HGP de “Human Genome Project” representa a entidade incumbida da execução de tal descomunal tarefa. Este organismo originalmente atuava na mira de três propósitos: identificar e mapear os genes dos 23 pares de cromossomas; determinar as bases nitrogenadas e sequência de DNA dos genes; armazenar as informações em banco de dados.16

As perspectivas criadas no início das pesquisas do projeto eram animadoras e parecia se desenvolver em ambiente aprazível de uma feliz jornada, mas logo se viu anuviada pelos resultados exponenciais das pesquisas. Assim, em 2001 foi anunciada a existência aproximada de 30.000 genes, que poderiam conter 3 bilhões de pares de bases nitrogenadas. Algum tempo depois, a HGP informou que os genes, mesmo mapeados, não podem ter suas funções genotípicas definidas e, para aumentar o grau de dificuldade na compreensão da atuação dos genes, estes podem sofrer alterações em sua forma de expressão. Outro fato que aumenta a visão tênue do projeto Genoma é a estimativa sobre as combinações possíveis dos genes dos progenitores manifestadas no genótipo do indivíduo da seguinte geração. Essa possibilidade pode alcançar a 3 bilhões ao quadrado de combinações genéticas.17

Certamente, apesar de tanta conquista e avanço tecnológico, a ciência está longe de desvendar os complexos mecanismos da herança. E a questão ressalta novamente: Poderá a ciência identificar o gene da espiritualidade?

A ESPIRITUALIDADE NO CONTEXTO BÍBLICO

O famoso psicólogo suíço, Carl Gustav Jung (1875-1961), tratava o comportamento religioso ou espiritualidade com o termo “ numinosum ”, usado por Rudolf Otto. Com esse conceito, Jung escreveu: “Qualquer que seja a sua causa, o numinoso constitui uma condição do sujeito, e é independente de sua vontade. De qualquer modo, tal como o consensus gentium , a doutrina religiosa mostra-nos invariavelmente e em toda parte que esta condição deve estar ligada a uma causa externa ao individuo”.18 Para ele a causa externa era Deus, ou seja, o comportamento religioso ou espiritualidade, é um dom de Deus. Assim o afirma a Bíblia.

A Bíblia revela que o comportamento humano depende de fatores físicos e de dons emanados pelo poder do Espírito Santo. O homem criado com atributos e forma física deve corresponder em termos de comportamento, com atitudes de pessoa humana, para cumprir os propósitos divinos: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem … e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a, dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” Gn. 1:27,28. 19 Assim, o primeiro homem ao receber sua existência, recebeu também qualidades, dons e talentos para executar sua obra, exercer domínio sobre a terra e sobre os outros seres criados. Essas habilidades certamente faziam parte de alguma das estruturas anatômicas de Adão.

Segundo o registro bíblico, as atividades, consideradas mentais ou do intelecto, e as habilidades físicas, artísticas e artesanais, são atributos impostos pelo Espírito Santo em forma de dons ou de talentos, conforme o ensinamento de Jesus na alegoria usada na parábola dos talentos em Mt 25:14-30; e na relação dos dons dos Espírito encontrado em 1 Co 12:8-11. Exemplos específicos de este procedimento divino encontram-se registrados na Bíblia ao aludir vários casos pessoais. A seguir apresentamos alguns desses casos; primeiro, em relação às habilidades físicas, que podem ser também artísticas ou artesanais, ou todo quanto é feito à mão: Jabal, “pai dos que habitam em tendas e possuem gado” (Gn 4:20); Tubalcaim, “artífice de todo instrumento cortante, de bronze e de ferro…” (Gn 4:22); Bezalel e Aoliabe, hábeis para trabalhar em ouro, prata e bronze, lapidação em pedras, bordados em carmesim, púrpura e linho fino (Ex 35:30-35); os giblitas, naturais de Biblos, hábeis para lavrar pedras (1 Rs 5:18); Hirão, filho de uma mulher da tribo de Naftali e de pai da cidade de Tiro, hábil para decorar em bronze os objetos do Templo (1 Rs 7:14); os 700 homens de Benjamim, canhotos que “atiravam com a funda uma pedra num cabelo e não erravam” (Jz 20:16); Sansão com sua descomunal força para libertar Israel (Jz 13:5); o jovem Davi hábil no uso da funda (1 Sm 17:35-40); os valentes de Davi, habilidosos no uso das armas de guerra (2 Sm 23:8-39).

Em relação às atividades mentais ou do intelecto, a Bíblia destaca os seguintes casos: Jubal, “pai de todos os que tocam harpa e flauta” (Gn 4:21); Salomão, cuja capacidade intelectual sobrepujava a de outras eminências da sua época, em conhecimento das ciências naturais, na sabedoria de diferenciar o certo do errado e na composição de cânticos e provérbios (1 Rs 4:29-34); o rei Davi, possuidor de incomum talento para compor poemas e salmos (salmos 3, 4, 5, 7, 8,9, 11, etc.); os cantores levitas, dotados de talento musical para adorar na Casa do Senhor (1 Cr 6:31-48); a capacidade de liderar com autoridade em Josué (Dt 31:9); Otoniel (Jz 3:9,10); Gideão (Jz 6:34) e todos os que exerceram liderança no povo de Israel e ainda outros do mundo pagão como Ciro o persa (Is 45:1-5); Pilatos, governador da Judéia (Jo 19:10,11); Paulo, o apóstolo aos gentios, generaliza a dotação de dons, afirmando que alguns receberam sabedoria, outros conhecimento, habilidades para exercer a ciência da cura, erudição no conhecimento de línguas, e na capacidade para interpretá-las (1 Co 12:8-11).

Os textos referidos fundamentam a noção bíblica de que o comportamento humano, como manifestação das habilidades físicas e faculdades mentais, manifestam as seguintes peculiaridades: fazem parte da estrutura física de cada pessoa; foram impostos como dons do Espírito Santo; independem do seu relacionamento íntimo com Deus; e mais ainda, podem ser transmitidos por herança às gerações seguintes, como o caso dos filhos de Jabal, Tubalcaim e Jubal, que herdaram as habilidades paternas. De todos os modos, baseados nos exemplos bíblicos apresentados, reafirmamos que uma habilidade, seja física ou mental, é um dom do Espírito Santo e faz parte da estrutura anatômica da pessoa. Um atleta não teria a habilidade necessária para vencer uma pista de corrida com impressionante velocidade se não tivesse essa faculdade na sua estrutura física. Igualmente um pianista, poeta ou matemático, não teriam essas faculdades mentais se não fossem dotados pelo Espírito Santo. Em que parte da estrutura anatômica humana, encontram-se esses dons? A Bíblia não explicita tal interrogante; mas o conhecimento das ciências biológicas, especialmente da genética, pode ajudar ao determinar a ação dos genes. Assim, a asseveração de que as habilidades físicas e mentais residem na estrutura física é decisiva. O mesmo não se pode afirmar da espiritualidade ou comportamento religioso.

O comportamento religioso ou espiritualidade, para diferenciar do comportamento profano, denomina-se conversão, ou seja, uma transformação de procedimento no sentido de manter comunhão com Deus. A Bíblia chama essa transformação de “novo nascimento” (Jo 3:6). Segundo o esclarecimento de Cristo, esse processo é imperceptível pelo homem, pois é um fenômeno semelhante à ação do vento, o qual “sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai” (Jo 3:8). A transformação, no entanto, é obra do Espírito Santo, pois é essa pessoa da Trindade, conforme asseveração de Cristo, que convence o mundo “do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16:8); mais ainda, o Redentor recalca que é o Espírito da verdade que “vos guiará a toda a verdade…” (Jo 16:13).

O dom da espiritualidade é diferente dos outros dons que o homem recebe. Os talentos que promovem habilidades físicas ou mentais, como já afirmamos, encontram-se em alguma estrutura anatômica da pessoa, possivelmente nos genes; em quanto o dom da espiritualidade ou conversão não se encontra em parte alguma do organismo humano. O talento para habilidades físicas ou mentais que uma pessoa recebe e o cultiva, sempre se manifestará em forma independente da sua comunhão ou não com Deus; mas o dom da espiritualidade ou conversão, depende da permanente comunhão com Deus; havendo afastamento da presença divina, não haverá manifestação da vida religiosa.

Cada faculdade física ou mental é simplesmente uma graça divina atribuída às pessoas; mas o dom da espiritualidade é a dotação plena da natureza divina no íntimo da pessoa humana que aceita esse dom. Em outras palavras, o homem convertido que experimenta o novo nascimento, fica cheio do Espírito Santo, “segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito” (I Pe 1:2). Paulo confirma essa noção afirmando o desejo de que os convertidos “sejam fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior” (Ef 3:16). Essa condição deve ser sempre revista com atenção, para seguir o conselho paulino: “Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (Gal 5:25). O apóstolo Paulo ainda esclarece que o dom da espiritualidade, ou a vida cheia do Espírito é a máxima experiência que todo convertido possa vivenciar, como ele mesmo afirma: “logo já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus” (Gal 2:20).

A conversão ou adquirir o dom da espiritualidade é extensiva a toda pessoa, bastando unicamente aceitar o convite que processa a transformação desejada, “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo” (Ap 3:20). Essa atitude divina é efetuada por amor (Rm 5:5) e pela Sua misericórdia (Ti 3:5); os que aceitam esse convite são transformados conforme a lição paulina, passando por estágios da experiência espiritual: “mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (I Co 6:11; 2 Co 3:18).

CONCLUSÃO

O comportamento humano que se revela mediante a execução de habilidades físicas e mentais é uma manifestação exterior de atributos da estrutura interior da pessoa humana, primariamente, dos genes. Por outro lado, através de diversos sistemas e métodos de estudo, em várias áreas do conhecimento científico, muitos pesquisadores procuram atribuir certas funções mentais a partes da estrutura física, principalmente do cérebro. Essa tentativa ainda não pode ser constatada com evidências fidedignas. Mesmo o mapeamento de genes humanos ainda não possibilita tal identificação.

Em relação à espiritualidade ou vida religiosa, por enquanto todo conhecimento científico não revela a mínima possibilidade de atribuir esse dom a uma estrutura anatômica. A tentativa de identificar algum gene, ou parte estrutural do cérebro como o lóbulo frontal, com o dom da espiritualidade, não pode passar de simples enunciado especulativo.

O contexto bíblico confirma que as habilidades físicas e mentais fazem parte da estrutura física das pessoas; mesmo assim, não dá lugar a nenhum indício de localização dessas faculdades no contexto estrutural da anatômica humana. Porém, em relação ao dom da espiritualidade, a Bíblia com numerosos textos, esclarece que, à diferença dos outros dons e talentos, é um dom divino que processa a transformação da pessoa, como obra do Espírito Santo; não faz parte de nenhuma estrutura orgânica da pessoa humana. Sua manifestação depende da comunhão do indivíduo com Deus. A religiosidade ou espiritualidade de uma pessoa é a manifestação exterior de uma vida interior onde habita o Espírito de Deus ou o próprio Cristo.

Referências:

1 Maynard Hutchins, Robert, editor chefe de “Great Books of the Western World”, vol. 3 The Great Ideas, chap. 58, Mind, p. 172. Encyclopaedia Britannica, Inc. London, 1980.

2 Gardner, Howard. “Cinco Mentes para o Futuro”, tradução de Roberto Cataldo Costa. Editora Artmed, Porto Alegre, RS, 2007, pp. 11-17.

3 Ver também a Introdução da obra: Wright, Nicolas. Editor “Understanding Human Behavior”, vol I, Columbia House NY, 1974.

4 Hall, Calvin S.; Lindzey, Gardner; Campbell, John B. “Teorias da Personalidade” Quarta edição, Artmed Editora, Porto Alegre RS, 2000, pp. 297-299

5 Descartes, René. “ Meditations on the First Philosophy in which the Existence of God and the Distinction Between Mind and Body are Demonstrated”, em Maynard Hutchins, Robert, Op. Cit. Vol. 31, pp. 77– 81, 1980.

6 Oatley, Keith. “Brain Mechanism and Mind”, Thames and Hudson Ed. London, 1972, pp. 8,9.

7 Ibid. pp. 45 – 48.

8 Embora as primeiras afirmações do tratado de Freud confirmem as limitações da ciência de dar definições absolutas, ele procura demonstrar a dependência do processo comportamental da estrutura física; Freud, Sigmund. “Instincts and Their Vicissitudes”, em Maynard Hutchins, Robert, Op. Cit. Vol. 54, pp. 412 – 421.

9 Oatley, Keith. Op. Cit., p. 114.

10 Wright, Nicolas, editor. “Understanding Human Behavior”, vol. I, Columbia House, N Y, 1974. Na Introdução o editor responsável explica que o propósito da obra apresentada é tratar a relação Mente Corpo.

11 Coon, Dennis. “Introduction to Psychology. Exploration and Application”. West Publishing Company, NY, 1977, p. 62.

12 As afirmações de Andrew Newberg encontram-se na obra da sua autoria: “Como Deus Muda seu Cérebro” publicado pela editora do Grupo Reflexo, São Paulo, rua Bento Manuel Nº 36, sem data.

13 Oliveira, Sérgio Filipe de. “A Função Mediúnica” em “Jornal do Espiritismo” da ADEP; o autor é médico psiquiatra com doutorado em Ciências pela USP, investiga mediunidade.

14 Felipozzi, Rosana. “A Atividade da Glândula Pineal”, Revista Espiritismo e Ciência, nº 37, p.24, 2002.

15 Amâncio, Edson. “Religião e Epilepsia” na revista Saúde e Espiritualidade, edição 47, Abril 2006, pp. 18 -21.

16 Azevedo, Roberto Cesar de. “Genoma. Passado, Presente e Futuro”, Unaspress, Imprensa Universitária Adventista, UNASP, Engenheiro Coelho, SP, 2004, pp. 1-4. Ver também: Goldim, JR & Matte, O. “Projeto Genoma Humano”, Wikipedia, a Enciclopédia Livre, Projeto Genoma, Consulta eletrônica efetuada em 25/06/2010.

17 Azevedo, Roberto Cesar de. Op. Cit., pp. 3-7. Ver também: Oliveira, F. “Engenharia Genética. O Sétimo Dia da Criação”. Editora Moderna, São Paulo, 1998, pp. 56,57.

18 Jung, C.G. “Psicologia e Religião”, editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1978, p. 9.

19 Os textos usados correspondem à versão de João Ferreira de Almeida, Revista e Atualizada no Brasil, 2da. Edição, 1993.

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Rúben Aguilar dos Santos, Ph.D
Professor de Antigo Testamento e História do Cristianismo
do curso de Teologia do Unasp
Centro Universitário Adventista de São Paulo,
Campus Engenheiro Coelho


Fonte: Kerygma
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